Para condenar não me chamem

| 15 Abr 21

Pedro Abrunhosa no Estabelecimento Prisional de Braga.

Pedro Abrunhosa no Estabelecimento Prisional de Braga: “A liberdade é o que fazemos dela”. Foto: Direitos reservados (explicação mais detalhada no final do texto).

 

Após vinte e dois anos de trabalho dentro de uma prisão ainda me pergunto: que falta faz um padre na prisão? Talvez seja necessário responder antes a uma outra: para que serve a prisão? O sistema prisional devia ter dois objetivos fundamentais: proteger a sociedade de condutas criminosas e proporcionar aos reclusos uma hipótese de reabilitar as suas vidas. Devíamos, por isso, implementar medidas pedagógicas de sociabilização tais como a releitura da história pessoal, a aquisição de competências de trabalho, a restauração de laços afetivos, a implementação de terapias de combate a doenças como o álcool, drogas e outras adições bem como proporcionar um caminho espiritual de redescoberta de valores da vida em sociedade.

O estado atual das prisões é descrito pela antropóloga Catarina Fróis, no seu livro Prisões, como: “não dissuade a criminalidade, não serve de exemplo para o infrator, não reabilita nem degenera o sujeito encarcerado. Servirá, sobretudo, para que se tranquilize a sociedade e para demonstrar que a justiça está atenta e cumpre o seu dever, assegurando que quem transgride é responsabilizado e punido.” Esta prisão serve somente para animalizar o ser humano.

A primeira ideia amplamente generalizada na sociedade sobre “o porquê” da prisão é de que ela serve para punir pessoas que cometeram um crime e deve, para isso, ser um lugar de sofrimento, exclusão, penitência e até de degradação. A prisão é sempre para os outros.

O que está na lei é que a condenação a uma pena efetiva não significa ir para uma prisão horrível que nos faça experimentar o inferno na terra. A pena é a perda da liberdade. O diretor de uma prisão norueguesa, o psicólogo clínico Arne Wilson, considera que se tratarmos as pessoas como animais quando estão na prisão, o mais certo é comportarem-se como animais. Se algumas pessoas têm de cumprir uma pena de prisão, o objetivo último é colocá-las de volta na sociedade em melhor estado do que quando entraram. Da minha experiência, há pessoas com uma noção muito humana de como deveria ser a prisão. Mas maioritariamente outras com visão de colónia penal.

Em que perspetiva faz falta um padre na prisão? A primeira razão é a mesma pela qual está em qualquer outro lugar. Está na prisão porque lá estão pessoas. Pessoas que precisam de uma janela para Deus que lhes abra uma janela para o mundo. O seu papel é muito mais amplo e variado do que o do simples oficiante de um culto. É uma presença real mais do que uma ação esporádica. Contudo a sua missão engloba toda uma série de atividades que vão desde a assistência espiritual à material, ao exercício da escuta empática, centrada na felicidade e na liberdade de quem é escutado.

Tal missão necessita de disponibilidade, paciência e de entrega, já que a essa assistência atrás das grades é exigente, tendo em conta a dor e o sofrimento que o cativeiro opera sobre os seus “usuários”, sejam eles reclusos, guardas prisionais ou técnicos. Dentro das prisões há mais mundo do que os reclusos…

O assistente espiritual e religioso precisa de ser qualificado, disponível e competente. Precisa de ser profissionalizado. Um dos fatores que levou a um certo descrédito da antiga capelania prisional foi o seu amadorismo e a falta de profissionalização dos seus agentes.

Os direitos constitucionais do exercício da liberdade religiosa estão muito mal tratados nas prisões portuguesas. A dimensão espiritual não cabe nos esquemas daqueles que acham que o sistema é para reprimir. A lei 252/2009 que regula a assistência espiritual e religiosa nos estabelecimentos prisionais está de quarentena desde que foi criada: nunca foi regulamentada nem parece inquietar as instituições que deveriam assumir isso como sua missão. A presença dos assistentes espirituais parece ser suportada mas não estimulada. Numa colónia penal, o padre não faz falta.

 

Acerca da foto

O cantor e compositor português, Pedro Abrunhosa, esteve no Estabelecimento Prisional de Braga, no dia 17 de Abril de 2019, no âmbito do projeto “Café com…” promovido pela Pastoral Penitenciária de Braga. O projeto consiste em convidar uma pessoa para partilhar a sua experiência de vida à volta de uma mesa de café dentro do estabelecimento prisional.

De forma descontraída, Pedro Abrunhosa abriu um pouco o livro da sua vida aos reclusos do Estabelecimento Prisional de Braga e desabafou que não gosta de ser famoso: “a fama pesa-me, aborrece-me e cansa-me. Eu escolhi ser músico, não escolhi ser famoso, sou realmente muito recatado e discreto. A fama é algo que me pesa, me aborrece e me cansa. Não me aborrece que as pessoas venham ter comigo, porque são todas muito generosas, abordam-me com muito afeto.”

Falando de liberdade, recorreu à mitologia grega e disse que “a liberdade é o que fazemos dela”, concluindo a citar Santo Agostinho e dizendo que “o homem pode portar-se como os animais ou como os anjos”.

O tempo, o silêncio, viagens. São eles que moldam a música de Abrunhosa. Com os ouvidos atentos ao que vai sendo tocado em seu redor. “Para preparar cada disco passo dois anos de solidão no meu estúdio, e essa solidão só é interrompida quando tenho espectáculos” confidenciou aos reclusos. Pedro Abrunhosa fez-se acompanhar pelo guitarrista Bruno Macedo (à direita, na foto, a olhar para o cantor) e fez um mini-concerto para os reclusos onde cantou, entre outros temas, Para os braços da minha mãe; Quem me leva os meus fantasmas; Não posso mais; Socorro; Não desistas de mim; Fazer o que ainda não foi feito e Eu não sei quem te perdeu.

 

João Torres é padre, coordenador da Pastoral Penitenciária de Braga e pároco de Priscos.

 

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