Na morte do poeta

para o Fernando Echevarría, mas não à sua memória

| 6 Out 21

Fernando Echevarría

Fernando Echevarría em sua casa, em 27 Maio 2018. Foto © Luís Soares Barbosa

 

Da sua obra outros falarão melhor. E da sua vida apenas um voo grato.

Conheci o Fernando Echevarría há alguns anos quando juntos animámos no Metanoia uma sessão sobre os nomes de Deus que a poesia enuncia em nós, ou não, ou só.

Da sua sala sobre o rio aberta recordo cada gesto afável, a tenaz humildade de quem um dia disse, e fez, e um campo escolheu e o lavrou.

Mas sobretudo uma orelha enorme suspensa sobre a tarde, à escuta do que talvez não fale. A palavra que houver, porém, como linha anónima cerzirá o pano onde acomoda, modestamente, a vida imperecível. Relê, disse-me, “A morte de Vergílio”: está lá tudo.

Soube ontem, quase noite, que partira. Lá fora, a rósea luz de Atenas envolvia os passos e as pombas, as pedras e as perdas, o bulício das ruas, a crispação que tanto quotidiano tem. Comigo um dos seus versos de um livro antigo – “Depois de havê-lo feito, a obra o leva” (Figuras, 1987). Como um silêncio, quase.

 

Fernando Echevarría

Escultura em casa de Fernando Echevarría. Foto © Luís Soares Barbosa.

 

para o Fernando Echevarría, mas não à sua memória

porque a descrê interroga
perplexo
as inúmeras gradações da morte.

de si próprio se espanta
e emudece, abertas as mãos
ao cuidado alheio: o pensamento
um olival antigo, árvore de ausências,
como sempre o corpo quis.

murmura ao seu ouvido atento
a voz incerta
aberta,
incerta,
porque nela crê pergunta,
em cada dissolução invoca
o poder
da alva.

(luís soares barbosa, outubro 2021)

 

Fernando Echevarría

Fernando Echevarría: “…abertas as mãos/ ao cuidado alheio…” Foto © Luís Soares Barbosa

Nós somos porque eles foram. E nós seremos nos que vierem a ser.

Nós somos porque eles foram. E nós seremos nos que vierem a ser. novidade

A homenagem aos que perderam as suas vidas nesta pandemia é uma forma de reconhecermos que não foram só os seus dias que foram precoce e abruptamente reduzidos, mas também que todos nós, os sobreviventes, perdemos neles um património imenso e insubstituível. Só não o perderemos totalmente se procurarmos valorizá-lo, de formas mais ou menos simbólicas como é o caso da Jornada da Memória e da Esperança deste fim-de-semana, mas também na reflexão sobre as nossas próprias vidas e as das gerações que nos sucederão.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Parlamento aprovou voto de solidariedade com vítimas da pandemia e iniciativa cidadã

Jornada da Memória e da Esperança

Parlamento aprovou voto de solidariedade com vítimas da pandemia e iniciativa cidadã novidade

A Assembleia da República (AR) manifestou o seu apreço pela Jornada de Memória e Esperança, que decorre neste fim-de-semana em todo o país, através de um voto de solidariedade com as vítimas de covid-19 e com as pessoas afectadas pela pandemia, bem como com todos os que ajudaram no seu combate, com destaque para os profissionais de saúde.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This