Francisco na Hungria

Papa pede abertura à diferença e recusa de “entrincheiramentos”

| 13 Set 2021

Papa Francisco na chegada à Hungria. Foto ©Vatican Media

 

Apelos claros à atitude de abertura das comunidades católicas, ao respeito pelas diferenças e à recusa do antissemitismo e dos “entrincheiramentos” marcaram as sete horas da passagem do Papa Francisco pela Hungria, neste domingo, 12 de Setembro, onde se deslocou para presidir à eucaristia de encerramento do Congresso Eucarístico Internacional.

“A cruz plantada no solo, além de nos convidar a que nos enraizemos bem, ergue e estende os seus braços a todos: exorta a manter firmes as raízes, mas sem entrincheiramentos; a beber nas fontes, abrindo-nos aos sedentos do nosso tempo”, disse o Papa perante milhares de pessoas reunidas na Praça dos Heróis, em Budapeste, antes da recitação da oração do Ângelus.

Na última intervenção na capital húngara, onde iniciou a 34ª viagem internacional do seu pontificado, relata a Ecclesia, Francisco falou da herança cristã do país europeu e do simbolismo da cruz como “ponte entre o passado e o futuro”. “O sentimento religioso é a seiva vital desta nação, tão afeiçoada às suas raízes”, sublinhou, pedindo que os católicos sejam “alicerçados e abertos, enraizados e respeitadores”.

A mensagem adquire mais importância sabendo que a Hungria tem, nos últimos anos, tomado medidas políticas contra migrantes e refugiados, bem como contra quem os ajudam. Mesmo assim, o encontro de 15 minutos que o Papa teve com o Presidente János Áder e o primeiro-ministro Viktor Orbán, foi “cordial”, de acordo com a Sala de Imprensa da Santa Sé. “Entre os vários temas debatidos estiveram o papel da Igreja no país, o compromisso com a preservação do meio ambiente, a defesa e promoção da família”,

Apesar de muitas das suas posições contrariarem apelos do Papa, invocando a defesa do que considera a “civilização cristã”, Orbán disse que que pediu a Francisco que “não deixe perecer a Hungria cristã”.

Na missa de encerramento do congresso, esteve também presente o patriarca ortodoxo Bartolomeu, de Constantinopla (Istambul. Antes, num encontro com representantes do Conselho Ecuménico de Igrejas e comunidades judaicas da Hungria, o Papa denunciaria o crescimento da “ameaça do antissemitismo” que ainda larva na Europa e não só: “É um rastilho que deve ser apagado. A melhor forma de o neutralizar é trabalhar juntos, de forma positiva, é promover a fraternidade”, afirmou Francisco, no Museu de Belas Artes de Budapeste.

 

A mudança abençoada por Deus

O Papa apelou ainda a todos os presentes que superem as “incompreensões do passado”, sublinhando que “Deus tem sempre projectos de paz”. E judeus e cristãos querem “ver no outro, já não um estranho mas um amigo, já não um adversário mas um irmão”, disse. “Esta é a mudança de perspectiva abençoada por Deus, a conversão que abre novos começos, a purificação que renova a vida”, acrescentou.

Dirigindo-se especificamente aos judeus, que por estes dias celebram duas das suas festas principais, Francisco afirmou: “As festas solenes de Rosh Hashanah e do Yom Kippur – têm lugar precisamente neste período, formulando-vos os melhores votos – são ocasiões de graça para renovar a adesão a estes convites espirituais. O Deus de nossos pais abre sempre novos caminhos: tal como transformou o deserto em caminho para a Terra Prometida, assim também deseja conduzir-nos dos desertos áridos da aversão e da indiferença para a suspirada pátria da comunhão.”

No seu discurso, o Papa avisou ainda contra a tentação de “absorver o outro”, em vez de construir pontes, desejando uma “educação para a fraternidade, a fim de que não prevaleçam os surtos de ódio que a querem destruir”. E acrescentou: “Que ninguém possa dizer que dos lábios dos homens de Deus saem palavras que dividem, mas apenas mensagens de abertura e de paz. Num mundo dilacerado por tantos conflitos, este é o melhor testemunho que deve oferecer quem recebeu a graça de conhecer o Deus da aliança e da paz”.

Ainda antes do encontro ecuménico, Francisco esteve com os bispos húngaros. “Diante das diferenças culturais, étnicas, políticas e religiosas, podemos ter duas atitudes: fechar-nos em uma defesa rígida da nossa chamada identidade ou abrir-nos ao encontro com o outro e cultivar juntos o sonho de uma sociedade fraterna”, disse no discurso divulgado pelo Vaticano, já que o encontro decorreu à porta fechada.

Defendendo uma Igreja que “construa novas pontes de diálogo”, Francisco pediu aos bispos que mostrem sempre que “o verdadeiro rosto da Igreja” é o de mãe, um “rosto acolhedor para todos, também para os que vêm de fora, um rosto fraterno, aberto ao diálogo”.

Ao mesmo tempo, insistiu, em mensagens que implicitamente criticam a actual orientação política do país, em que a Hungria “precisa de um anúncio renovado do Evangelho, de uma nova fraternidade social e religiosa, de uma esperança a ser construída dia a dia para olhar para o futuro com alegria”.

O Papa elogiou ainda a história da Igreja magiar, “marcada pela fé inabalável, pelas perseguições e pelo sangue dos mártires”, que deve impulsionar o mesmo desejo de “viver a caridade e testemunhar o Evangelho”.

Papa Francisco, Eslováquia, Hungria

Logotipo da viagem do Papa Francisco à Eslováquia, 12-15 Setembro 2021

O primeiro dia desta 34ª viagem internacional terminou com a chegada de Francisco a Bratislava (Eslováquia), onde o Papa ficará até quarta-feira. À chegada, foi recebido pela Presidente Zuzana Caputová, duas crianças com trajes tradicionais que ofereceram pão, sal e flores, em sinal de boas-vindas, e centenas de pessoas.

O primeiro encontro foi com membros do Conselho Ecuménico das Igrejas na República Eslovaca, aos quais sugeriu que os cristãos, mesmo sem poderem partilhar a mesa eucarística, podem servir Jesus nos pobres. “Será um sinal mais sugestivo do que muitas palavras, que ajudará a sociedade civil a compreender, especialmente neste período doloroso, que só estando do lado dos mais fracos poderemos sair verdadeiramente todos da pandemia.”

Referindo também os tempos da perseguição religiosa e a tentação do acomodamento, o Papa questionou: “Daqui, do coração da Europa, perguntemo-nos: será que nós, cristãos, perdemos um pouco o ardor do anúncio e a profecia do testemunho? (…) “Como podemos desejar uma Europa que reencontre as suas raízes cristãs, se somos nós os primeiros desarraigados da plena comunhão? Como podemos sonhar com uma Europa livre de ideologias, se não temos a coragem de antepor a liberdade de Jesus às necessidades dos grupos particulares de crentes?”

Nesta segunda-feira, decorre a cerimónia oficial de boas-vindas (8h15, hora de Lisboa), após o que Francisco se encontra com autoridades, sociedade civil e corpo diplomático. Ainda de manhã, será a vez de bispos, clero, religiosos, seminaristas e catequistas. À tarde, será a vez do encontro com a comunidade hebraica da cidade, bem como com o presidente do Parlamento e o primeiro-ministro eslovacos.

 

Mais do que A Voz da Fátima

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Mais do que A Voz da Fátima novidade

Que fosse pedido a um incréu um texto de prefácio para um livro sobre A Voz da Fátima, criou-me alguma perplexidade e, ao mesmo tempo, uma vontade imediata de aceitar. Ainda bem, porque o livro tem imenso mérito do ponto de vista histórico, com o conjunto de estudos que contém sobre o jornal centenário, mas também sobre o impacto na sociedade portuguesa e na Igreja, das aparições e da constituição de Fátima e do seu Santuário como o centro religioso mais importante de Portugal. Dizer isto basta para se perceber que não é possível entender, no sentido weberiano, Portugal sem Fátima e, consequentemente, sem o seu jornal.

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