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Christine Schenk, CSJ

[Entre Margens]

Papel das mulheres na Igreja, a batata quente que o Vaticano não consegue gerir

 

Apesar de um processo sinodal mundial ter considerado a inclusão das mulheres no ministério e na tomada de decisões da Igreja como uma questão «urgente» a ser abordada no Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade de 2021-2024, o líder de uma comissão papal tornou pública recentemente uma carta ao Papa Leão, na qual se manifestava contra a admissão de mulheres ao diaconado.

Mesmo assim, o presidente da comissão, o cardeal Giuseppe Petrocchi [arcebispo emérito de L’Aquila], disse que a questão permanece «aberta a mais estudos teológicos e pastorais».

Antes da sessão do Sínodo de 2023, liderei um estudo informal de 18 sínteses nacionais ou resumos dos média sobre contribuições sinodais de base, de todo o mundo, algumas das quais incluíam regiões inteiras, e a América Latina.

Praticamente todas as sínteses mencionaram «o papel das mulheres na Igreja» como uma questão urgente. Mais de 70% incluíram a ordenação de mulheres ao diaconado ou ao presbiterado como uma forma de incluir as mulheres na liderança.

Isso representa muita esperança e expectativa por parte do povo de Deus.

A ordenação diaconal das mulheres foi um tema delicado no Sínodo. Considere-se a seguinte cronologia:

No entanto, os delegados do Sínodo persistiram.

  • Em Julho de 2024, a questão das diaconisas foi confiada a membros anónimos do Grupo de Estudo Cinco do Sínodo, aparentemente o Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF).

 

  • Em 18 de Outubro de 2024, os delegados do Sínodo expressaram «indignação palpável» quando o cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do DDF, não compareceu a uma reunião agendada, enviando em seu lugar dois funcionários do DDF incapazes de responder às perguntas dos delegados. Os membros do Sínodo exigiram que Fernández se apresentasse à assembleia conforme planeado.

 

  • Em 21 de Outubro de 2024, Fernández disse a quase 400 membros e especialistas do Sínodo que o Grupo de Estudo Cinco era liderado pelo secretário para a Doutrina do DDF, monsenhor Armando Matteo, e prometeu apresentar uma lista completa dos membros. Também anunciou que a Segunda Comissão sobre Mulheres Diáconos de 2020, do Papa Francisco – liderada por Petrocchi –, continuaria o seu trabalho e convidou os delegados e outros a enviar materiais.

Mulheres, Sínodo, Sinodalidade, Igreja Católica

Mulheres no sínodo em 2023: o documento final referia o tema das mulheres no diaconado. Foto © António Marujo/7MARGENS

  • Por uma votação de mais de dois terços, o documento final do Sínodo incluiu o tema das mulheres no diaconado no parágrafo 60: «Não há razões que impeçam as mulheres de assumir funções de liderança na Igreja: não se pode impedir o que vem do Espírito Santo. A questão do acesso das mulheres ao ministério diaconal também permanece em aberto e é necessário prosseguir o discernimento a este respeito.»

 

  • Em 26 de Outubro de 2024, o Papa Francisco assinou o Documento Final do Sínodo, tornando-o parte do Magistério «não como uma norma vinculativa, mas como um conjunto de princípios orientadores», conforme explicado no Vatican News.

 

  • Em meados de Novembro de 2025 – poucas semanas antes da declaração de Petrocchi, em 4 de Dezembro – foi anunciado que o Grupo de Estudo Cinco havia cedido a sua responsabilidade à comissão de Petrocchi de 2020.

 

Diante do cenário acima, só podemos perguntar-nos o que aconteceu com a transparência e o tão alardeado processo sinodal.

Até agora, todos os procedimentos da comissão papal sobre o diaconado feminino foram mantidos em segredo. Os pedidos dos delegados do Sínodo para ver os relatórios de qualquer uma das comissões de Francisco sobre as diaconisas foram ignorados. Parabéns ao Papa Leão XIV por, pelo menos, tornar pública a votação da comissão de 2022.

É digno de nota que, em 1974, Cipriano Vagaggini conduziu um estudo exaustivo sobre a história das diaconisas para a Comissão Teológica Internacional, do Vaticano. As suas conclusões (suprimidas na altura, mas posteriormente publicadas) concluíram que as mulheres tinham sido ordenadas ao diaconado e que os seus ritos de ordenação eram sacramentais, embora as suas tarefas e deveres fossem frequentemente diferentes dos diáconos masculinos.

Sem dúvida, a questão da liderança diaconal das mulheres – na verdade, a liderança eclesiástica e a agência jurídica das mulheres – está longe de estar resolvida.

A declaração publicada a 4 de Dezembro está repleta de teologia duvidosa, não só sobre as mulheres diáconos, mas também sobre a natureza da salvação através de Jesus Cristo. O relatório Petrocchi afirma:

A masculinidade de Cristo e, portanto, a masculinidade daqueles que recebem as Ordens Sacras, não é acidental, mas é parte integrante da identidade sacramental, preservando a ordem divina da salvação em Cristo. Alterar esta realidade não seria um simples ajuste do ministério, mas uma ruptura do significado nupcial da salvação.

Giuseppe Petrocchi

Papa Leão XIV ainda não se pronunciou sobre o relatório da comissão presidida por Petrocchi Cardeal. Foto. Giuseppe Petrocchi © Vatican Media.

 

Os cristãos são salvos pela masculinidade ou pela Palavra de Deus, encarnada em Jesus, humano e divino? A masculinidade de Jesus é irrelevante para a nossa salvação. O uso de argumentos nupciais no relatório para negar a ordenação diaconal às mulheres não compreende a linguagem metafórica usada para falar do Divino. Descrever Jesus como um «noivo» é uma metáfora que evoca a beleza do amor conjugal. No entanto, por definição, as metáforas não devem ser interpretadas literalmente.

Fazer uma leitura literal arruína o poder da metáfora de evocar algo muito maior do que as palavras por si só podem transmitir.

É importante notar que os membros da comissão de Petrocchi nomeados em 2020 não participaram nas discussões sinodais e, aparentemente, chegaram às suas conclusões dois anos antes do encerramento do sínodo de 2024. Embora a comissão tenha mencionado material enviado após Francisco ter assinado o Documento Final do Sínodo, ela desconsiderou os apelos sinodais mundiais para a ordenação de mulheres diáconos.

O relatório de Petrocchi é consultivo, não jurídico. O Papa Leão ainda não se pronunciou. Petrocchi também disse que os comissários concordaram unanimemente com a necessidade de as mulheres «expressarem uma participação adequada e corresponsabilidade nos órgãos de tomada de decisão da Igreja, incluindo através da criação de novos ministérios laicais».

A questão: o que é «adequada»? Enquanto a tomada de decisões da Igreja depender exclusivamente de homens ordenados, a representação jurídica das mulheres – na verdade, de todos os leigos – é negada.

Esta é uma questão central com a qual o Sínodo está a debater-se. Será que a nossa Igreja irá alargar a voz deliberativa a todo o povo de Deus?

Talvez os processos sinodais venham a semear um futuro em que isso possa acontecer.

 

Christine Schenk é religiosa da Congregação das Irmãs de São José (CSJ), autora de Crispina and Her Sisters: Women and Authority in Early Christianity (“Crispina e as suas irmãs: as mulheres e a autoridade no cristianismo primitivo”, Fortress Press, 2017) e cofundadora da FutureChurch. Uma versão deste ensaio, cedido ao 7MARGENS pela autora, foi originalmente publicada no National Catholic Reporter.

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