
Transumanismo. Imagem gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial que cria imagens a partir de descrições textuais) com prompt de Miguel Panão.
Apesar dos pedidos de vários cientistas, a Neuralink de Elon Musk não divulga o procedimento ou qualquer progresso do primeiro ensaio do seu dispositivo Neuralink em seres humanos. Este dispositivo consiste numa interface cérebro-computador implantável, mais invasiva que os dispositivos competidores e pretende oferecer uma ligação precisa e eficaz entre o ser humano e a máquina controlada pelo pensamento. A telepatia tornar-se-ia viável. A pretensão é controlar a máquina, mas ficará esquecido facto de que a máquina também poderá controlar-nos?
O tema do transumanismo subjacente ao Neuralink foi alvo de reflexão do Cardeal Tolentino Mendonça quando participou no final de Janeiro num curso com bispos brasileiros, sendo a base da sua reflexão a diferença entre tecnologia e tecnocracia. A primeira, tecnologia, corresponde ao exercício humano da técnica guiado pelo conhecimento científico, e a segunda, tecnocracia, corresponde ao poder exercido pela tecnologia sobre o ser humano. Com o transumanismo, como sintetizou Pedro Vaz Patto, pretende-se a «superação de todos os limites que pode representar a natureza humana, aumentando as capacidades da espécie transformando-a em algo de distinto e superior», o que do ponto de vista daqueles que sofrem de paraplegia representaria um passo importante na sua interacção com o mundo. De facto, para quem desenvolve tecnologia na Academia, o nosso objectivo é resolver os problemas das pessoas, mas não a todo o custo. Apesar de não ser evidente, a preocupação ética está sempre presente em quem estuda e procura inovar o tecido tecnológico, mas não chega. Quando a tecnologia começa a interagir directamente com a cognição humana, esquecemos que existe uma terceira dimensão do humanum que está para além do tempo e do espaço, a dimensão espiritual. E não será preciso qualquer convicção religiosa para reconhecer como inegável o impacto que tem o transumanismo sobre esta dimensão.
Os limites são intrinsecamente humanos porque neles reside a demonstração do nosso génio. Quando o marido de Lisa Fittipaldi ofereceu-lhe um conjunto de pincéis e tintas aguarela, Lisa achou que ele estava a gozar com ela com uma brincadeira da pior espécie — Lisa é cega por ter uma doença autoimune no olhos. Na sua biografia Brush with Darkeness percebemos como os limites físicos foram a raiz do seu génio e quem conhecesse a arte desta pintora fica deslumbrado com a capacidade do ser humano fazer dos limites o humus daquilo que seria impensável. Lisa não criou uma arte deslumbrante superando os limites da visão, mas usando-os. Aprendeu a conhecer-se e a experimentar ir para além de si mesma. Creio que a experiência de Lisa, ainda que não o explicite desta maneira, é profundamente espiritual.
Elon Musk com a Neuralink pretende dar o primeiro passo na simbiose entre o humanum e a Inteligência Artificial. Mas enquanto o humanum interage com a máquina, a sua liberdade de ser mantém-se. Porém, quando essa experiência passar a depender da máquina, perderá a liberdade de ser por não ser ele que compreender ou controla como se constrói, mantém ou se actualiza a máquina. Serão as empresas e os magnatas da tecnologia a deter esse controlo. Em vez dos limites serem uma das maiores fontes de inspiração daquilo que significa ser humano, como nos testemunha a pintora Lisa Fittipaldi, passam a ser o obstáculo que a tecnologia controlada por alguns irá remover.
O transumanismo pretende devolver à pessoa o controlo que perdeu do seu corpo, mas quando penso em pessoas como Phil Hansen que usou a incapacidade de controlar o tremor das suas mãos para inventar novas formas de arte, demonstra-se a possibilidade de irmos para além daquilo que pensamos ser humanamente possível quando abraçamos os nossos limites.
É óbvio que a tecnologia ajuda a que uma pessoa paraplégica possa ter uma melhor qualidade de vida. E custa-me que a intenção do transumanismo possa tornar-se num perigo ético que nos coloca reservas ao desenvolvimento tecnológico que realmente ajuda quem mais precisa. Ir para além do humanum poderia orientar-se numa direcção que faz dos limites um alarme que despertasse a criatividade e originalidade humanas suportadas pelo facto de haver uma dimensão espiritual em nós. De onde vem o desejo que ir para além do humanum em termos físicos fora do nosso alcance, se não atingimos ainda a plenitude de ir para além do humanum em termos espirituais ao alcance de qualquer um?
Por mais que admiremos a genialidade do pensamento de pessoas como Stephen Hawking pelas teorias científicas que inventou, questiono-me se teríamos a mesma admiração caso o transumanismo lhe permitisse sair da cadeira de rodas. A tecnologia permitiu-lhe comunicar quando perdeu a voz, mas o seu corpo manteve a comunicação de outra maneira. A forma como lidou com os seus limites inspirou certamente muitos a saber aprender a lidar com os seus. Nem todos conseguem controlar o corpo, a mente ou o espírito, mas todos podem escolher o caminho da descoberta daquilo que significa ir para além do humanum.
Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro palavras (publicação de Autor) e “de “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook, FNAC). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://bit.ly/NewsletterEscritos_MiguelPanao










