Papa vai ser vacinado por “opção ética” e Vaticano insiste na vacina acessível também aos mais pobres

| 10 Jan 21

Vacina Covid

Uma dose da vacina da Pfizer/BioNTech, que o Papa receberá. Foto © Arne Müseler/arne-mueseler.com/CC-BY-SA-3.0 

O Papa Francisco será vacinado na próxima semana contra a covid-19, considerando que essa é uma opção ética. Numa entrevista ao Canal 5 da televisão italiana, que será emitida neste domingo, 10 de Janeiro, o Papa afirma: “Eu acredito que eticamente todos devem receber a vacina, é uma opção ética, porque está em causa a tua saúde, a tua vida, mas também a vida de outros.”

A 2 de Janeiro, o Vaticano anunciou que iria iniciar a campanha de vacinação contra a covid na segunda semana deste mês, com prioridade ao pessoal de saúde e segurança pública, idosos e pessoas em maior contacto com o público.

“Vamos começar a fazer aqui e já marquei, tem de ser feito. Quando eu era criança, lembro-me de que havia uma crise de poliomielite e muitas crianças ficaram paralisadas por causa disso e havia desespero para tomar a vacina”, afirmou o Papa, na conversa gravada na Casa de Santa Marta, e citada pela Ecclesia.

O Papa, nascido na Argentina a 17 de Dezembro de 1936 e baptizado como Jorge Mario Bergoglio, recorda ainda que cresceu sob a marca das vacinas contra o sarampo e outras doenças, questionando quem diz que a vacina contra a covid-19 “é perigosa”, quando os médicos dão indicações sobre a sua segurança.

“Há um negacionismo suicida que não sei explicar, mas hoje temos de receber a vacina”, afirmou.

No Vaticano, a escolha recaiu sobre a vacina da Pfizer, que será administrada segundo “critérios de seleção das categorias mais expostas à infecção, de acordo com as adesões voluntárias”.

O programa abrange os cidadãos do Estado, funcionários e seus familiares; de fora ficam os menores de 18 anos.

A administração do Vaticano e da Santa Sé recomendam a vacinação, “para proteger a própria saúde, mas também a dos outros”.

 

“Os pobres não podem ser deixados de fora”

Ao mesmo tempo que o Papa anuncia a sua imunização contra a covid-19, o Vaticano apelou de novo à “distribuição inclusiva” da vacina de forma a não deixar ninguém de fora por questões económicas.

“Os pobres não podem ser deixados de fora por causa da sua pobreza ou incapacidade de aceder financeiramente à vacinação”, refere, numa mensagem em vídeo, o cardeal Peter Turkson, prefeito do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral (DPDHI), da Santa Sé.

Turkson, que é também responsável pela comissão do Vaticano que trata da vacina destaca a importância dos avanços da comunidade científica e a responsabilidade de cada pessoa em proteger a sua vida e a dos outros.

“A vacinação é deixada à responsabilidade de cada um, reconhecendo, no entanto, a obrigação que todos temos em travar a propagação do vírus e de proteger a vida de todos”, observa o cardeal, também citado na Ecclesia (e no vídeo a seguir, em inglês:)

 

No dia 29 de Dezembro, a comissão do Vaticano para a covid-19 e a Academia Pontifícia para a Vida (Santa Sé) publicaram um documento em que pedem “vacina para todos” na resposta à pandemia.

“A covid-19 está a exacerbar uma ameaça tripla de crises simultâneas e interligadas de saúde, económicas e socioecológicas, que estão a afectar desproporcionalmente os pobres e vulneráveis. À medida que avançamos em direcção a uma recuperação justa, devemos assegurar que as curas imediatas para as crises se tornem degraus para uma sociedade mais justa, com um conjunto de sistemas inclusivos e interdependentes”, diz o documento.

O documento cita ainda o Papa Francisco, que em várias ocasiões afirmou “a necessidade de tornar as vacinas contra a covid-19 disponíveis e acessíveis a todos”.

No texto, reflecte-se também sobre as etapas da vacina – pesquisa e produção, aprovação, distribuição e administração –, assinalando que um “objectivo comercial não é eticamente aceitável”.

Antes, na sua mensagem de Natal, o Papa pedira já que as pessoas sejam colocadas acima das “leis do mercado e as patentes de invenções”.

“Peço a todos os responsáveis dos Estados, empresas, organismos internacionais, que promovam a cooperação e não a concorrência, procurando uma solução para todos, vacinas para todos, especialmente os mais vulneráveis e necessitados de todas as regiões do planeta. Em primeiro lugar, os mais vulneráveis e necessitados”, disse ele no dia de Natal, antes da bênção urbi et orbi.

A 21 de Dezembro, a Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, também emitira uma nota sobre a “moralidade do uso de algumas vacinas contra a covid-19”, pedindo que estas sejas acessíveis para os mais pobres e “eticamente aceitáveis”.

 

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