[Nas margens da filosofia – LV]

Pascal e as razões do coração

| 24 Jun 2023

PASCAL

“Na sua obra Pensamentos, este filósofo surpreende-nos quando nos fala da fragilidade da razão considerando que a imaginação é a parte dominante do nosso ser.”  Blaise Pascal (1623-1662) foi matemático, escritor, físico, inventor, filósofo e teólogo católico francês.

 

 

Em boa hora o 7MARGENS deu o relevo merecido à carta apostólica recentemente publicada pelo Papa Francisco sobre Blaise Pascal. E ao mesmo tempo proporcionou-nos a leitura da intervenção do cardeal José Tolentino Mendonça relativa à mesma ocorrência, um texto onde se relevam as diferentes manifestações do pensamento e da acção deste pensador seiscentista, em campos tão ricos como a religião, a mística, a ciência e a filosofia, não esquecendo a sua compaixão pelos pobres e os doentes.

Associando-me a esta homenagem a um dos espíritos mais versáteis do panorama cultural europeu, lembro um dos aspectos que nele me atraiu e que nunca deixei de apresentar nas aulas que leccionei de Filosofia Moderna – a relação possível entre razão e afectos, sintetizada no aforismo “O coração tem as suas razões que a razão desconhece.”[1] De facto Pascal foi um dos filósofos que melhor representou a orientação dominante nos programas que leccionei na FLUL e que pretendiam abordar os pensadores dos séculos XVI a XVIII no diálogo por eles estabelecido entre razão e paixão. E inegavelmente que esta dialéctica atravessou quer a vida quer a obra do autor dos Pensamentos.

Contrariamente à tendência dominante na sua época em que as mais das vezes se fala de um método, Pascal postula a diversidade de métodos aplicados em função da realidade que pretendemos estudar. E embora tenha sido um eminente cientista, nomeadamente no que se refere à física e à matemática, tal facto não o impediu de combater a hegemonia da mesma, considerando que o real acolhe zonas diferenciadas, irredutíveis a uma abordagem geométrica – é o caso dos seres vivos, e, particularmente, do homem. Pascal é por isso responsável por uma epistemologia da crença, admitindo que os próprios princípios geométricos podem ser intuídos, sentidos e alcançados através do coração. Para ele, a razão não tem suficiente força para nos livrar do pecado e da tentação permanente das paixões.

Na sua obra Pensamentos, este filósofo surpreende-nos quando nos fala da fragilidade da razão considerando que a imaginação é a parte dominante do nosso ser. Na sua perspectiva não há um modelo único de explicação do real. Enquanto homem do seu tempo no qual dominavam o triunfalismo geométrico e a procura de um método seguro para explicar a realidade e agir sobre ela, o filósofo é uma voz discordante, propondo diferentes métodos e não exclusivamente um único. Assim, ele surge como paradigma do filósofo que sente na carne as insuficiências da razão. Talvez por isso o seu pensamento não se apresente como um sistema acabado. Mais do que um sistema, a sua obra representa uma atitude, mais do que uma doutrina ela fala-nos de uma atmosfera, de uma maneira de estar no mundo. O seu descontentamento relativamente ao conhecimento claro e distinto do real que nos propõe Descartes, deve-se a que Pascal teve consciência das insuficiências da razão. Enquanto cientista, acredita nela mas enquanto homem e crente, aceita as suas limitações, o que o levou a escrever “O último passo da razão resulta em reconhecer que há uma infinidade de coisas que a excedem; ela é fraca se não vai até ao ponto de reconhecer isso. E se as coisas naturais a excedem, que se dirá então das sobrenaturais?”[2]. De onde concluímos que é a própria razão que se nega como critério autosuficiente.

Enquanto cientista, Pascal compreendeu bem a coerência interna e os aspectos positivos quer do racionalismo quer do empirismo. Mas igualmente se apercebeu das suas insuficiências, apontando para processos não puramente racionais, em nome de outra escala de valores na qual se integram a moral e a religião. Daí a sua valorização dos factos individuais e daquilo a que chama o espírito de finura (“esprit de finesse“) essencial para os compreender. Por isso defendeu que sentimos Deus pelo coração e não pela razão. Deus é uma vivência e é absurdo prová-lo pois ele é destituído de extensão: “Conhecemos pois a existência e a natureza do finito, porque somos finitos e temos uma extensão como ele. Conhecemos a existência do infinito e ignoramos a sua natureza, porque ele tem extensão como nós, mas não limites como nós. Mas não conhecemos nem a existência nem a natureza de Deus, porque ele não tem extensão nem limites.”[3]

Enquanto cultor que foi da geometria, Pascal não deixou no entanto de proclamar as suas insuficiências, considerando que a racionalidade que lhe é inerente não basta para a captação do real. A realidade também nos é acessível através de uma outra categoria essencial que é o sentimento. Este é algo de extremamente delicado e, como tal, indizível, pois é da ordem do coração. Há domínios do real perfeitamente adversos a um tratamento geométrico e os cientistas cobrem-se de ridículo quando pretendem que tudo é susceptível de ter explicação através do método geométrico. Os primeiros princípios não se demonstram e temos de aceitar os diversos modos de apropriação do real. A abordagem pelo sentimento é imediata, a abordagem pelo raciocínio é mediata. O homem é um ser paradoxal, dilacerado entre estas diferentes capacidades que o obrigam a reconhecer que a verdade se coloca para além das leis, das normas, das regras e dos dados objectivos.

Tendo sido um grande matemático e cientista, Pascal aceitou o valor dos factos individuais, não integráveis em regras e leis – estas constituem um primeiro estádio de compreensão do real e, no que respeita o destino do homem, são um mero passatempo. A atitude pascaliana relativamente ao uso da experiência científica – que aliás cultivou com todo o rigor – é a de um certo distanciamento. O mesmo podendo dizer-se no que respeita à filosofia, relativamente à qual escreveu: “Troçar da filosofia é verdadeiramente filosofar.”[4]

 

[1]Pascal Pensamentos frag. 277, pg. 121. (Usamos como referência a tradução portuguesa de Américo de Carvalho, prefaciada pelo Padre Manuel Antunes, Lisboa, Europa América, 1978).
[2] Ob. cit, frag. 267, pg. 119.
[3] Ob. cit, frag.233, pg. 103.
[4] Ob. cit,frag. 4, pg. 14. (Aqui alterámos a tradução de Américo de Carvalho, na qual “Se moquer de la Philosophie” aparece como “Não nos preocuparmos com a filosofia” o que nos parece contradizer o que o filósofo pretende).

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática (aposentada) de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa.

 

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