
O Papa saúda Georgios Poulides, decano do corpo diplomático credenciado junto da Santa Sé, durante o encontro anual com os vários representantes. Foto © Vatican Media
Como não podia deixar de ser, o Papa dedicou o seu discurso ao corpo diplomático acreditado junto da Santa Sé – com quem teve o seu tradicional encontro anual nesta segunda-feira, 8 de janeiro – à paz. “Num momento histórico em que a mesma está cada vez mais ameaçada, fragilizada e parcialmente perdida”, Francisco referiu os inúmeros conflitos em curso no mundo e pediu que os crimes de guerra sejam não só reconhecidos como evitados.
Dirigindo-se aos diplomatas que representam a Santa Sé em 184 países do mundo, o Papa observou que, à medida que o ano de 2024 se inicia, o mundo é “cada vez mais dilacerado” por guerras e “a distinção entre alvos militares e civis já não é respeitada”. “Não há conflito que não acabe de alguma forma por atingir indiscriminadamente a população civil”, disse ele, acrescentando que “não devemos esquecer que as graves violações do direito humanitário internacional são crimes de guerra e que não é suficiente apontá-las, mas também é necessário evitá-las”.
Assim, defendeu, “há necessidade de um maior esforço por parte da comunidade internacional para defender e implementar o direito humanitário, que parece ser a única forma de garantir a defesa da dignidade humana em situações de guerra”.
Quanto à Santa Sé, assinalou, é seu dever “ser voz profética e apelo à consciência” no seio da comunidade internacional.
Palestina e Ucrânia em destaque
Na sua reflexão, Francisco deu particular atenção ao conflito entre Israel e a Palestina, recordando que o ataque terrorista de 7 de outubro deixou todos “chocados” e provocou uma forte resposta militar israelita em Gaza. “Repito a minha condenação” e “renovo o meu apelo a um cessar-fogo”, disse o Papa. “Assim não se resolvem as questões entre os povos, antes pelo contrário tornam-se mais difíceis, causando sofrimento a todos”.
E concluiu: “Se conseguíssemos fixar cada uma das vítimas nos olhos, acrescentou, veríamos a guerra como ela é: nada mais que uma enorme tragédia e ‘um massacre inútil’, que fere a dignidade de toda a pessoa nesta terra.”
O Papa lamentou em seguida a guerra em curso “travada pela Federação Russa contra a Ucrânia”, dizendo: “Não se pode permitir a persistência de um conflito que continua a formar metástases, em detrimento de milhões de pessoas”.
E insistiu: “É necessário pôr fim à tragédia atual através de negociações, no respeito pelo direito internacional”.
Recorde-se que tanto a Rússia como Israel enfrentam acusações de crimes de guerra no âmbito dos conflitos em curso nos seus territórios..
No ano passado, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de prisão contra o Presidente russo, Vladimir Putin, sob várias acusações, e para Maria Alekseyevna Lvova-Belova, Comissária para os Direitos da Criança no Gabinete do Presidente da Federação Russa, pela deportação ilegal de crianças ucranianas para Rússia.
A esposa de um padre ortodoxo que é cúmplice de Putin na deportação de crianças
Da mesma forma, Israel foi acusada por vários países de cometer crimes de guerra no âmbito da sua ofensiva militar em curso em Gaza, com cerca de 17.000 civis palestinianos mortos na guerra desde outubro, cerca de 70 por cento dos quais mulheres e crianças.
De forma mais breve, o Papa mencionou ainda outras regiões do mundo em conflito: Líbano, Síria, Myanmar, Azerbaijão, Arménia, Corno de África, República Democrática do Congo, Venezuela e Guiana.
E lembrou que, se as guerras existem, isso deve-se também à enorme disponibilidade de armas. “Quantas vidas se poderiam salvar com os recursos atualmente destinados aos armamentos? Não seria melhor investi-los a favor de uma verdadeira segurança global?”, questionou. E renovou a sua proposta de constituir um Fundo Mundial para eliminar finalmente a fome e promover um desenvolvimento sustentável de todo o planeta.
A importância dos jovens, da política como serviço, e do Jubileu

“Conservo no coração aquele encontro com mais de um milhão de jovens, provenientes de todas as partes do mundo, cheios de entusiasmo e vontade de viver. A sua presença foi um grande hino à paz”, disse o Papa sobre a JMJ Lisboa 2023. Foto © Sebastião Roxo/JMJ 2023
O Papa recordou ainda todas as suas viagens internacionais de 2023: República Democrática do Congo, Sudão do Sul, Hungria, Portugal, Mongólia e Marselha. Ao falar da Jornada Mundial da Juventude, sublinhou o desafio da educação, que considera “o principal investimento no futuro e nas gerações jovens”. “Conservo no coração aquele encontro com mais de um milhão de jovens, provenientes de todas as partes do mundo, cheios de entusiasmo e vontade de viver. A sua presença foi um grande hino à paz”, afirmou.
Depois, assinalou que o diálogo político e social é também necessário para a paz, observando que muitos países realizarão eleições em 2024. “A política, por sua vez, deve ser sempre entendida não como uma apropriação de poder, mas como a forma mais elevada de caridade e, portanto, de serviço ao próximo dentro de uma comunidade local ou nacional”, disse.
O Papa concluiu o seu discurso referindo-se ao Jubileu, que terá início no próximo Natal de 2024: “Talvez hoje, mais do que nunca, tenhamos necessidade do ano jubilar”, que é “um tempo de justiça, em que os pecados são perdoados” e em que “a reconciliação permite superar a injustiça e a terra repousa”. Na perspetiva de Francisco, este poderá “ser para todos – cristãos e não-cristãos – o tempo para quebrar as espadas e delas fazer arados; o tempo em que uma nação não mais levantará a espada contra outra nação, nem se aprenderá mais a arte da guerra”.









