Recuperação continua no Vaticano

Papa saiu do hospital. E isso pode significar o princípio do fim do pontificado?

| 14 Jul 21

A hospitalização do Papa correu bem e Francisco saiu do hospital nesta quarta-feira. Pode este facto traduzir a entrada numa nova fase – e última – do pontificado? Há quem pense que sim e avance argumentos, aqui sintetizados.

O Papa Francisco a deixar o Gemelli Foto © Vatican News

O Papa Francisco a deixar o Gemelli, nesta quarta-feira. Onde terminará a viagem? Foto © Vatican News.

 

O Papa Francisco saiu esta quarta-feira, 14 de Julho, do hospital Agostino Gemelli, em Roma, após dez dias de internamento para uma cirurgia devido a um problema no cólon, informou o Vaticano. Antes do regresso à Casa de Santa Marta, Francisco foi à Basílica de Santa Maria Maior, no centro de Roma, onde esteve em oração diante da imagem de Nossa Senhora Salvadora do Povo Romano, rezando por todos os doentes, especialmente por aqueles que encontrou durante a sua hospitalização, que correu bem, avança o Vatican News.

A recuperação continuará agora no Vaticano, já que durante este mês e o próximo a agenda pública do Papa é substancialmente reduzida – as audiências das quartas-feiras, por exemplo, estão suspensas.

A hospitalização, por causa de uma estenose diverticular grave, levou vários comentadores a analisar o significado destes dez dias. No La Croix International (num texto traduzido para português pelo portal de informação da Unisinos), Robert Mickens recorda o internamento de João Paulo II, aos 72 anos, para uma cirurgia de remoção de um tumor no abdómen, em Julho de 1992.

Mickens compara os dois casos: “João Paulo II viveu mais 13 anos, mas a operação de 1992 no Hospital Gemelli marcou uma viragem na sua saúde e no seu pontificado. Os acontecimentos destes dias no mesmo centro médico em Roma provavelmente farão o mesmo com o Papa Francisco. Neste ponto, é difícil prever exactamente o que isso significará. Mas uma coisa é certa – o Papa não é um super-homem. Não, neste caso, ele é, de facto, muito parecido com a maioria das pessoas normais.”

O padre Thomas Reese, um dos mais conhecidos comentadores nos EUA, escreve entretanto, no Religion News Service (RNS): “Embora pareça estar a recuperar da sua cirurgia, a hospitalização do Papa Francisco marca o início do fim do seu papado. O tempo está a esgotar-se. Francisco tem 84 anos de idade, e será um milagre se conseguir continuar como Papa por mais cinco anos.”

 

“O momento que marcou o início do fim”
robert mickens Foto Direitos reservados

Robert Mickens, chefe de redação do La Croix International, considera pouco provável que uma cirurgia agendada com antecedência acontecesse a um domingo ao final do dia. Foto: Direitos reservados.

Percorrendo caminhos diferentes, ambos os comentadores consideram que esta hospitalização será um marco para assinalar o início do fim do pontificado – não o dizem claramente, mas subentende-se que pode ser simplesmente porque o Papa decida abdicar ou porque, naturalmente, a sua vida termine. Thomas Reese admite que este pode ter sido “o momento que marcou o início do fim do seu papado”.

Mickens manifesta entretanto o seu cepticismo em relação à informação dada sobre o internamento e a cirurgia. Esta foi previamente marcada, informou o Vaticano, mas a notícia foi “uma surpresa completa para quase todos, incluindo para as pessoas no Vaticano”, escreve o jornalista.

Francisco queria proteger a sua privacidade, como a maioria das pessoas normais – e “nenhum Papa se esforçou mais para parecer normal do que este”, bastando recordar os episódios em que ele paga a conta da casa onde se albergara, vai ao centro de Roma comprar uns óculos ou faz visitas-surpresa a hospitais, prisões ou cozinhas populares, ou ainda a uma sobrevivente do campo de extermínio de Auschwitz.

Mickens lembra que, no entanto, o Papa não é uma pessoa normal. E desconfia de uma cirurgia marcada para um domingo ao final do dia. “Ninguém faz isso, porque a maioria dos estudos indica que as operações cirúrgicas à noite – por vários motivos – são mais arriscadas do que as realizadas durante a primeira parte do dia. A cirurgia poderia ter sido programada, mas “talvez não para um domingo à noite”.

Pode estar em causa também o ritmo da recuperação da cirurgia, acrescenta o colunista do La Croix International. “Existe a possibilidade muito real de que ele não consiga retornar à sua forma anterior”, pois uma cirurgia invasiva “não pode deixar de ter um grande impacto” num homem com a idade e a condição física de Francisco.” E vem aí a viagem a Budapeste (Hungria) e à Eslováquia, entre 12 e 16 de Setembro, dois meses depois de sair do hospital, recorda…

 

Instituição clerical não mexeu
CBCEUA Bispos EUA

Bispos dos EUA: só uma minoria alinha com Francisco. Foto © USCCB.

 

Robert Mickens lembra ainda que o Papa “tem inimigos entre os cardeais e outras lideranças influentes da Igreja” que “se sentiriam encorajados nos seus esforços para impedir o seu programa de reforma eclesial e de mudança radical se se divulgasse que a sua saúde está a piorar”. E a maior parte da imprensa, benévola com Francisco, “detesta criticar Francisco por qualquer coisa, talvez por medo de dar munições aos seus inimigos”, declarados ou não.

Thomas Reese toca também neste ponto. Onde Francisco teve menos sucesso foi em conquistar o corpo clerical para a sua visão da Igreja, diz. “Nos seus oito anos como Papa, Francisco dificilmente amolgou a instituição clerical que herdou.”

“Muitos bispos e padres na Cúria Romana e em todo o mundo pensam que a sua eleição foi um erro e esperam um regresso ao que consideram ser a normalidade no próximo papado”, acrescenta o padre Reese.

O padre americano diz que Francisco tem tratado os opositores “com a doçura de um pastor que espera a sua conversão”, ao contrário do que faria qualquer director-geral. Isso levou-o a esperar com paciência a reforma de vários deles mas, para que isso tivesse efeito, seria necessário “um papado muito longo”, como foram os quase 27 anos de João Paulo II, seguidos dos oito anos de Bento XVI, em que o episcopado e a formação do clero foram definidos pelo não questionamento das posições tradicionais sobre o controlo da natalidade, celibato clerical ou ordenação de mulheres.

“Um dos melhores exemplos são os Estados Unidos, onde nem a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos nem os seminários são bastiões de apoiantes de Francisco”, nota Reese. “Os bispos que encarnam os valores de Francisco são apenas 20 a 40 dos 223 bispos activos dos Estados Unidos. E entre o clero, Francisco recebe o seu maior apoio dos padres mais velhos, que estão a morrer, em vez dos mais jovens, que são o futuro da Igreja.” E também os núncios, que apontam os candidatos a bispos, foram formados nos pontificados anteriores, enquanto o prefeito da Congregação dos Bispos, Marc Ouellet – que é quem faz a última escolha, antes do Papa – também vem de trás e está longe de ser um entusiasta de Francisco.

Reese ironiza mesmo: “Encontrar jovens candidatos ao sacerdócio que apoiam Francisco e querem ser celibatários é como procurar unicórnios católicos, e se encontrar alguns, não é provável que sejam bem recebidos por seminários conservadores.”

 

Reforma da Cúria está pronta
cardeal pietro parolin foto vatican news

Cardeal Pietro Parolin: a reforma da Cúria está à espera da revisão jurídica. Foto © Vatican News.

 

A hospitalização do Papa terminou apenas dois dias depois de o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado, ter dito, em entrevista também ao La Croix International, que a nova constituição que irá regular o funcionamento da Cúria Romana já está pronta e se encontra agora a ser revista em termos jurídicos.

Na análise de Reese, Francisco captou a realidade do mundo “com a sua compaixão e abertura a todas as pessoas: ele colocou o amor, especialmente o amor pelos pobres, no centro da sua pregação do evangelho”. Como líder mundial, o Papa pôs a sua missão ao lado dos migrantes e refugiados, manifestando-se “contra o aquecimento global e os excessos do capitalismo”.

Dentro da Igreja, Francisco encoraja o diálogo e um estilo de governo mais participado, enquanto a Congregação para a Doutrina da Fé deixou de agir “como a Inquisição que outrora foi”. Em síntese, tornou o papado “uma voz pastoral, profética e inclusiva”.

O problema, insiste, é que a reforma da Igreja Católica leva décadas. O actual pontificado “só terá sucesso se for seguido por papas que estejam em sintonia” com o modo como Francisco entende o catolicismo. “E isto não é garantido. [O Papa] nomeou homens simpáticos para o Colégio dos Cardeais, mas os conclaves são imprevisíveis como o demonstrou a sua própria eleição.

Certo é que entrámos num outro momento do papado. Seguir-se-ão a promulgação da nova constituição que regulará a Cúria Romana e a primeira fase do Sínodo dos Bispos sobre a participação e a sinodalidade na Igreja, para 2023. Pelo meio, sobra a pandemia, que o Papa tem insistido em que seja uma oportunidade de reconstruir o mundo; há várias viagens programadas e dois acontecimentos multitudinários: o Encontro Mundial de Famílias (que o papa também quer que se converta num encontro participado nas dioceses) e a Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, em 2023.

Ficam várias dúvidas: será ainda Francisco a presidir à assembleia do Sínodo (e se não for, significa que dificilmente será ele a vir à Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa)? E que tipo de participantes terá o Sínodo: ainda e tão só apenas bispos (com a subsecretária que terá direito a voto) ou alargado já a outras vozes? Que efeitos terão as mudanças já lançadas na dinâmica interna da Igreja Católica? Os próximos tempos adivinham-se clarificadores.

 

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