
“O fundador da Comunidade de Bose convida os cristãos a dialogar com as diferentes religiões e a considerar os laicos como parceiros de primeira linha na construção futura de um mundo mais humano.” Foto © Site Mosteiro de Bose
O título deste texto é tirado de um poema de John Donne, um autor inglês do século XVII que, como todos os bons poetas, se mantém plenamente actual e interpelante. Ernest Hemingway construiu a partir dele um romance belíssimo sobre a Guerra de Espanha e a solidariedade que provocou entre os combatentes antifranquistas.[1]
Reencontrei esta citação num pequeno volume de Enzo Bianchi, Para Uma Ética Partilhada, um dos muitos livros que engrossava o monte de obras reservadas para ler num futuro próximo. Ao olhar a data da sua publicação em Portugal verifiquei que esperara mais de dez anos até chegar a sua vez.[2] Mas como acontece com todos os bons livros, a actualidade mantém-se e a mensagem continua a desafiar-nos. Constatamo-lo na questão que serve de título ao primeiro capítulo – “Será ainda possível um confronto na afabilidade?” Trata-se de uma interrogação inicial que, no entanto, atravessa toda a obra.
Nela, o fundador da Comunidade de Bose convida os cristãos a dialogar com as diferentes religiões e a considerar os laicos como parceiros de primeira linha na construção futura de um mundo mais humano. E, de igual modo, desafia a Igreja Católica a encontrar uma linguagem susceptível de ser escutada pelos não crentes. Para Bianchi é essencial a aceitação do estrangeiro como condição constitutiva do ser humano, reconhecendo a presença de sementes de verdade em diferentes religiões. Ao lembrar Paulo VI, constata a multiplicidade de opções políticas pois “nenhum partido pode dizer que é o único depositário da mensagem cristã” (p. 37). O propósito da Igreja não é transmitir uma série de convicções, mas fazer que em cada época experimentemos a vida plena que Deus pensou para a humanidade.
Extrapolando a mensagem do livro para o período que presentemente vivemos, lembro a necessidade de escuta e o desejo de compreender o diferente. Bianchi sublinha o papel determinante da religião para a unidade integradora de cada cultura e desafia-nos a sermos abertos aos que pensam diferentemente de nós. Retomo a questão inicial sobre a vivência de um confronto mantendo-nos afáveis. Mas interrogo-me sobre o limite que não podemos nem devemos franquear. Revejo constantemente as imagens terríficas da invasão dos talibãs e da fuga desesperada de família inteiras invadindo o aeroporto de Cabul, chegando ao ponto de entregar os próprios filhos a quem os pudesse salvar do invasor.
Enzo Bianchi fala-nos da necessidade de aceitarmos o diferente e de revermos os nossos comportamentos para com o estrangeiro, o outro e o diferente. Mas também nos lembra que o cristianismo exige um respeito absoluto pela dignidade a que cada um tem direito. Enquanto defensora da diferença admito a variedade das culturas e respeito a diversidade dos conceitos éticos que defendem. A Igreja exige que habitemos o mundo com um espírito aberto, sem preconceitos e sem inimizades. Mas não nos impede de lutar contra o mal e contra aqueles que o praticam. Por muito que devamos aceitar a diferença, há situações que põem em causa a dignidade humana, nomeadamente aquelas em que as mulheres são meros objectos descartáveis, obrigadas a ocultar o corpo como possível objecto de tentação e desprovidas dos direitos mínimos que conferem dignidade ao ser humano. É nesta altura que urge despertar de uma falsa tolerância, unindo forças com todos os defensores da dignidade humana e apelando à indignação contra este atentado às mulheres afegãs, que nada mais é do que um atentado a toda a humanidade.
Mais do que nunca há que escutar os sinos, pois presentemente eles tocam para todos(a)s nós, apelando à defesa dos valores que constituem o nosso património comum.
Nota: Reproduzo o poema tal como foi escrito em inglês antigo. Traduzi-lo seria um atentado à sua beleza.
No man is an island entire of itself; every man
is a piece of the continent, a part of the main;
if a clod be washed away by the sea, Europe
is the less, as well as if a promontory were, as
well as any manner of thy friends or of thine
own were; any man’s death diminishes me,
because I am involved in mankind.
And therefore never send to know for whom
the bell tolls; it tolls for thee.
John Donne, Meditation XVII, in Devotions upon Emergent Occasions
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa
[1] Ernest Hemingway, For Whom the Bell Tolls, New York: Charles Scribner’s Sons, 1940 (Título em português: Por Quem os Sinos Dobram).
[2] Enzo Bianchi, Para uma Ética Partilhada, trad. de Artur Morão, Lisboa, Pedra Angular, 2009.










