Mediterrâneo, um “enorme cemitério”

Papa pede portas das igrejas e das residências paroquiais abertas aos refugiados

| 22 Set 2023

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O Papa Francisco no memorial aos marinheiros e migrantes mortos no Mediterrâneo, em Marselha (França). Foto © Vatican Media/Facebook

O Papa pediu nesta sexta-feira, 22 de Setembro, em Marselha (Sul de França), que se abram “as portas das igrejas e das residências paroquiais, mas sobretudo as do coração para mostrar, através da nossa mansidão, gentileza e acolhimento, o rosto de Nosso Senhor” aos refugiados e migrantes. Momento depois, ao recordar os migrantes que morreram ao tentar atravessar o mar, rumo à Europa, afirmou que o Mediterrâneo se transformou num “enorme cemitério”.

“Quem se aproxima de vós, não encontre indiferença e julgamento, mas o testemunho duma alegria humilde, mais frutuosa do que toda a capacidade que possais ostentar”, disse Francisco, no encontro de oração na Basílica de Notre-Dame de la Garde, com a comunidade católica, primeiro momento do programa de dois dias cujo ponto alto é a participação nos Encontros do Mediterrâneo.

Recebido pelo cardeal Jean-Marc Aveline, arcebispo de Marselha, o Papa afirmou que a Igreja Católica tem de ser um espaço de acolhimento e solidariedade para quem sofre. “Desde o século XIII, o santo Povo de Deus procurou e encontrou aqui, na colina de La Garde, a presença do Senhor através dos olhos da sua Santa Mãe. Por isso, há séculos que os marselheses – especialmente os que navegam por entre as ondas do Mediterrâneo – sobem aqui para rezar”, recordou.

Na sua intervenção o Papa referiu-se ainda ao “cruzamento de povos” que se vive em Marselha, para falar sobre o “cruzamente de olhares” entre Jesus, a humanidade e a Virgem Maria.

Referiu depois os padres e consagrados como também sendo “chamados a fazer sentir ao povo o olhar de Jesus e, ao mesmo tempo, levar a Jesus o olhar dos irmãos”. E afirmou: “No primeiro caso, somos instrumentos de misericórdia; no segundo, instrumentos de intercessão.” Todos os católicos, acrescentou, devem ser “homens e mulheres de compaixão”, acompanhando especialmente os “mais frágeis e os menos afortunados”. E apelou: “Que os feridos da vida encontrem um porto seguro no vosso olhar, um encorajamento no vosso abraço, uma carícia nas vossas mãos, capazes de enxugar lágrimas.”

“Caríssimos, levemos aos irmãos o olhar de Deus, levemos a Deus a sede dos irmãos, espalhemos a alegria do Evangelho. Esta é a nossa vida que é incrivelmente bela, não obstante os cansaços e as quedas”, concluiu.

Após a intervenção, o Papa recitou uma oração a Notre-Dame de la Garde, para que todos se empenhem em “servir cada vez mais os irmãos”.

 

Mediterrâneo, a definitiva recusa a um futuro melhor

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Dois refugiados cumprimentam o Papa Francisco. Foto © Vatican Media/Facebook

No final do encontro de oração, Francisco seguiu para um momento de reflexão com líderes religiosos, junto do memorial dedicado aos marinheiros e migrantes que morreram no mar.

“Diante de nós, temos o mar, fonte de vida; mas este lugar evoca a tragédia dos naufrágios, que provocam a morte. Estamos reunidos em memória daqueles que não sobreviveram, que não foram salvos.”

Acompanhado por líderes religiosos que participam na terceira edição dos Encontros do Mediterrâneo, o Papa pediu: “Não nos habituemos a considerar os naufrágios como meras notícias de jornal, nem os mortos no mar como números: são nomes e apelidos, são rostos e histórias, são vidas despedaçadas e sonhos desfeitos.”

O Papa, que desde o início do pontificado já visitou campos de refugiados em Lampedusa, Lesbos e Malta, chamando a atenção para a tragédia que a política europeia tem provocado no Mediterrâneo, recordou os “irmãos e irmãs afogados no medo, juntamente com as esperanças que traziam no coração”.

Perante um drama assim não bastam palavras, mas actos, acrescentou. “Mais ainda, humanidade: silêncio, choro, compaixão e oração. Convido-vos agora a um momento de silêncio em memória destes nossos irmãos e irmãs: deixemo-nos tocar pelas suas tragédias.”

Depois desse momento, Francisco recordou as “demasiadas pessoas” que, fugindo de conflitos, pobreza e calamidades ambientais, “encontram entre as ondas do Mediterrâneo a definitiva recusa à sua busca dum futuro melhor”.

“Este mar esplêndido tornou-se um enorme cemitério, onde muitos irmãos e irmãs são privados até do direito de ter um túmulo, acabando por ser sepultada apenas a dignidade humana”, denunciou.

O Papa referiu-se a uma “encruzilhada de civilização”, na qual cada um deve escolher entre a fraternidade ou a indiferença: “Não podemos resignar-nos a ver seres humanos tratados como mercadoria de troca, encarcerados e torturados de maneira atroz. Sabemos disso, muitas vezes, quando os mandamos embora, é para serem presos e torturados. Já não podemos assistir às tragédias dos naufrágios, devido a tráficos odiosos e ao fanatismo da indiferença.”

 

É um crime!

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Sessão que juntou o Papa Francisco a líderes religiosos e refugiados no memorial aos marinheiros e migrantes mortos no Mediterrâneo, em Marselha. Foto © Vatican Media/Facebook

 

Condenando implicitamente a política que tem predominado na União Europeia e em Itália, que condena por vezes os voluntários de organizações humanitárias, acrescentou Francisco: “As pessoas que correm o risco de se afogar, quando são abandonadas no meio das ondas, devem ser socorridas. É um dever de humanidade, é um dever de civilização!”

Ao invés, o Papa elogiou o compromisso “solidário e concreto na promoção humana e na integração” que responsáveis de várias religiões têm assumido em Marselha – em concreto, referiu a Marseille Espérance, organização de diálogo inter-religioso que promove a fraternidade e a convivência pacífica.

“Irmãos, irmãs, enfrentemos unidos os problemas, não façamos naufragar a esperança, componhamos juntos um mosaico de paz”, concluiu.

Numa oração em que intervieram várias pessoas, foram evocados os “milhões de pessoas lançadas nas estradas e nos mares do mundo pela guerra, pela pobreza, pela perseguição política ou religiosa”.

Na saudação de boas-vindas que dirigiu ao Papa, o cardeal Jean-Marc Aveline alertou para a situação de “homens, mulheres e crianças que, sem saber nada sobre navegação, fugindo da pobreza e da guerra, são despojados dos seus bens por contrabandistas desonestos, que os sentenciam à morte obrigando-os a embarcar em barcos obsoletos e perigosos”.

“É um crime! E quando as instituições políticas proíbem as organizações não-governamentais e mesmo os navios que navegam nestas águas de resgatar náufragos, trata-se de um crime igualmente grave e de uma violação do mais básico direito marítimo internacional”, acusou.

Ao concluir a sessão, o Papa, juntamente com dois migrantes e líderes religiosos, dirigiu-se ao memorial dedicado aos marinheiros e migrantes que morreram no mar, depositando uma coroa de flores em sua memória.

Neste sábado, Francisco encontra-se com pessoas em situação de necessidade económica na casa das Missionárias da Caridade. Às 10h (9h em Lisboa), realiza-se a sessão conclusiva dos Encontros do Mediterrâneo, no Palais du Pharo. Antes do almoço, o Papa tem um encontro com o Presidente francês, Emmanuel Macron. Antes de deixar Marselha, presidirá ainda à missa no estádio Vélodrome, às 16h15 locais (menos uma hora em Lisboa).

 

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