Para os Caminhantes Tudo é Caminho é o título do novo livro do cardeal português José Tolentino Mendonça, que será posto à venda no próximo dia 13, quinta-feira. Composto por pequenos textos de reflexão, o livro aborda, nas suas 180 páginas, temas do quotidiano, do calendário litúrgico católico ou da condição humana.
Justificando o título, o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação (Santa Sé) escreve que “o importante não é só contar a viagem, mas testemunhar também o contributo dos passos; elogiar não só a meta, mas a lição de cada etapa, sobretudo quando chegámos a duvidar que o caminho conduzisse a alguma parte”.
Depois de outros seis livros na Quetzal (nomeadamente Elogio da Sede e Metamorfose Necessária – Reler São Paulo), e de muitos títulos publicados antes nas Paulinas e em outras editoras, este novo livro apresenta uma ilustração de capa que se relaciona com a origem de José Tolentino Mendonça: trata-se da silhueta de um barbusano (Apollonias barbujana), árvore que se distingue entre a grande diversidade presente na floresta laurissilva, da Madeira, cujo porte se eleva até aos 20 metros, e que tem folhas perenes e escuras, uma copa arredondada e um tronco resistente e de grande densidade.
O 7MARGENS apresenta a seguir, em pré-publicação, alguns excertos do novo livro.

Capa de Para os Caminhantes Tudo é Caminho, título do novo livro do cardeal português José Tolentino Mendonça.
Interessar-se pela humanidade
Lembro-me de uma conversa com a escritora Nélida Piñon, na Capela do Rato. A dada altura, alguém a interpelou sobre o que seria decisivo na construção de um escritor. Ela respondeu mais ou menos isto: a existência dos outros. E explicou que sempre se preparou para esse encontro que na literatura inapelavelmente se joga, viajando em pensamento até essa galáxia radical e silenciosa que é a existência longínqua dos outros, inclusive a daqueles e daquelas que nos são mais próximos. E que o fazia não com a pretensão de desvendar sabe-se lá que segredos, mas pelo exercício de pura curiosidade pela existência em si. O que faz cada um quando está só? Como caminha descalço pela sua casa? Como abre ou fecha uma janela e depois outra? Como se acalma estando ali ou como se agita e sofre? Como trabalha e repousa? Como segura um objeto qualquer e o contempla? De que se alimenta? Que coreografia de gestos úteis e inúteis desenha? Dá-se tempo? Não se dá tempo? Se tocar o telefone atende ou não atende? O que sente estando em si nesta precisa hora?
Mais frequentemente do que supomos, a razão do nosso desconforto é a incapacidade de ver a realidade, a nossa e a dos outros, como ela é, de a olhar com gentileza e atenção, de a interpretar não a partir do nosso arsenal de preconceitos, mas do seu contexto objetivo. Um interesse assim pela existência ajuda-nos a diminuir a rigidez de tantos precipitados juízos e a favorecer degelos dentro de nós.
Exemplar é a resposta que Simone Weil deu à médica assistente do sanatório de Ashford quando esta lhe perguntou: «Diga-me o que faz na vida.» Simone terá respondido simplesmente: «Interesso-me pela humanidade.»
Somos uma obra dos outros
Quanto temos a aprender da palavra «gratidão»! Parece um argumento minúsculo e para mais hoje praticamente destituído de cidadania cultural ou civil, a gratidão. Mas não há como os pequenos atos para exprimir aquilo que é grande e futurante no ser humano. De facto, não só no âmbito da experiência pessoal, mas também para a aventura coletiva que uma comunidade incessantemente é chamada a viver, a gratidão representa um componente sem o qual a estrutura profunda balança. Tinha razão Cícero quando fazia depender da gratidão todos os valores, quer os da vida privada, quer os que qualificam a vida em sociedade. A gratidão, como a própria etimologia nos faz ver, coloca no centro o reconhecimento de uma graça que nos precede. E esse reconhecimento é, de facto, o motor da vida. No princípio está, portanto, a graça, o dom, a benevolência, o esforço e o génio dos que nos antecederam transformados em dádiva, a inteligência e a generosidade de uma imensa corrente humana sem a qual nós não seríamos. Ninguém depende somente de si. Somos uma obra dos outros. Por isso, antes de nos tornarmos protagonistas e criadores (e para nos tornarmos protagonistas e criadores) temos de nos descobrir, em algum momento, gerados por uma graça que nos é transmitida. E só quando nos compreendemos assim, como seres gerados, somos capazes também de pensar a história não como fragmento desconexo, mas como articulada sequência de gerações.
Rezar é também abraçar

“Um abraço são dois corpos quase tombando, inclinados na sua vulnerabilidade.” Na imagem, escultura Abraço, de Alfredo Ceschiatti. Museu de Arte da Pampulha – Belo Horizonte. Foto © Jani Pereira, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
Se aceitarmos que rezar é abraçar a vida como ela é, não podemos fugir à pergunta: «Que significa um abraço?» Comecemos por aí. Um abraço é uma coisa que não existe antes de o darmos. Não existe enquanto forma na terra porque é um encontro afetuoso, amigável, amoroso. É um encontro de dois corpos que, aproximando-se, geram um desequilíbrio. Se olharmos bem, um abraço são dois corpos quase tombando, inclinados na sua vulnerabilidade. Estamos sempre mais estáveis fora do abraço. O abraço faz-nos levantar os pés ou inclinar o tronco. Obriga-nos a debruçarmo-nos ao encontro de outrem, para lá de nós. Tem o seu quê de arriscado, se pensamos nisso, mas nesta inclinação como que se inventa (ou reinventa) uma nova experiência do mundo e da vida. Um abraço ativa a hospitalidade, e essa é uma excelente ponte para o tema da oração.
Que significa dizer «rezar é abraçar a vida como ela é»? Não é uma coisa que se possa previamente definir, pois, à maneira daquilo que ocorre num abraço, a oração não existe até nos encontrarmos em oração. Cada um de nós tem uma forma de caminhar que é singular, uma forma de sorrir que é única, uma forma só sua de chorar. Precisamos de reconhecer que temos também uma forma de rezar. Forma essa que descobrimos na prática, construindo, revisitando quotidianamente esse lugar. Mas o que quer que rezar seja para cada um de nós, será sempre uma experiência de hospitalidade. Implica expormo-nos, escancararmos o que somos agora sem máscaras nem véus, celebrarmos uma gratidão reconciliada por aquilo que nos cabe viver. Parece óbvio; porém, pede de nós um caminho.
Um e todos
Os pobres não são dados estatísticos nem abstrações: são seres humanos que precisam de outros seres humanos. De facto, uma atenção afetuosa, um olhar onde o preconceito e o medo aceitem ser substituídos pelo reconhecimento do outro e pela compaixão, constitui muitas vezes o princípio de uma história diferente. Perguntar ao outro o seu nome e dizer-lhe o nosso. Dar tempo e não apenas um fugidio auxílio. Partilhar um sorriso que transmita ao que está em situação de vulnerabilidade a certeza, por pequena que seja, de que foi visto e de que a sua existência é valorizada.
Reconhecer os seus direitos. Os direitos humanos fundamentais são universais; todos os seres humanos partilham e são protegidos pelo mesmo quadro normativo. O artigo 3.° fala, por exemplo, do direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. O artigo 17.° afirma que toda a pessoa, individual ou coletiva, tem direito à propriedade, e ninguém pode ser arbitrariamente privado do que lhe pertence. A lei protege aqueles que são já detentores objetivos desses direitos. Mas quem protege os direitos daqueles que não têm direitos? Dorothy Day dizia que na raiz de uma consciência social digna desse nome está o reconhecimento de que o problema de um é um problema de todos. E alertava para o perigo de uma heresia: aquela de não reconhecermos Cristo nos pobres.
Festa de Todos os Santos

Fra Angelico (c. 1395–1455), Os Precursores de Cristo com santos e mártires (década de 1420). Fra Angelico, Domínio público, via Wikimedia Commons.
Organizemos um banquete de migalhas para celebrar a Festa de Todos os Santos. Aquela migalha do escritor Léon Bloy, que dizia: «Só há uma infelicidade, que é a de não sermos santos.» A do seu compatriota Paul Claudel, a recordar-nos no seu diário espiritual: «O segredo da santidade é deixar ser Deus a atuar e não colocar à Sua vontade nenhum obstáculo.» Acrescentando: «É uma confiança naïve.» A migalha trazida pela poeta Sophia de Mello Breyner Andresen: «A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.» A migalha que nos foi dada pelo papa Francisco na exortação apostólica Gaudete et Exsultate, ao falar da «santidade da porta ao lado» ou da «classe média da santidade», insistindo em como «o Espírito Santo espalha santidade por todo o lado». Ou aquela migalha saborosíssima do apóstolo Paulo, na Carta aos Efésios: «Possam, conjuntamente com todos os santos, compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento.» (Carta aos Efésios 3:18-19).
A interrupção
Quando penso no tempo litúrgico do Advento, que antecede o Natal e que em grande medida aprofunda e desvela o seu significado, vem-me muitas vezes à cabeça um livro do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina. É um livro de poesia, como o são afinal tantos livros bíblicos. Mas este livro contemporâneo o que é que conta? Narra a história de Severino. Severino é um homem, um ser humano apenas, mais um de nós, um qualquer Adão. Severino é uma criatura provada, porque a vida é dura, implacável; a vida não retribui diretamente o sonho, o esforço, o investimento afetivo que nós nela colocamos. Repete a si mesmo que, se não encontra respostas para as áridas interrogações que traz, talvez o melhor seja pôr fim a tudo. Com estes pensamentos, põe-se a caminhar perto de um rio e encontra, a dada altura, um carpinteiro chamado José, a quem pergunta se o braço de rio é suficientemente fundo para que uma vida nele se perca. O carpinteiro percebe o seu tormento e tenta dissuadi-lo. Severino volta-se para José e suplica: «Então dá-me uma razão. Dá-me uma razão que seja, que diga que a vida vale a pena.» Quando estavam os dois nesta discussão, a conversa é interrompida por um coro que vem anunciar que a mulher de José acaba de dar à luz. Somos, então, conduzidos ao lugar onde está o menino e José saúda com entusiasmo o seu nascituro. E dirigindo-se ao desesperado Severino diz que é verdade, que também ele não tem uma resposta para lhe dar, mas adianta: «Não há melhor resposta que o espetáculo da vida: / vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, / ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica.» Na realidade, a vida responde manifestando-se, dando-se a si mesma, abrindo-nos ao desabalado espetáculo que é a própria existência, a esse inacreditável e despojado milagre que a vida é em si mesma.
Ajudar Deus

Dietrich Bonhoeffer rebelava-se contra o recurso que, na prática, os crentes fazem a um Deus «tapa-buracos». Foto: Direitos reservados.
Um dos mais importantes teólogos do século XX, o pastor-mártir Dietrich Bonhoeffer, rebelava-se contra o recurso que, na prática, os crentes fazem a um deus ex machina, a um Deus «tapa-buracos», que se assemelha a uma solução mágica para todos os dilemas humanos. De facto, o cristianismo opera uma corajosa inversão de paradigma: enquanto a religiosidade natural leva a que o homem procure o Deus poderoso como auxílio para a sua vulnerabilidade, o cristianismo reenvia continuamente o homem à impotência e ao sofrimento de Deus. Segundo Bonhoeffer, «é absolutamente evidente que Cristo não nos socorre em razão da sua omnipotência, mas em razão da sua fraqueza», pois «Deus deixa-Se expulsar do mundo no alto da cruz; Deus revela-Se aí impotente e frágil, e só dessa maneira está ao nosso lado e nos ajuda». Neste caso, o que é a fé? Para Dietrich Bonhoeffer, a fé é tomar parte no sofrimento de Deus no mundo, abraçando e cuidando de cada pessoa que sofre, responsabilizando-se solidariamente por esta história, fincando nela os dois pés. Se vivermos agora a difícil história humana, com as suas emergências e apelos, apenas com um pé colocado no chão, teremos depois também apenas um pé colocado no paraíso.
Outra mártir do século XX, a escritora Etty Hillesum, abre-nos para um intenso desafio existencial quando diz: «Eu compreendi que tenho de ajudar Deus.» No diário que redigiu no campo de concentração, deixou escritas estas palavras: «São tempos temerosos, meu Deus. Esta noite, pela primeira vez, passei-a deitada no escuro de olhos abertos e a arder, e muitas imagens do sofrimento humano desfilavam perante mim. Mas torna-se-me cada vez mais claro o seguinte: que tu não nos podes ajudar, mas nós é que temos de ajudar-te, e, ajudando-te, ajudamo-nos a nós mesmos.»










