
‘No entanto, como cristãos, não temos grande opção, pois “a unidade entre a verdade e o amor implica que nos encarreguemos das dificuldades do outro até as fazermos nossas, como acontece entre verdadeiros irmãos e irmãs.” Como cidadãos responsáveis, certamente também.’ Foto © Wendy Alvarez / Unsplash
Diz o Relatório do Sínodo dos Bispos, que saiu da assembleia de outubro de 2023: “(…) a verdade de que Jesus é portador não é uma ideia, mas é a própria presença de Deus no meio de nós; e o amor com que atua não é apenas um sentimento, mas a justiça do Reino que muda a história. A dificuldade que encontramos para traduzir esta límpida visão evangélica em opções pastorais é sinal da nossa incapacidade de viver à altura do Evangelho e recorda-nos que não podemos apoiar quem precisa de ajuda, a não ser através da nossa conversão, pessoal e comunitária.
Se utilizarmos a doutrina com dureza e com atitude de quem julga, traímos o Evangelho; se praticarmos uma misericórdia barata, não transmitimos o amor de Deus. A unidade entre a verdade e o amor implica que nos encarreguemos das dificuldades do outro até as fazermos nossas, como acontece entre verdadeiros irmãos e irmãs. Por isso mesmo, esta unidade só pode ser realizada se seguirmos com paciência o caminho do acompanhamento” (capítulo 15, alíneas e-f).
Na Comunidade Redentorista do Porto temos andado a ler em comunidade este relatório, fruto do processo sinodal que se iniciou em 2021. Ao lê-lo, procuramos conversá-lo, torná-lo próximo, perceber como é que este sopro de sinodalidade, que se propõe religar toda a extensão da realidade eclesial, nos toca a nós na nossa “conversão pessoal e comunitária”.
“O amor com que atua (…) [é] a justiça do Reino que muda a história”. Que queremos dizer quando dizemos justiça? Se ligarmos a televisão num canal que faz do crime o motor das audiências, provavelmente vamos obter uma resposta. Se perguntarmos a políticos e legisladores, outras respostas. E o que pensam os cristãos?
Quando a lei penal é aplicada a um crime com gravidade estabelece-se uma pena de prisão, a pessoa que cometeu o crime é privada de liberdade e tem de cumprir pena num estabelecimento prisional. Após este momento, instala-se uma dicotomia muito rápida entre “eles” (e “elas”) e nós, do lado de lá os “maus”, do lado de cá os “bons”, sendo que estes pouco ou nada mais pensam sobre o assunto, como se o que por lá se passasse deixasse de ser nossa responsabilidade coletiva.
No entanto, como cristãos, não temos grande opção, pois “a unidade entre a verdade e o amor implica que nos encarreguemos das dificuldades do outro até as fazermos nossas, como acontece entre verdadeiros irmãos e irmãs.” Como cidadãos responsáveis, certamente também.
Para melhor pensarmos como a justiça acontece em situações de reclusão, vamos acolher, no próximo domingo, dia 30 de junho, às 16h, uma mesa-redonda com pessoas que têm feito da justiça uma prática.
Além de membros da comunidade com experiência profissional e pastoral no universo da justiça e da vida dentro das cadeias, estarão também presentes Manuel Hipólito Almeida dos Santos, presidente da Obra Vicentina de Auxílio aos Reclusos (OVAR), uma obra com mais de 50 anos de atividade em Portugal no âmbito do acompanhamento de reclusos, e Isabel Leal, professora no Estabelecimento Prisional do Porto e promotora do projeto Livre Trânsito, tendo também integrado, juntamente com a comunidade do Estabelecimento Prisional do Porto, o espetáculo “ELO”, promovido pelo Coliseu do Porto e pela Irmandade dos Clérigos.
A conversa acontece no espaço Porta (Rua da Firmeza 163, Porto), estando todos convidados a participar.
Sara Leão é mediadora educativa e formadora de Português Língua Estrangeira.








