
No que diz respeito a indemnizações às vítimas, Zuppi deu uma resposta vaga: trata-se, observou, de “uma discussão muito aberta”. Foto © CEI
Na Igreja, não pode haver lugar para a prescrição dos abusos sexuais, afirmou esta quinta-feira. 16 de novembro, aos jornalistas o arcebispo de Bolonha e presidente da Conferência Episcopal Italiana (CEI), Matteo Zuppi.
Na conferência de imprensa no final da assembleia de inverno dos bispos italianos, Zuppi reconheceu que “a prescrição é um problema, mas na Igreja não há”. E explicou deste modo a sua posição sobre a matéria, segundo a agência católica SIR:
“Quem denuncia, mesmo depois de vários anos, é ouvido e, em qualquer caso, desencadeamos um procedimento interno. Em muitos casos, não há referência à pena porque prescreveu, mas não para nós. Há casos de pessoas que se reportam apenas à autoridade eclesiástica e não têm intenção de denunciar às autoridades civis, ainda que o nosso pedido seja também que se dirijam às autoridades civis”.
Esta posição contrasta com a de muitos outros bispos que se apoiam nas decisões de arquivamento deste tipo de casos dos tribunais civis ou eclesiásticos, quando a matéria de facto prescreveu para descartarem qualquer outra responsabilidade nos casos.
Os jornalistas interrogaram o presidente da CEI relativamente a episódios de alegado encobrimento de casos de abuso por parte de bispos. Neste ponto, a resposta do cardeal foi defensiva:
“Hoje é difícil para um bispo encobrir. Uma avaliação não objetiva é quase mais perigosa. Na verdade, o risco é quase o oposto: que, por prudência, também sejam iniciados procedimentos legais para verificar os factos”.
Quanto à situação na Igreja Católica de Itália, recorde-se que este foi um caso em que, já com Zuppi na presidência da CEI, foi decidido não se avançar para um trabalho de investigação por uma entidade independente. Em alternativa, foi reforçada a rede de serviços e das equipas diocesanas, bem como dos centros de escuta, presentes, segundo os dados divulgados, em 70 por cento das Igrejas locais da península italiana.
Neste âmbito, o cardeal anunciou duas novidades: um relatório nacional, a apresentar dentro de dias, sobre as atividades de prevenção e formação e sobre os casos de abusos denunciados ou comunicados à rede de serviços diocesanos e interdiocesanos em 2020 e 2021, realizado por dois institutos universitários de criminologia e vitimologia (relatório que passará, depois, a ter uma periodicidade anual). Um outro estudo, desta vez debruçado sobre um período mais longo (2000 – 2021), visa conhecer e analisar, quantitativa e qualitativamente, os dados sobre os abusos na Igreja. Este trabalho, cuja data de entrega não foi divulgada, baseia-se na informação existente na Congregação (agora Dicastério) para a Doutrina da Fé, que acedeu a colaborar.
A análise dos dados, acrescentou ainda o responsável máximo da CEI, citado pelo jornal da CEI, Avvenire, será realizada “em colaboração com institutos de investigação independentes, que garantirão perfis científicos e morais de alto nível”, sendo essas entidades a escolher os investigadores afetos a esse trabalho. Sempre que necessário poderá haver lugar a “uma pesquisa contextual nos arquivos diocesanos”.
No que diz respeito a indemnizações às vítimas, Zuppi deu uma resposta vaga: trata-se, observou, de “uma discussão muito aberta”. É certo que “já existe um acompanhamento psicológico gratuito nos nossos centros. Teremos o cuidado de ajudar e de estar perto do sofrimento das pessoas”.
Na conferência de imprensa, encontrava-se um representante da Rede L’Abuso, Francesco Zanardi, que considerou o início da investigação apenas no ano 2000 discriminatório relativamente às vítimas de abusos anteriores. O cardeal respondeu que o ano de início corresponde ao “momento em que a Igreja se dotou de regras muito rigorosas a nível universal para combater este flagelo”, permitindo averiguar “os casos que nos dizem respeito de perto e que nos envolvem”. Não se justifica “julgar factos de há 80 anos com os critérios de hoje”, opinou.










