Para muitos jovens católicos, “identidade de género” já não é questão

| 14 Jan 24

Padre Luís Marinho, ex-assistente do Corpo Nacional de Escutas (CNE) e, desde 2022, assistente da Conferência Internacional Católica do Escutismo (CICE). Foto © António Marujo

Padre Luís Marinho, ex-assistente do Corpo Nacional de Escutas (CNE) e, desde 2022, assistente da Conferência Internacional Católica do Escutismo (CICE). Foto © António Marujo.

 

Muitos jovens escuteiros – caminheiros, entre os 18-22 anos, e jovens dirigentes até aos 33-34 anos – já se perguntam como é que a Igreja ainda está a reflectir sobre as questões da identidade de género. Para eles, isso “já não é questão”. A afirmação é do padre Luís Marinho, ex-assistente do Corpo Nacional de Escutas (CNE) e, desde 2022, assistente da Conferência Internacional Católica do Escutismo (CICE). 

Em entrevista ao programa 7MARGENS, da Antena 1, o responsável referia-se ao actual debate no interior do CNE a propósito do documento sobre sexualidade e afectividade elaborado no âmbito do projecto Entre Linhas, que os escuteiros católicos dinamizam desde há cerca de três anos. 

Nos últimos dois meses, vários assistentes do CNE criticaram o documento como um “equívoco”. O assistente regional de Aveiro, padre Pedro Lopes Correia, diz que ele se identifica com a chamada “ideologia de género” e não “com a Sagrada Escritura, o magistério da Igreja, a reflexão teológica, concretamente a moral católica”. E num outro texto escrevia mesmo: “Não, Deus não nos aceita tal como somos, de todo! Se Jesus Cristo nos aceitasse como nós somos, não precisava de ter vindo à Terra. Claro que Deus recebe-nos e acolhe-nos… por inteiro, tal como somos, com todos os nossos defeitos e virtudes… mas depois, convida-nos e desafia-nos a trabalharmos sobre nós próprios: sobre o nosso egoísmo, sobre a nossa autossuficiência, a nossa arrogância e pretensão, sobre as nossas teimosias e infidelidades… em suma, convida-nos a todos, todos, todos… à Conversão”.

Na última semana, dois assistentes de Lisboa escreveram uma carta “sigilosa” a todos os padres do Patriarcado, que o 7MARGENS revelou há dias, afirmando que o documento teria sido “rejeitado” pela maioria dos assistentes regionais. 

Luís Marinho recusa estas acusações: o projecto Entre Linhas pretendeu ouvir todos: jovens e adultos, católicos e não católicos, membros do CNE, professores de teologia e muitas outras pessoas. Envolveu, além disso, a Faculdade de Teologia da Universidade Católica, o Secretariado Nacional da Educação Cristã, o movimento escutista católico de Espanha e a CICE. “Posso garantir que desde o ponto zero deste projecto todas as articulações eclesiais foram feitas”, incluindo com os bispos, diz. E acrescenta: “É impossível estar de acordo” com a acusação de falta de debate. “Fizemos uma discussão franca e leal, olhos nos olhos; foi isso que o projecto quis fazer: criar um fórum onde se pode falar abertamente. É doloroso reconhecer que para algumas pessoas não se pode falar abertamente sobre alguns temas e não se pode pensar, que tem de se meter a inteligência no bolso, que temos de meter a nossa experiência crente entre parêntesis se queremos aprofundar um determinado assunto.”

 

O assistente do CNE, o padre Luís Marinho. Foto © Manuel Joaquim/Flor de Lis

O  padre Luís Marinho quando assistente do CNE. Foto © Manuel Joaquim/Flor de Lis

 

O assistente da CICE diz que está disponível a escutar “todas as críticas”, mas não aceita o argumento de que o texto não foi “eclesialmente articulado”. Mas também contesta a sua validade dos argumentos de que o texto contraria a doutrina da Igreja e o evangelho: “Para dizer isso, precisamos de conhecer a doutrina da Igreja, precisamos de conhecer a sua reflexão, precisamos de conhecer essa fonte primeira que é o Evangelho e a palavra de Deus e precisamos de conhecer o que hoje os homens e mulheres deste tempo vivem, particularmente as crianças e os jovens.”

“Todos somos criados e amados, todos somos chamados à conversão”, afirma ainda Luís Marinho. Admitindo que “é difícil de perceber a realidade” porque há “um terreno muito pantanoso, onde se misturam correntes ideológicas, agendas sociais e que nalgumas etapas a Igreja tomou como um todo debaixo da expressão ‘ideologia de género’”, o ex-assistente do CNE diz que o “papel da Igreja e o papel de um movimento de educação como é o CNE é acompanhar estas pessoas reais – crianças, jovens adolescentes – e suas famílias, nas inquietações que nem sempre a antropologia cristã foi capaz de captar”. 

Esta, insiste, “é uma reflexão de católicos que assumem a sua responsabilidade [como] capaz de trazer para a luz uma reflexão crítica em nome do evangelho”. Também eles, acrescenta, “compreenderam a pertinência de uma palavra em nome do evangelho e em nome da Igreja que fosse iluminadora para as suas vidas”. 

Este tipo de questões traduz a ideia de que “o evangelho vivido com tensão está no seu habitat natural, porque sempre viveu em tensão com as culturas, com as correntes de pensamento, com as organizações de cada tempo”, afirma ainda este padre nascido em 1973 em Celorico de Basto, licenciado em Teologia em Braga, na Universidade Católica Portuguesa em 1996, e ordenado padre no ano seguinte. E defende: “Não há propriamente um espaço neutro onde todos nos encontramos e onde as diferenças são diluídas; há espaços de comunhão onde as diferenças são assumidas.”

Nem só das questões afectivas ou de identidade de género se faz o debate no escutismo. Na conferência mundial escutista, que decorreu em Paris (França), em Dezembro, a questão da espiritualidade esteve também em causa., com algumas pessoas a defender que o movimento deve deixar essa dimensão. O padre Luís Marinho contesta: “Esta dimensão da espiritualidade e da religião, que é fundacional, é o primeiro dos deveres enunciados por Baden Powell”, o fundador do escutismo. 

O fundador do escutismo, aliás, é ainda evocado para dizer que ele dizia que “Deus escreveu dois livros: a Bíblia e a natureza; são estes dois livros que devemos aprender”. E no que se relaciona com a emergência climática que vivemos, o padre Luís diz que a encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, sobre o cuidado com a casa comum, veio dizer de forma inovadora “que o cuidado da criação é uma consequência social da fé católica” e que essa é “uma das dimensões do pensamento social cristão, unindo harmonicamente o grito da terra e o grito dos pobres”. E conclui: “O cuidado da natureza é uma questão social, porque sabemos que são os pobres os primeiros afectados pelas alterações climáticas.”

 

Padre Luís Marinho: “O cuidado da natureza é uma questão social, porque sabemos que são os pobres os primeiros afectados pelas alterações climáticas.” Foto © CNE

 

Essa intervenção na questão climática deve ligar-se ainda à intervenção política em sentido largo: “O escutismo não é ocupação de tempos livres, mas uma proposta pedagógica. E tem esta capacidade de intervenção mais no nível da cidadania e mesmo da intervenção política”, nos âmbitos “onde se constroem e se decidem as linhas que fazem o bem comum”. O que o leva a admitir que é preciso “investir ainda mais nesta dimensão”. 

Tendo sido diretor espiritual dos dois Seminários de Braga, entre 2002 e 2013), Luís Marinho afirma que “não raras vezes encontramos jovens que são admitidos ao seminário com uma grande dificuldade de se deixarem formar, de se deixarem questionar e que vêem o seminário como um ‘mal necessário’ para serem padres, alguns mesmo sendo alimentados por movimentos ou outros grupos que vão modelando a sua personalidade”. Reconhece ainda: “Vejo bem a grande dificuldade dos formadores que estão no seminário de partir esta carapaça.”

O assistente escutista teve também responsabilidades na diocese de Braga e a nível nacional no âmbito das associações laicais e dos movimentos católicos de leigos. Sobre a participação dos leigos, considera que “esse é o grande défice” na Igreja em Portugal: “de reflectirmos em conjunto, de rezarmos juntos e de nos pormos juntos à excuta da Palavra de Deus para amadurecer as decisões.”

Nos últimos instantes do programa, o padre Luís Marinho destacou a relevância do podcast que três colegas seus de Braga e Viana do Castelo – Paulo Terroso, Tiago Freitas e Pablo Lima – criaram com o título de “Os suspeitos do costume”. 

Uma oportunidade de aprofundar seriamente todos os assuntos, mesmo os que são difíceis, afirma. 

Como sugestão cultural, o padre Luís deixou a “ausência” das crónicas Sinais, de Fernando Alves, na TSF. Não só como forma de se mostrar solidário com o “drama” dos jornalistas e outros trabalhadores da Global Media, mas também pelo “imenso talento e arte” que aquelas crónicas traziam. 

A entrevista pode ser ouvida na íntegra na ligação https://www.rtp.pt/play/p12257/e740875/7-margens

 

últimos episódios

E Jesus, estaria ele no Tik Tok?

7MARGENS/Antena 1

E Jesus, estaria ele no Tik Tok? novidade

“Falar Piano e Tocar Francês” é o título do livro do maestro Martim Sousa Tavares. Arte, música, cultura, paixão e mediação são temas do livro e pretextos para a conversa no programa 7MARGENS, da Antena 1. Que começa por uma pergunta: e Jesus, estaria ele hoje no Tik Tok?

preciosa pode ser a palavra «ainda»

preciosa pode ser a palavra «ainda»

Breve comentário do p. ⁠António Pedro Monteiro aos textos bíblicos lidos em comunidade, no Domingo XI do Tempo Comum B. ⁠Hospital de Santa Marta⁠, Lisboa, 15 de Junho de 2024.

família?

família?

Breve comentário do p. António Pedro Monteiro aos textos bíblicos lidos em comunidade, no Domingo X do Tempo Comum B. Hospital de Santa Marta⁠, Lisboa, 8 de Junho de 2024.

Bispos católicos de França apelam à fraternidade e justiça, mas não se demarcam da extrema-direita

Com as eleições no horizonte

Bispos católicos de França apelam à fraternidade e justiça, mas não se demarcam da extrema-direita novidade

O conselho permanente dos bispos da Igreja Católica de França considera, num comunicado divulgado esta quinta-feira, 20 de junho, que o resultado das recentes eleições europeias, que deram a vitória à extrema-direita, “é mais um sintoma de uma sociedade ansiosa, dividida e em sofrimento”. Neste contexto, e em vésperas dos atos eleitorais para a Assembleia Nacional, apresentaram uma oração que deverá ser rezada por todas as comunidades nestes próximos dias.

“Precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança”

Tolentino recebeu Prémio Pessoa

“Precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança” novidade

Na cerimónia em que recebeu o Prémio Pessoa 2023 – que decorreu esta quarta-feira, 19 de junho, na Culturgest, em Lisboa – o cardeal Tolentino Mendonça falou daquela que considera ser “talvez a construção mais extraordinária do nosso tempo”: a “ampliação da esperança de vida”. Mas deixou um alerta: “não basta alongar a esperança de vida, precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança e a deseje fraternamente repartida, acessível a todos, protagonizada por todos”.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

E Jesus, estaria ele no Tik Tok?

7MARGENS/Antena 1

E Jesus, estaria ele no Tik Tok? novidade

“Falar Piano e Tocar Francês” é o título do livro do maestro Martim Sousa Tavares. Arte, música, cultura, paixão e mediação são temas do livro e pretextos para a conversa no programa 7MARGENS, da Antena 1. Que começa por uma pergunta: e Jesus, estaria ele hoje no Tik Tok?

Nasce o Conselho Inter-religioso para a Paz no Senegal e na África Ocidental

Para "antecipar conflitos"

Nasce o Conselho Inter-religioso para a Paz no Senegal e na África Ocidental novidade

Acaba de ser criado no Senegal um Conselho Inter-religioso para a Paz. Reunindo representantes do Islão, da Igreja Católica, da Igreja Protestante e das religiões tradicionais, a sua missão é antecipar os conflitos, agir em prol da coesão social e do cuidado da casa comum.

Reunião do Conselho dos Cardeais com o Papa voltou a contar com três mulheres

Uma religiosa e duas leigas

Reunião do Conselho dos Cardeais com o Papa voltou a contar com três mulheres novidade

Pela quarta vez consecutiva, o papel das mulheres na Igreja voltou a estar no centro dos trabalhos do Papa e do seu Conselho de Cardeais – conhecido como C9 -, que se reuniu no Vaticano nos últimos dois dias, 17 e 18 de junho. Tratou-se de uma reflexão não apenas sobre as mulheres, mas com as mulheres, dado que – tal como nas reuniões anteriores – estiveram presentes três elementos femininos naquele que habitualmente era um encontro reservado aos prelados.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This