
Deslocados na Síria: o ACNUR diz que há 6,6 milhões dentro do próprio país, enquanto 5,6 miçlhões fugiram para o estrangeiro. Foto: Direitos reservados.
O Papa Francisco recordou este domingo, 14, no Vaticano, os dez anos sobre o início do “sangrento conflito na Síria, que causou uma das mais graves catástrofes humanas do nosso tempo”.
Na sua alocução após a oração do Angelus, Francisco referiu o “número indeterminado de mortos e feridos, milhões de refugiados, milhares de desaparecidos, destruição, violência de todos os tipos, e enormes sofrimentos para toda a população, em particular para os mais vulneráveis, como as crianças, as mulheres e os idosos”.
“Renovo o meu forte apelo às partes em conflito, para que manifestem sinais de boa vontade, a fim de que se possa abrir uma fresta de esperança para a população esgotada”, pediu, citado pela Ecclesia, defendendo um “decidido e renovado compromisso construtivo e solidário” da comunidade internacional. “Que, depostas as armas, se possa voltar a costurar o tecido social e iniciar a reconstrução e a recuperação económica”, apelou. “Rezemos todos ao Senhor, para que tanto sofrimento na amada e martirizada Síria não seja esquecido e para que a nossa solidariedade reavive a esperança.”
Dados do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados dizem que a guerra, iniciada a 15 de Março de 2011, provocou a fuga de quase 5,6 milhões de pessoas para outros países, enquanto 6,6 milhões de sírios estão deslocados no seu próprio país.
Pós-pandemia: curar pessoas e não fabricar armas

Parada militar na Índia, em 2004: “Não podemos suportar que continuem a ser fabricadas armas, gastando um capital enorme que deveria ser usado para salvar vidas”, diz o Papa. Foto Wikipedia.
Numa entrevista que será divulgada em livro nesta terça-feira, 16, o Papa defende entretanto que a crise pandémica mostra a necessidade de usar o dinheiro da indústria do armamento para salvar vidas: “Não podemos suportar que continuem a ser fabricadas e traficadas armas, gastando um capital enorme que deveria ser usado para curar pessoas, salvar vidas.”
“Já não é possível fingir que não se criou um círculo vicioso dramático entre a violência armada, a pobreza e a exploração insensata e indiferente do meio ambiente”, acrescenta, segundo a citação da Ecclesia, a partir de um excerto do livro divulgado pelo Vatican News. “O mundo nunca mais será o mesmo”, diz o Papa. “Dor e sombras derrubaram as portas das nossas casas, invadiram os nossos pensamentos, atacaram os nossos sonhos e programas. E, assim, hoje ninguém se pode dar ao luxo de sentir-se confortável.”
O livro, do jornalista italiano Domenico Agasso, do La Stampa, tem o título Dio e il mondo che verrà (“Deus e o mundo que virá”, Edizioni Piemme-LEV). No diálogo, o Papa insiste em que “o caminho para a salvação da humanidade passa por pensar um novo modelo de desenvolvimento, que considere indiscutível a convivência entre os povos, em harmonia com a criação”.
Na conversa, Francisco critica a “mentalidade especulativa dominante”: “No estado em que se encontra a humanidade, torna-se escandaloso continuar a financiar indústrias que não contribuem para a inclusão dos excluídos e a promoção dos últimos, e que penalizam o bem comum poluindo a criação. Estes são os quatro critérios para escolher que empresas apoiar: inclusão dos excluídos, promoção dos últimos, bem comum e cuidado com a criação.”
Pedindo uma reconstrução mundial “sob a bandeira da fraternidade humana”, o Papa manifesta-se ainda contra a discriminação das mulheres e pede atenção particular às novas gerações, que pagam o preso da crise “económica, laboral, sanitária e moral”.










