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Pai despede-se da sua família na Ucrânia. Foto © ACNUR

Putin ainda não respondeu

Papa quer ir a Moscovo interceder pela Paz

| 03/05/2022

Pai despede-se da sua família na Ucrânia. Foto © ACNUR

Pai despede-se da sua família na Ucrânia. Foto © ACNUR

 

O Papa mostrou-se disponível para um encontro com o presidente russo em Moscovo, para abordar a guerra na Ucrânia, afastando para já uma eventual visita a Kiev. “Sinto que não de preciso ir [a Kiev]. Primeiro tenho de ir a Moscovo, primeiro tenho de encontrar-me com Putin. Sou padre, também, o que posso fazer? Eu faço o que posso. Se Putin abrir a porta”, refere Francisco, em conversa com o diretor do jornal italiano ‘Corriere della Sera’, divulgada hoje por este jornal. Um encontro em que se voltou a perceber as limitações do jorleho do Papa, que não lhe permitiu receber os seus interlocutores de pé, mas sim sentado, facto pelo qual pediu desculpas.

O Papa indica que, 20 dias depois do início do conflito, o Vaticano enviou ao presidente russo uma mensagem, a propor esse encontro, através do secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, e diz que a situação é parecida com a que foi vivida no Ruanda. “Ainda não recebemos uma resposta e continuamos a insistir, ainda que tema que Putin não possa e não queira manter este encontro agora. Mas toda esta brutalidade, como é que não a conseguimos travar? Há 25 anos vivemos a mesma coisa com o Ruanda”, declara, citado pela Ecclesia.

A conversa, divulgada como entrevista, mas que parece ter sido um momento de encontro informal divulgado mais tarde, aborda ainda o diálogo com o responsável da Igreja Ortodoxo de Moscovo, o patriarca Cirilo, que apresentou “justificações” para a guerra, começada a 24 de fevereiro. “Eu disse-lhe: irmão, não somos clérigos de Estado, não podemos usar a linguagem da política, mas a de Jesus. Somos pastores do mesmo povo santo de Deus. Para isso, devemos procurar um caminho de paz, para acabar com o fogo das armas”, refere.

Francisco declara que o patriarca ortodoxo não se pode tornar um “acólito de Putin”, neste conflito, que tem sido justificado pela Rússia com recurso a questões culturais, religiosas e até metafísicas, como uma guerra do bem contra o mal.

O Papa retoma as explicações para o adiamento do encontro com Cirilo, que estava marcada para 14 de junho, em Jerusalém, como já tinha feito numa entrevista a um jornal argentino, a 21 de abril. “Seria o nosso segundo cara a cara, nada a ver com a guerra. Mas agora ele também concorda: vamos parar, poderia ser um sinal ambíguo”, precisa.

Quanto à Ucrânia, Francisco recorda que enviou como seus representantes os cardeais Michael Czerny, (prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral) e Konrad Krajewski, (esmoler pontifício), os quais já se deslocaram ao território quatro vezes, além de ele próprio ter já conversado telefonicamente com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

Francisco prevê, nesta conversa com o diretor do jornal italiano, que a guerra poderá terminar dia 9 de maio, citando informações que lhe teriam sido dadas num encontro que manteve com Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, o qual lhe teria afirmando que os planos russos preveem que a guerra na Ucrânia termine a 9 de maio – mas o cenário já foi entretanto afastado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros de Moscovo. “Espero que assim seja, para que também entendamos a velocidade da escalada dos dias de hoje. Porque agora não é só o Donbass, é a Crimeia, é Odessa, a Ucrânia está a ficar sem o porto do Mar Negro. Estou pessimista, mas devemos fazer todos os gestos possíveis para travar a guerra”, defende o Papa.

Francisco reflete sobre as razões que poderão ter levado o presidente russo a invadir a Ucrânia, entre elas à aproximação da NATO, e coloca reservas à opção de fornecer armamento a Kiev. “Há interesses internacionais em cada detalhe. Não se pode pensar que um Estado livre possa fazer guerra a outro estado livre. Na Ucrânia, parece que foram outros que criaram o conflito. A única coisa que é atribuída aos ucranianos é que reagiram no Donbass, mas estamos a falar de 10 anos atrás. Esse argumento é antigo”, assinala, reforçando que a questão das armas tem várias nuances. “O que fica claro é que há armas a serem testadas naquela terra. Os russos agora sabem que os tanques são de pouca utilidade e estão a pensar noutras coisas. As guerras são travadas para isso: para testar as armas que produzimos”, lamenta.

Voltando a uma preocupação que tem marcado o seu pontificado, o Papa considera “um escândalo” o comércio de armas, ao qual “poucos” se opõem.

Francisco evoca, a este respeito, o gesto de estivadores genoveses que, “há dois ou três anos”, decidiram parar um carregamento de armas para o Iémen, a pensar nas crianças desse país. “É uma coisa pequena, mas um gesto bonito. Deveria haver tantos assim”, diz.

Francisco considera que a Ucrânia é um “povo mártir” e justifica, com esse sofrimento, a decisão de não ler a reflexão preparada por famílias da Ucrânia e da Rússia na Via-Sacra da última Sexta-feira-Santa, no Coliseu de Roma. A decisão, explica o Papa, foi tomada após conversa com o cardeal Krajewski, que celebrou a Páscoa na Ucrânia.

 

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