Papa Francisco, Páscoa e Ramadão evocados na sessão solene comemorativa do 25 de Abril de 1974

| 26 Abr 20

Cerimónia comemorativa dos 46 anos do 25 de Abril de 1974. Marcelo Rebelo de Sousa e Ferro Rodrigues

Cerimónia comemorativa dos 46 anos do 25 de Abril de 1974. Marcelo Rebelo de Sousa e Ferro Rodrigues. Foto cedida pela Presidência da República

 

Não se deve imolar quem ficou para trás no altar do progresso e a União Europeia encontra-se diante de um desafio histórico, do qual dependerá não só o seu futuro, mas o do mundo inteiro. Dus ideias do Papa recordadas pelas duas principais figuras do Estado, na cerimónia evocativa do 25 de Abril.

 

O Papa Francisco foi evocado por duas vezes na sessão solene comemorativa dos 46 anos do 25 de Abril de 1974. E a recente celebração da Páscoa e o Ramadão que actualmente decorre no calendário islâmico serviram ao Presidente da República para justificar que não faria sentido deixar de realizar a sessão.

Na intervenção com que encerrou a sessão, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, dedicou boa parte da sua intervenção a defender porque deveria a sessão realizar-se no Parlamento.

Referindo-se ao argumento de quem invocou que os crentes não podem celebrar liturgias comunitárias, o Presidente contestou a ideia de que possa haver comparação com a Páscoa e o Ramadão: “Num tempo de confinamento de tantos portugueses, como foi na Páscoa e é agora no Ramadão, não estamos perante um mau exemplo em estado de emergência no plano dos princípios, como no do acatamento das diretivas sanitárias? Não.”

No seu discurso, Marcelo passou em revista os vários argumentos de quem contestava a legitimidade de uma sessão parlamentar. “A presente evocação não é uma festa de políticos alheia ao clima de privação vivido na sociedade portuguesa”, afirmou, entre os vários argumentos que enumerou. Para justificar, em seguida: “Evocar o 25 de Abril é falar deste tempo, não é ignorá-lo. É falar dos seus desafios, presentes e futuros. Do que fazemos e do que falta fazer. Do que acertamos e do que erramos. É ainda ir às raízes buscar forças adicionais, encontrar mais razões para mobilizar, para enfrentar cansaços, desânimos e frustrações.”

Vale a pena, por isso, recordar o dia em que Portugal se libertou do regime totalitário, defendeu o Presidente: “E os que aqui estamos, vale a pena lembrá-lo, na diversidade de opiniões, não viemos de outro país, de outro mundo, de outra galáxia, fomos a livre escolha dos portugueses. E o que nos reúne hoje são os seus dramas, os seus anseios, as suas angústias pelas quais somos assumidamente responsáveis.”

Marcelo enumerou, depois, um conjunto de razões que justificam a evocação da data. Entre muitas, “evocar Abril” é agradecer o “gesto insubmisso” dos capitães que lideraram a revolução; é “combater a crise na saúde que ainda atravessamos e vamos atravessar” e também “a crise económica e social” que começa a viver-se e “chorar os mortos”. Concluiu, mesmo, que seria “um absurdo cívico” e mesmo “incompreensível e vergonhoso” não comemorar o 25 de Abril.

 

O Papa, os excluídos e a Europa

Mais à frente, depois de se referir a vários problemas sociais, Marcelo Rebelo de Sousa acrescentaria que evocar Abril é “não imolar quem ficou para trás no altar do progresso, como lembrava o Papa Francisco, ou seja, não excluir ainda mais os mais excluídos”.

O Presidente não esqueceu as “fragilidades, as desigualdades, as clivagens no nosso tecido social”, bem como as “debilidades, as carências, as descoordenações, a rigidez, a lentidão em demasiadas das nossas instituições”, a par de aspectos positivos da vida social, cultural, científica e da chamada de atenção para o carácter “insubstituível” da comunicação social.

No final da sessão, aliás, o Presidente dirigiu-se ao Cais do Sodré e a Santa Apolónia, para colaborar na distribuição de refeições a pessoas sem-abrigo, utilizando máscara e luvas, como recomendado em tempos de pandemia.

A primeira referência ao pensamento do Papa Francisco surgira, entretanto, no discurso inicial, do presidente da Assembleia da República. Quase no final da sua intervenção, Eduardo Ferro Rodrigues referiu-se ao crescimento dos populismos e ao papel da União Europeia.

“Como disse há poucos dias o Papa Francisco, hoje a União Europeia encontra-se face a um desafio histórico, do qual dependerá não só o seu futuro, mas o do mundo inteiro”, afirmou o presidente do Parlamento.

Ferro Rodrigues afirmou: “Fiel aos princípios fundadores deste projecto comum de paz, de desenvolvimento e democracia, Portugal tudo quer fazer e tem feito através do governo e não só, para que neste intervalo negro não se perca a Europa da partilha e da solidariedade.”

No âmbito da União Europeia, Portugal tem tido essa “aposta: contribuir para que esta não perca de vez toda a credibilidade e razão de ser”. “Não tenhamos qualquer dúvida”, avisou: “Se não houver solidariedade europeia no período mais grave que os Estados-membros atravessam desde o final da II Guerra Mundial, o projecto europeu deixará de fazer sentido.”

Por isso, alertara Ferro Rodrigues: “A resposta (aos populismos) passa por tornar a democracia mais inclusiva, mais representativa, uma democracia de confiança, capaz de gerar confiança. A resposta passa por tornar as nossas instituições mais fortes, mais sólidas, mais capazes de responder aos anseios das populações e de afastar os seus receios, não só em Portugal.”

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