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“Fratelli Tutti”: Maior proximidade humana e menor relacionamento com ecrãs

Mais comunicação e menos tecnologia, é a síntese da mensagem do Papa na Fratelli Tutti. Foto: Direitos reservados.

 

Num momento em que, em múltiplos fóruns, se tem vindo a discutir as consequências do advento da quinta geração da Internet móvel – tema de capa, por exemplo, do mais recente número da revista francesa L’Obs –, o Papa Francisco manifesta a necessidade de maior proximidade humana e de menor relacionamento com ecrãs: mais comunicação, menos tecnologia, portanto. É o que ele defende na carta encíclica Fratelli Tutti (Todos irmãos), sobre a fraternidade e a amizade social, agora tornada pública.

Bergoglio denuncia também um conjunto de perversões da comunicação digital. Uma delas é a “agressividade social”, que “encontra um espaço de ampliação incomparável nos dispositivos móveis e nos computadores”. Francisco observa que o mundo virtual manifesta “formas insólitas de agressividade, com insultos, impropérios, difamação, afrontas verbais até destroçar a figura do outro”. Julga o Papa que a hostilidade atingiu um tal desregramento que, se tivesse uma tradução física, destruiria toda a gente. O nível de violência é hoje de tal monta que “aquilo que ainda há pouco tempo uma pessoa não podia dizer sem correr o risco de perder o respeito de todos, hoje pode ser pronunciado com toda a grosseria, até por algumas autoridades políticas, e ficar impune”.

Para Francisco, há interesses económicos gigantescos a operar no mundo digital, “capazes de realizar formas de controlo que são tão subtis quanto invasivas, criando mecanismos de manipulação das consciências e do processo democrático”. O Papa considera que “o funcionamento de muitas plataformas acaba frequentemente por favorecer o encontro entre pessoas com as mesmas ideias, dificultando o confronto entre as diferenças. Estes circuitos fechados facilitam a divulgação de informações e notícias falsas, fomentando preconceitos e ódios”.

 

“Cliques e mensagens rápidas e ansiosas”

O Papa assinala ainda um paradoxo: “Se, por um lado, crescem as atitudes fechadas e intolerantes que, à vista dos outros, nos fecham em nós próprios, por outro, reduzem-se ou desaparecem as distâncias, a ponto de deixar de existir o direito à intimidade. Tudo se torna uma espécie de espectáculo que pode ser espiado, observado, e a vida acaba exposta a um controlo constante”.

A encíclica deplora o desaparecimento do silêncio e da escuta, “transformando tudo em cliques e mensagens rápidas e ansiosas”, o que coloca em perigo “uma comunicação humana sábia”. Cria-se um novo estilo de vida, no qual cada um constrói o que deseja ter à sua frente, excluindo tudo aquilo que não se pode controlar ou conhecer superficial e instantaneamente”. A lógica intrínseca desta dinâmica “impede aquela reflexão serena que poderia levar-nos a uma sabedoria comum”.

É que, explica Francisco, “a sabedoria não se fabrica com buscas impacientes na internet, nem é um somatório de informações cuja veracidade não está garantida”. Não é assim que é possível o amadurecimento no encontro com a verdade. “As conversas giram, em última análise, ao redor das notícias mais recentes; são meramente horizontais e cumulativas. Mas não se presta uma atenção prolongada e penetrante ao coração da vida, nem se reconhece o que é essencial para dar um sentido à existência. Assim, a liberdade transforma-se numa ilusão que nos vendem, confundindo-se com a liberdade de navegar frente a um visor. O problema é que um caminho de fraternidade, local e universal, só pode ser percorrido por espíritos livres e dispostos a encontros reais.”

“A conexão digital não basta para lançar pontes, não é capaz de unir a humanidade”, escreve o Papa Francisco, depois de explicar que “as relações digitais, que dispensam a fadiga de cultivar uma amizade, uma reciprocidade estável e até um consenso que amadurece com o tempo, têm uma aparência de sociabilidade, mas não constroem verdadeiramente um ‘nós’; na verdade, habitualmente dissimulam e ampliam o mesmo individualismo que se manifesta na xenofobia e no desprezo dos frágeis”. A encíclica vem recordar a falta que fazem os gestos físicos, as expressões do rosto, os silêncios, a linguagem corporal “e até o perfume, o tremor das mãos, o rubor, a transpiração, porque tudo isso fala e faz parte da comunicação humana”.

 

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