
Fernando Echevarría em sua casa, em 27 Maio 2018. Foto © Luís Soares Barbosa
Da sua obra outros falarão melhor. E da sua vida apenas um voo grato.
Conheci o Fernando Echevarría há alguns anos quando juntos animámos no Metanoia uma sessão sobre os nomes de Deus que a poesia enuncia em nós, ou não, ou só.
Da sua sala sobre o rio aberta recordo cada gesto afável, a tenaz humildade de quem um dia disse, e fez, e um campo escolheu e o lavrou.
Mas sobretudo uma orelha enorme suspensa sobre a tarde, à escuta do que talvez não fale. A palavra que houver, porém, como linha anónima cerzirá o pano onde acomoda, modestamente, a vida imperecível. Relê, disse-me, “A morte de Vergílio”: está lá tudo.
Soube ontem, quase noite, que partira. Lá fora, a rósea luz de Atenas envolvia os passos e as pombas, as pedras e as perdas, o bulício das ruas, a crispação que tanto quotidiano tem. Comigo um dos seus versos de um livro antigo – “Depois de havê-lo feito, a obra o leva” (Figuras, 1987). Como um silêncio, quase.

Escultura em casa de Fernando Echevarría. Foto © Luís Soares Barbosa.
para o Fernando Echevarría, mas não à sua memória
porque a descrê interroga
perplexo
as inúmeras gradações da morte.
de si próprio se espanta
e emudece, abertas as mãos
ao cuidado alheio: o pensamento
um olival antigo, árvore de ausências,
como sempre o corpo quis.
murmura ao seu ouvido atento
a voz incerta
aberta,
incerta,
porque nela crê pergunta,
em cada dissolução invoca
o poder
da alva.
(luís soares barbosa, outubro 2021)

Fernando Echevarría: “…abertas as mãos/ ao cuidado alheio…” Foto © Luís Soares Barbosa










