AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Catedral de Alexandre Nevsky, em Tallinn, Estónia. Foto Kadi-Liis Kopel Visit Tallinn
Catedral de Alexandre Nevsky, em Tallinn, Estónia. Foto © Kadi-Liis Kopel Visit Tallinn

Parlamento da Estónia obriga Igreja Ortodoxa a romper com Moscovo

| 11/04/2025

O Parlamento da Estónia (Riigikogu) aprovou esta quarta-feira, 9 de abril, por esmagadora maioria, um projeto de lei que visa forçar a rutura dos laços entre a Igreja Ortodoxa Cristã Estoniana (IOCE) e o Patriarcado de Moscovo, invocando a necessidade de velar pela segurança nacional, no contexto das atuais tensões geopolíticas.

O projeto de lei, apresentado como “prevenção da instrumentalização de organizações religiosas para incitar ódio ou violência”, conta com o apoio do Governo estoniano e foi votado já em terceira leitura, contando com 60 votos a favor e 13 contra.

A nova lei obriga os dirigentes da IOCE a cortar os laços de natureza canónica (direito religioso) quer com o Patriarca de Moscovo quer com o Sínodo da Igreja Ortodoxa Russa, no período de seis meses após a publicação.

Os membros da Igreja afetada, entre bispos, monges e leigos, que se assume andarem na casa dos 250 mil, estão logicamente muito preocupados e, segundo o site que é fonte desta informação – o OrthodoxTimes – entendem que o Estado  os “submete à discriminação (…), privando-os da liberdade de religião”.

E é também contra a “discriminação de 250 mil cidadãos da Estónia” e do “ataque à liberdade religiosa” que se insurge o Patriarcado de Moscovo da Igreja Ortodoxa Russa (IOR), num comunicado difundido logo no dia seguinte à aprovação da nova lei. Aquela Igreja também contestou vigorosamente o argumento de que “o vínculo entre os cristãos ortodoxos na Estónia e o Patriarcado de Moscovo representa uma ameaça à segurança do Estado estoniano, à ordem constitucional e pública no país”.

O comunicado da IOR apela ainda à comunidade internacional a que “condene os factos de violência contra a consciência dos cristãos ortodoxos e a interferência ilegal das autoridades estonianas nos assuntos internos da Igreja Ortodoxa Cristã Estoniana”.

É importante sublinhar que esta Igreja disputa há muito tempo o espaço da ortodoxia com a Igreja Ortodoxa da Estónia (IOE), ligada desde 1923 ao Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, um vínculo que só não existiu durante os períodos em que a Rússia ocupou e incorporou a Estónia.

Sobre a lei aprovada esta semana, a IOE sublinha que ela “não exige uma mudança na tradição de culto, muito menos uma ‘conversão de fé’, como alguns críticos sugeriram”. “O objetivo principal da emenda – acrescenta – é impedir a influência de Estados hostis ou organizações extremistas por meio de entidades religiosas, fortalecendo assim a segurança” do país.

O seu metropolita Stephanos é citado como tendo oferecido à Igreja Ortodoxa Cristã Estoniana a “possibilidade de um vicariato, caso rompesse a sua relação de subordinação com Moscovo”, o que significaria uma unidade eclesiástica independente, com o seu bispo sénior reconhecendo o metropolita da IOE.  A alternativa seria, segundo o OrthodoxTimes, um vicariato que manteria as suas próprias tradições, usaria o eslavo eclesiástico e administraria sua vida interna de forma independente.

Uma voz que se fez ouvir na região foi a do arcebispo que lidera a Igreja Ortodoxa da Finlândia, que considerou que a Igreja sob o Patriarcado de Moscovo na Estónia representa os “últimos remanescentes da era da ocupação soviética num país que construiu a sua identidade como nação livre”.

Por isso, este hierarca assume o seu apoio à Igreja Ortodoxa da Estónia, sob o Patriarcado Ecuménico, considerando-a “a legítima herdeira da tradição ortodoxa indígena da Estónia”, que “representa a autêntica continuidade canónica na paisagem espiritual da Estónia e oferece um lar para todos os cristãos ortodoxos, independentemente de suas origens étnicas”.

Para situar o contexto desta problemática, convém referir que a sociedade estoniana é maioritariamente ateia, agnóstica ou indiferente, pelo menos desligada de confissões religiosas, ainda que com uma forte tradição de um secularismo de convivência pacífica entre grupos e correntes.

Segundo uma leitura da investigadora Irina Paert, o distanciamento dos cidadãos face à Igreja Luterana e às igrejas ortodoxas, as dominantes no país, tem-se acentuado – no primeiro caso, pelos compromissos com o poder político, e no segundo pelas crises e conflitos internos vividos sobretudo desde o início dos anos 90 do século XX. O país surge em vários estudos como um dos que apresenta o menor número de fieis entre os países da Europa central e oriental.

O 7MARGENS vive exclusivamente do apoio dos leitores.
Faça um donativo: https://setemargens.com/apoiar
Inscreva-se para receber a nossa newsletter gratuita: https://setemargens.com/assinar
Partilhe os nossos textos na sua página de Facebook, Instagram ou Twitter.
Escreva-nos: setemargens@setemargens.com

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado

Diocese de Portalegre – Castelo Branco

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado novidade

No fim do processo, “nem um centímetro” da Diocese de Portalegre – Castelo Branco deve “ficar sem ser coberto por um conselho pastoral paroquial” (ou interparoquial se necessário e conveniente). Foi o desafio do bispo Pedro Fernandes à diocese de que assumiu a tarefa de pastor ainda não há um ano. Esta é talvez a melhor síntese do que foi a “Assembleia Diocesana”, no dia 6 de outubro, em Ponte de Sor, a que várias centenas de pessoas responderam participando de um modo ativo.

Guerras e mudanças de regime

[Entre Margens]

Guerras e mudanças de regime novidade

Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.