Para além do “humanum”

| 18 Fev 2024

Transumanismo. Imagem gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial que cria imagens a partir de descrições textuais) com prompt de Miguel Panão.

Transumanismo. Imagem gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial que cria imagens a partir de descrições textuais) com prompt de Miguel Panão.

Apesar dos pedidos de vários cientistas, a Neuralink de Elon Musk não divulga o procedimento ou qualquer progresso do primeiro ensaio do seu dispositivo Neuralink em seres humanos. Este dispositivo consiste numa interface cérebro-computador implantável, mais invasiva que os dispositivos competidores e pretende oferecer uma ligação precisa e eficaz entre o ser humano e a máquina controlada pelo pensamento. A telepatia tornar-se-ia viável. A pretensão é controlar a máquina, mas ficará esquecido facto de que a máquina também poderá controlar-nos?

O tema do transumanismo subjacente ao Neuralink foi alvo de reflexão do Cardeal Tolentino Mendonça quando participou no final de Janeiro num curso com bispos brasileiros, sendo a base da sua reflexão a diferença entre tecnologia e tecnocracia. A primeira, tecnologia, corresponde ao exercício humano da técnica guiado pelo conhecimento científico, e a segunda, tecnocracia, corresponde ao poder exercido pela tecnologia sobre o ser humano. Com o transumanismo, como sintetizou Pedro Vaz Patto, pretende-se a «superação de todos os limites que pode representar a natureza humana, aumentando as capacidades da espécie transformando-a em algo de distinto e superior», o que do ponto de vista daqueles que sofrem de paraplegia representaria um passo importante na sua interacção com o mundo. De facto, para quem desenvolve tecnologia na Academia, o nosso objectivo é resolver os problemas das pessoas, mas não a todo o custo. Apesar de não ser evidente, a preocupação ética está sempre presente em quem estuda e procura inovar o tecido tecnológico, mas não chega. Quando a tecnologia começa a interagir directamente com a cognição humana, esquecemos que existe uma terceira dimensão do humanum que está para além do tempo e do espaço, a dimensão espiritual. E não será preciso qualquer convicção religiosa para reconhecer como inegável o impacto que tem o transumanismo sobre esta dimensão.

Os limites são intrinsecamente humanos porque neles reside a demonstração do nosso génio. Quando o marido de Lisa Fittipaldi ofereceu-lhe um conjunto de pincéis e tintas aguarela, Lisa achou que ele estava a gozar com ela com uma brincadeira da pior espécie — Lisa é cega por ter uma doença autoimune no olhos. Na sua biografia Brush with Darkeness percebemos como os limites físicos foram a raiz do seu génio e quem conhecesse a arte desta pintora fica deslumbrado com a capacidade do ser humano fazer dos limites o humus daquilo que seria impensável. Lisa não criou uma arte deslumbrante superando os limites da visão, mas usando-os. Aprendeu a conhecer-se e a experimentar ir para além de si mesma. Creio que a experiência de Lisa, ainda que não o explicite desta maneira, é profundamente espiritual.

Elon Musk com a Neuralink pretende dar o primeiro passo na simbiose entre o humanum e a Inteligência Artificial. Mas enquanto o humanum interage com a máquina, a sua liberdade de ser mantém-se. Porém, quando essa experiência passar a depender da máquina, perderá a liberdade de ser por não ser ele que compreender ou controla como se constrói, mantém ou se actualiza a máquina. Serão as empresas e os magnatas da tecnologia a deter esse controlo. Em vez dos limites serem uma das maiores fontes de inspiração daquilo que significa ser humano, como nos testemunha a pintora Lisa Fittipaldi, passam a ser o obstáculo que a tecnologia controlada por alguns irá remover.

O transumanismo pretende devolver à pessoa o controlo que perdeu do seu corpo, mas quando penso em pessoas como Phil Hansen que usou a incapacidade de controlar o tremor das suas mãos para inventar novas formas de arte, demonstra-se a possibilidade de irmos para além daquilo que pensamos ser humanamente possível quando abraçamos os nossos limites.

É óbvio que a tecnologia ajuda a que uma pessoa paraplégica possa ter uma melhor qualidade de vida. E custa-me que a intenção do transumanismo possa tornar-se num perigo ético que nos coloca reservas ao desenvolvimento tecnológico que realmente ajuda quem mais precisa. Ir para além do humanum poderia orientar-se numa direcção que faz dos limites um alarme que despertasse a criatividade e originalidade humanas suportadas pelo facto de haver uma dimensão espiritual em nós. De onde vem o desejo que ir para além do humanum em termos físicos fora do nosso alcance, se não atingimos ainda a plenitude de ir para além do humanum em termos espirituais ao alcance de qualquer um?

Por mais que admiremos a genialidade do pensamento de pessoas como Stephen Hawking pelas teorias científicas que inventou, questiono-me se teríamos a mesma admiração caso o transumanismo lhe permitisse sair da cadeira de rodas. A tecnologia permitiu-lhe comunicar quando perdeu a voz, mas o seu corpo manteve a comunicação de outra maneira. A forma como lidou com os seus limites inspirou certamente muitos a saber aprender a lidar com os seus. Nem todos conseguem controlar o corpo, a mente ou o espírito, mas todos podem escolher o caminho da descoberta daquilo que significa ir para além do humanum.

Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro palavras (publicação de Autor) e  “de “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (BertrandWookFNAC). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://bit.ly/NewsletterEscritos_MiguelPanao

Diocese de Braga propõe criação de ministério para o acolhimento e escuta

Sínodo sobre a sinodalidade

Diocese de Braga propõe criação de ministério para o acolhimento e escuta novidade

Apontar para a criação de novos ministérios na Igreja Católica e repensar os já existentes, apostando na formação de leigos para esse fim e tornar os conselhos pastorais efetivos nas comunidades cristãs, com funções consultivas, mas também “executivas” são alguns dos caminhos propostos pela Arquidiocese de Braga, no âmbito da consulta sinodal tendo em vista a segunda sessão do Sínodo sobre a Sinodalidade, que ocorrerá em outubro, no Vaticano. [Texto de Manuel Pinto]

Todos são responsáveis pela missão da Igreja

Relatório síntese do Patriarcado para o Sínodo

Todos são responsáveis pela missão da Igreja novidade

A necessidade de todos serem responsáveis pela missão da Igreja; o lugar central da família; a atenção às periferias humanas; a importância de ouvir as vozes dos que se sentem excluídos; o reforço dos Conselhos Pastorais Paroquiais; e a promoção da participação das mulheres nos ministérios, incluindo a reflexão sobre “a matéria pouco consensual” da sua ordenação – são alguns dos temas referidos no documento elaborado pela comissão sinodal do Patriarcado de Lisboa no âmbito da preparação da segunda assembleia do Sínodo sobre a sinodalidade.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Cada vez mais crianças morrem na Ucrânia por causa da guerra

“Aumento acentuado”

Cada vez mais crianças morrem na Ucrânia por causa da guerra novidade

O número de crianças mortas em território ucraniano devido à guerra com a Rússia está a subir exponencialmente. Em março, pelo menos 57 crianças morreram e, já durante os primeiros dez dias de abril, 23 perderam a vida. “A UNICEF está profundamente preocupada com o aumento acentuado do número de crianças mortas na Ucrânia, uma vez que muitas áreas continuam a ser atingidas por ataques intensos, 780 dias desde a escalada da guerra”, afirma Munir Mammadzade, representante na Ucrânia desta organização das Nações Unidas de apoio humanitário à infância.

Papa cria comissão independente para escutar as vítimas de abusos

Dominicanas do Espírito Santo, em França

Papa cria comissão independente para escutar as vítimas de abusos novidade

O Papa Francisco acaba de ordenar uma nova visita apostólica ao instituto francês das Dominicanas do Espírito Santo, a fim de aprofundar denúncias de abusos que ali se terão verificado nos primeiros anos da década passada. Esta decisão, anunciada por um comunicado emitido pelo próprio instituto nesta segunda-feira ao fim do dia, vem adensar ainda mais o contexto de várias polémicas vindas a lume nos últimos tempos, na sequência da expulsão de uma religiosa, decidida em 2021 pelo cardeal Marc Ouellet, então prefeito da Congregação para os Bispos

Interfaces relacionais insubstituíveis

Interfaces relacionais insubstituíveis novidade

Numa típica sala de aula do século XVIII, repleta de jovens alunos mergulhados em cálculos e murmúrios, um desafio fora lançado pelo professor J.G. Büttner: somar todos os números de 1 a 100. A esperança de Büttner era a de ter um momento de paz ao propor aquela aborrecida e morosa tarefa. Enquanto rabiscos e contas se multiplicavam em folhas de papel, um dos rapazes, sentado discretamente ao fundo, observava os números com um olhar penetrante. [Texto de Miguel Panão]

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This