Na sua Magnifica Humanitas Leão XIV não se limita a condenar a guerra. Examina “a preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional” e como ela é “preparada culturalmente através de narrativas simplistas, lógicas de amigo-inimigo, desinformação e medo”. Denuncia “o crescimento da indústria bélica” como “motor autónomo de escolhas bélicas” e o recurso à Inteligência Artificial (IA) para “tornar a guerra mais ‘viável’ e menos sujeita ao controlo humano”. Mas repudia, em definitivo, o conceito de ‘guerra justa’ e sublinha que “todos podemos fazer a nossa parte” pela “construção da civilização do amor”.
À guerra e à paz, dedica o Papa um quinto da sua Encíclica. São 46 parágrafos para demonstrar a importância destes temas no contexto da Doutrina Social da Igreja (DST), pois “a paz não é um tema entre tantos outros, mas uma condição do bem comum universal e um parâmetro para medir a maturidade moral dos povos”. Sobretudo num tempo em que “dissociada da ética e da responsabilidade, [a IA] torna mais rápida e mais impessoal a decisão sobre a vida e a morte, e apresenta o recurso à força como uma opção imediata e exequível”.
O entendimento, o juízo e o discernimento propostos neste texto não valem apenas pela extensão da sua exposição. Valem, sobretudo, pela profundidade com que as diferentes causas (sociais, tecnológicas, culturais, económicas e ideológicas) explicam como “hoje, porém, assistimos a uma verdadeira mudança de paradigma no discurso público e nas decisões em matéria de rearmamento, com uma preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional, enquanto precisamente se degradam aqueles critérios éticos que tinham limitado o seu uso” (190). E de como a “revolução digital está a modificar a gramática dos conflitos” e, assim, favorece aquela mudança de paradigma.
“A construção de um mundo em estado de beligerância permanente é um mal, e deve ser chamado pelo seu nome. Esta forma de descrever a realidade em que vivemos pode parecer sombria ou pessimista, mas considero tratar-se duma denúncia necessária.” (210). Perante o mal que analisa e condena, Leão XIV não se deixa esmagar, porque “a perspetiva cristã não se esgota na denúncia do mal”.
Nesse sentido, relembra que “os cristãos veem as trevas e chamam-nas pelo nome, mas não ficam parados a contemplá-las: conhecem a luz e sabem que as trevas (..) não podem vencê-la. (…) Mesmo nas noites mais escuras, o Senhor suscita homens e mulheres capazes de não se resignarem e de perseverarem no bem: pessoas que protegem os mais fracos e abrem caminhos para a reconciliação” (211).
Agir pela civilização do amor

“O encontro entre os amantes do Cântico dos Cânticos dá-se no jardim, cheio de sons, flores, cores e aromas que cantam a beleza da vida e do amor.” Ilustração © Ilda David’.
Para iluminar essa perspetiva de esperança, Leão XIV recupera o conceito da civilização do amor de Paulo VI, para a construção da qual “ninguém está isento de responsabilidade”, ainda que nem todos tenham as mesmas responsabilidades, embora todos devam resistir a renderem-se à “subtil tentação de pensar que os problemas são demasiado grandes e nós demasiado pequenos.” De facto, “a civilização do amor não nasce dum gesto único e espetacular, mas de uma soma de pequenas e tenazes fidelidades, que travam a desumanização”. (213).
E vá de citar Tolkien no Senhor dos Anéis III: “Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar.” Que podem todos e cada um fazer para parar a guerra e promover a paz? Exercer e praticar, pelo menos, estes sete modos de viver: desarmar as palavras; construir a paz na justiça; assumir o olhar das vítimas; cultivar um saudável realismo; revitalizar o diálogo; e rezar e ter esperança. Só “a necessidade da diplomacia e do multilateralismo” se encontra mais longe daquilo que está à mão de cada um promover.
Desarmar as palavras: “O poder das palavras é enorme e experimentamo-lo na comunicação quotidiana, quando alguém nos diz algo que altera o nosso estado de espírito, para melhor ou para pior. ‘A paz começa em cada um de nós: na forma como olhamos para os outros, ouvimos os outros, falamos dos outros; e, neste sentido, a forma como comunicamos é de importância fundamental: devemos dizer ‘não à guerra das palavras e das imagens, devemos rejeitar o paradigma da guerra’.” [Papa Francisco] (214)
Construir a paz na justiça: “Não procuramos, pois, uma paz qualquer, uma ausência de conflito a todo o custo, mas aquela verdadeira paz que nasce da justiça. ‘Existe uma estreita relação entre a justiça de cada um e a paz de todos’.” [João Paulo II] (2015)
Assumir o olhar das vítimas: “Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar ‘não ser cúmplice’. (…) Dar espaço, na informação e na educação, ao olhar e à voz das vítimas ajuda verdadeiramente: a tomar consciência do abismo do mal que a guerra encerra e, em geral, toda a violência; a não aceitar como normal a lógica do conflito; a não desviar o olhar quando ocorre uma violação da dignidade humana; e a devolver às pessoas afetadas a dignidade de serem reconhecidas e escutadas.” (216 e 217)
Cultivar um saudável realismo: “O realismo autêntico não renuncia a mudar o mundo: começa por ver com clareza os interesses, os medos, os vínculos e as relações de força, precisamente para calcular o que é possível alcançar e com que mudanças.” (218)
Revitalizar o diálogo: “Trata-se de adquirir uma atitude que permita construir laços de fraternidade, feitos de escuta, de olhares sinceros, de tempo dado, e até mesmo de tempo perdido juntos. Pois, se fizermos a experiência do encontro autêntico com o outro, com quem é diferente, com o estrangeiro, com o migrante, torna-se muito mais difícil até imaginar a guerra.” (220)
Rezar e ter esperança: “’A paz esteja convosco! Esta é a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz que desarma, que é humilde e perseverante.’ Com estas palavras, saudei a Igreja e o mundo no dia da minha eleição para o sólio de Pedro, e desejo repeti-las convidando todos a pedir este dom. Não nos cansemos de rezar pela paz e de nos empenharmos para a concretizar nas nossas relações e na sociedade.” (228)
Algoritmos não tornam a guerra aceitável

‘Uma, Babel, edificada “sobre o orgulho e a pretensão de se bastar a si mesma”, cidade em que “a comunicação é interrompida, as línguas confundem-se e os seres humanos deixam de se compreender”’. Pieter Bruegel, A Torre de Babel, Pintura a óleo (1563).
Mas por que razão “a magnífica humanidade criada por Deus se encontra hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos”? Porque diante de nós “paira o risco de um mundo desumano e mais injusto”? Porque vivemos “num mundo em estado de beligerância permanente”?
Por razões ontológicas, responde o Papa, apoiado em Santo Agostinho, para quem “a história humana é como um campo de batalha entre dois amores, que construíram duas formas de habitar o mundo e de conviver, duas ‘cidades’: por um lado, o amor a Deus e ao próximo; por outro, o amor exclusivo a si mesmo”.
Uma, Babel, edificada “sobre o orgulho e a pretensão de se bastar a si mesma”, cidade em que “a comunicação é interrompida, as línguas confundem-se e os seres humanos deixam de se compreender”. (7)
Outra, Jerusalém reconstruída por Neemias que “não impõe soluções vindas do alto: convoca as famílias, confia a cada uma delas uma parte da muralha para reconstruir, ouve os receios, coordena os esforços, enfrenta as oposições. (…) a cidade renasce não graças à iniciativa de uma única pessoa, mas através da responsabilidade partilhada por todo o povo”. (8)
Ora, perante “os conflitos regionais que se arrastam no tempo”, as “formas de luta por expansão territorial que se pensavam superadas” e quando “a opinião pública é progressivamente orientada e condicionada por narrativas mediáticas de polarização, amplificadas com frequência por algoritmos que valorizam o confronto e a oposição” a “primeira escolha não é entre um ‘sim’ ou um ‘não’ à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém: entre um poder que pretende dominar o céu ou um povo que unido, na presença de Deus, começa o trabalho de reerguer a convivência fraterna.” (9)
E a presença cada vez mais intensa da IA em teatros de guerra e no fomento das guerras, leva Leão XIV a afirmar: “não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável. A IA não retira ao conflito a sua intrínseca desumanidade: apenas o torna mais rápido e impessoal” (198). Não está, portanto em causa “a eficiência de novos instrumentos, mas o risco de que a técnica, dissociada da ética e da responsabilidade, torne mais rápida e impessoal a decisão sobre a vida e a morte, e apresente o recurso à força como uma opção imediata e exequível”.
‘Realismo’ político fomenta a guerra

‘(…) “a diversidade do outro é cada vez mais vivida como uma ameaça, alimentando o desejo de posse, a vontade de domínio, as ambições hegemónicas, os abusos de poder e o medo da diferença, e preparando um terreno no qual novos conflitos podem amadurecer quase sem nos apercebermos’. Foto © Matheus Viana | Unsplash
Contudo, o recurso a instrumentos eticamente tão condenáveis só é possível no quadro de uma cultura marcada pelo “suposto realismo político” – um “falso pragmatismo” que caracteriza esta “época de notável cegueira espiritual e cultural”. É “um falso ‘realismo’, baseado não só na lógica dominante da força, mas também numa convicção cultural e antropológica, como se a guerra fosse, inevitavelmente, parte da natureza humana”, de onde decorre que “o problema já não é a paz, perdida como referência no horizonte internacional, mas sim como e quando agir militarmente, considerando-se irresponsável a não preparação para o confronto”.
Porém, “o que é verdadeiramente irresponsável é a Realpolitik, esta forma de ‘realismo’ político, que semeia nas consciências e na cultura a resignação perante uma guerra inevitável, e qualifica a paz e o diálogo como posições utópicas ou irracionais, que ignoram os riscos em jogo.” (205)
Ou seja, “vai-se consolidando uma cultura do poder, na qual a disponibilidade de meios e a capacidade de dominar tendem a ditar a agenda e os critérios de decisão, relegando o bem comum da humanidade para segundo plano e reduzindo o drama concreto dos povos em guerra a uma variável secundária face aos interesses estratégicos”. (188)
No clima assim criado, “a conflitualidade exacerbada conduz a guerras assimétricas e ‘híbridas’, travadas também em âmbito económico, financeiro e informático, com o recurso à desinformação e a campanhas que alimentam o medo para influenciar a opinião pública” e dão origem “a extremismos religiosos e fanatismos identitários” aliados a “um economicismo irracional, enquanto a política recorre com facilidade à desinformação, à ridicularização do adversário e à construção sistemática de medos e ressentimentos”.
Desta forma, “a diversidade do outro é cada vez mais vivida como uma ameaça, alimentando o desejo de posse, a vontade de domínio, as ambições hegemónicas, os abusos de poder e o medo da diferença, e preparando um terreno no qual novos conflitos podem amadurecer quase sem nos apercebermos”.
Contudo, e ao contrário do que faz crer o “suposto realismo político”, a verdade é que, conclui o Papa, “a paz não é uma esperança ingénua nem apenas uma ausência de guerra: é o fruto, sempre possível, da justiça e da caridade”. (205)










