Francisco recebe ucranianos

Papa quer ir a Kiev logo que possa

| 13 Jun 2022

Bairro de Andriyivskyy Descent, em Kiev. Foto © Ilya Cher | Unsplash

Bairro de Andriyivskyy Descent, em Kiev. Foto © Ilya Cher | Unsplash

 

Uma reunião informal e privada, no Vaticano, com uma delegação ucraniana, cujo conteúdo acaba de ser tornado público, mostra que o Papa Francisco não tem parado, no sentido de ajudar a encontrar uma saída justa para a guerra. Através desta informação, é possível perceber não ter cabimento a acusação de que Francisco mantém uma política ambígua, se não mesmo russófila, relativamente à invasão das tropas de Putin.

O encontro, divulgado pelo site Il Sismografo, ocorreu no dia 8 de junho, e foi mediado por um argentino amigo de Bergoglio. Estiveram presentes Yevhen Yakushev, de Mariupol, Denys Kolyada, consultor para o diálogo com organizações religiosas, e o vice-reitor da Universidade Católica Ucraniana, de Lviv (UCU). O relato da reunião é deste último.

O amigo argentino do Papa, de seu nome Alejandro, é o autor de uma plataforma onde pessoas e instituições da Ucrânia que classificavam de ambíguos alguns gestos do Pontífice pudessem dirigir-lhe as suas inquietações. Entre os contactos assim suscitados, interessou particularmente o Papa a missiva de Denis Kolyada, que gerou um canal de comunicação e simpatia entre os dois.

No início da reunião, Francisco abriu o jogo: “Podemos falar sobre tudo aquilo que for necessário”. E assim aconteceu. As razões da atitude crítica de muitos ucranianos em relação à posição do Vaticano sobre a atual guerra russo-ucraniana, bem como em relação a alguns passos da própria solidariedade do Papa foram colocadas sobre a mesa e refletidas em conjunto.

Para os ucranianos presentes, “a Ucrânia tem sido vista pelo prisma russo há muito tempo, particularmente no Vaticano”. A opção cristã pelos ofendidos significa que “é injusto olhá-los pelo prisma da propaganda informativa do agressor [russo]”, pelo que fizeram presente ao Papa ter chegado “a hora de o Vaticano desenvolver a sua própria política face à Ucrânia”, não contaminada pela política que tem tido relativamente à Rússia. “O povo ucraniano pode não ter sido sujeito da sua própria história, mas agora luta por ela, pagando um alto preço por isso”, frisou a delegação ucraniana no encontro com o Papa.

 

“O povo russo também deve responder pela invasão da Ucrânia”

Para os ucranianos foi também importante manifestar ao seu interlocutor que muitos europeus compassivos “cometem o grave erro de tentar responsabilizar Putin, mas não os russos”. “Sim, – enfatizaram – a culpa por esta guerra criminosa recai principalmente sobre a liderança russa. No entanto, os crimes de guerra na Ucrânia são cometidos por soldados russos e também pelo povo russo, que maioritariamente aprova a guerra e, portanto, é responsável por ela”.

“É por isso que amar os russos significa revelar-lhes a verdadeira extensão dos seus crimes, ajudá-los a sentir o horror do que fizeram e acompanhar as suas almas ao arrependimento sincero aos olhos de Deus e do povo”, defenderam os ucranianos.

Por outro lado, foi solicitado ao Papa que “apoiasse o pedido da Ucrânia de aderir à União Europeia”, o que ele prometeu fazer numa audiência que, entretanto, teve na sexta-feira 10 de junho com Ursula von der Leyen. Quanto às armas, a delegação quis fazer valer perante o Papa o direito do povo ucraniano a defender-se. Considerando a renitência do Papa em apoiar o fornecimento de armas letais à Ucrânia, a delegação lembrou-lhe que a Ucrânia foi o primeiro país a desistir de armas nucleares. “A Rússia deveria garantir a nossa segurança e integridade territorial, mas em vez disso, declarou-nos guerra. Em 2014, a Ucrânia reduziu o seu exército de meio milhão para 150 mil [efetivos] e isso prejudicou-nos”, explicou.

Francisco, depois de escutar todos os argumentos e de ouvir relatos sobre a tragédia de Mariupol, prometeu que faria todo o possível para conseguir uma troca que incluísse os defensores agora presos (na Rússia). De seguida, recordou os passos que deu desde finais de fevereiro:

– no primeiro dia da guerra telefonou a Zelensky; mais tarde fez mais duas chamadas;
– foi à embaixada russa para chamar a atenção do mundo;
– tentou de ir a Moscovo para falar com Putin e exigir o fim da guerra, o que foi educadamente recusado;
– mais de uma vez acolheu crianças ucranianas e apelou aos italianos recordando-lhes a sua obrigação moral de apoiar as mães refugiadas ucranianas;
– enviou cardeais duas vezes à Ucrânia, não porque não quisesse ir pessoalmente, mas para mostrar que está atento aos problemas da Ucrânia;
– recusou encontrar-se em Jerusalém com o patriarca Cirilo, de Moscovo, conforme havia sido acordado.

Visita a Kiev depende do joelho do Papa

De muitos outros tópicos referidos durante as duas horas de reunião, dois merecem destaque. O primeiro é a possível ida do Papa à Ucrânia. Neste momento é o próprio Francisco que quer e pretende ir a Kiev e não apenas à fronteira do país, como alguns aconselham. O obstáculo principal, que se deduz do relato divulgado é o mesmo que já levou o Pontífice a anular a visita a África, no início de julho próximo: o problema de saúde de que sofre num joelho, que leva os médicos a impor uma redução dos movimentos ao essencial.

O segundo tema, suscitado pela delegação ucraniana, diz respeito à questão da alegada ambiguidade na doutrina católica sobre os conceitos de ‘guerra justa’ e de ‘paz justa’. “Seria importante para o mundo inteiro se a Igreja prestasse uma atenção especial ao esclarecimento deste problema”, defenderam. Segundo o relato, o Papa concordou que tal esclarecimento é necessário e revelou que já tinha encarregado alguns cardeais de aprofundarem mais este assunto.

O documento que relata as conversas dos ucranianos no Vaticano dá conta de um Papa que se entregou à escuta e se revelou para eles “um ouvinte atento”, suscitador de um clima de abertura e de confiança. “Hoje há uma coisa de que podemos ter certeza: as crises de comunicação devem ser resolvidas precisamente por meio de comunicações amigáveis. E foi isso que tentamos fazer enquanto estivemos no Vaticano”, escreveu o vice-reitor da UCU, a terminar o seu relato.

 

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