[Páscoa a Oriente] O ícone da Ressurreição na Igreja Ortodoxa

| 30 Abr 21

Por causa da diferença de calendário, os cristãos ortodoxos celebram neste fim-de-semana a Páscoa cristã. A esse propósito, o 7MARGENS convidou Alberto Teixeira a escrever sobre o ícone da Ressurreição na tradição do cristianismo oriental.

 

Ressurreição. Mosaico, séc. XIII. Basílica de São Marcos, Veneza (Itália).

 

A utilização de imagens para representar personagens e acontecimentos do cristianismo remonta seguramente ao século II; no século seguinte, Eusébio (263-339) referia que no passado já existiam imagens de Cristo e dos Apóstolos [i] em pedras na entrada das portas ou pintadas (“que as imagens dos Apóstolos Pedro e Paulo e do Cristo, ele mesmo, foram conservadas, por meio das cores, em tábuas: é natural, porque os antigos tinham o costume de os honrar desta maneira sem razão oculta como salvadores conforme o uso pagão que existia entre eles”); e há uma tradição que refere como autor do primeiro ícone o evangelista Lucas ou o padre Lucas, do Alto Egipto.

A sua utilização como instrumento teológico estruturado foi formalmente apoiada por Basílio o Grande (de Cesareia) no século IV (330-379) [ii], ao considerar que as orações a ícones eram permitidas enquanto dirigidas a figuras retratadas neles – “A honra prestada à imagem passa para aquele que a imagem representa”. Esta declaração de apoio de um dos mais reputados teólogos da época revela não só que nessa altura já seria uma prática usada no interior das igrejas, mas que também existiria um movimento de rejeição que se consolidou entre os séculos VIII e XII, denominado iconoclasta.

Incorporar ícones no muro de separação entre a nave e o santuário – que por essa razão passou a denominar-se iconóstase – bem como no restante interior dos locais de oração, tornou-se uma prática frequente a Oriente e Ocidente.

O 7º Concílio Ecuménico, realizado em Niceia em 787, confirmou a veneração e não adoração dos ícones [iii], recorrendo aos ensinamentos de Basílio. Considera-se este um marco temporal para a fixação do dogma da fé cristã e ortodoxa, em que o ícone não é um elemento decorativo, ou simples ilustração das Escrituras, mas faz parte da liturgia, transmitindo um significado vital como teologia representativa que expressa uma verdade comum na Igreja, sem espaço para inspiração individual.

No entanto, como diz Leonid Ouspensky (1902-1987) [iv]: “não podemos aceitar que uma imagem, mesmo que antiga e bonita é uma autoridade infalível, sobretudo se foi originada numa época decadente.”

Numa altura em que várias igrejas cristãs orientais celebram a Ressurreição do Senhor, é oportuno falarmos sobre um dos mais queridos ícones, sobre cuja escrita existe alguma polémica.

Sobre este assunto, Nicodemos o Atonita (1749-1809), no Prolegómenos com notas à Acta 7 do 7º Concílio [v], diz:

“Os pintores devem ter muito cuidado em familiarizar-se primeiro com o que a Bíblia e o Evangelho dizem e, então, pintar os seus ícones de acordo.

Eles devem pintar a Ressurreição de Cristo, sem sair do sepulcro de Cristo, com os soldados em pé ao redor do túmulo observando e o Anjo sentado na rocha, assim como o Evangelho diz.

Mas pintando Cristo, por um lado, como descendo ao Hades, enquanto Adão e Eva estão a ser seguros por Suas mãos e, por outro lado, os portões e fechaduras do Hades [vi] jazendo em pedaços; e com muitos demónios sombrios a espreitarem, e todos os antepassados e profetas – coisas que não constituem uma imagem da Ressurreição, mas uma imagem da descida do Senhor ao Hades.

A ressurreição e a descida ao Hades são coisas muito diferentes.

Pois na descida ao Hades, a alma do Salvador foi separada de Seu corpo, e foi apenas a Sua alma que desceu ao Hades, enquanto Seu corpo jazia morto na tumba. Na Ressurreição, por outro lado, a Sua alma tornou-se novamente unida ao Seu corpo e isso é a própria Ressurreição.

Essas e outras impropriedades semelhantes são aquelas que os pintores de ícones estão propensos a cometer por ignorância e por mau uso e costume. Por conseguinte, que estes homens se esforcem por retificá-los, esforçando-se ainda mais por se tornarem competentes e bons artistas e pintores, para que os ícones que pintam se assemelhem aos originais, como prescreve este Conselho, e não sejam algo bizarro e diferente.”

O padre Paul Edvokimov (1901-1970) tinha uma diferente visão sobre este ícone da Ressurreição: “A Ressurreição de Nosso Senhor é inquestionavelmente ‘supramundana’, como sendo ‘acima de toda a compreensão e conhecimento’, podemos da mesma forma caracterizar como ‘supramundana’ a ‘co-ressurreição’ [συν-ανάστασις], isto é, a ‘redenção universal’ da raça humana, que se realizou por meio da Ressurreição de Nosso Salvador, o Deus-Homem. No entanto, como um evento universal, cósmico e supramundano, não pode ser circunscrito e capturado fotograficamente num instante temporal definido” [vii].

Os tratados e teses sobre este assunto são imensos, mas recordo um dos mais antigos, escrito por João Damasceno (675-749) [viii], que disse: O ícone da Ressurreição mostrava a alegria do mundo e como Cristo esmaga o Hades e ressuscita Adão.

O domínio otomano de quatro séculos, sobre a Grécia, também deixou marcas profundas nos ascetas e teólogos da Montanha Sagrada (monte Athos): ainda que não se desviando da ortodoxia, foram influenciados pela vontade dos dominadores, como mostra a opinião de Nicodemus, que recusa a associação intemporal da Ressurreição de Cristo e da sua descida ao Hades, com proposta de ícone a pender para a ilustração de um momento da verdade temporal evangélica.

Já Damasceno, muito mais próximo da emergência da iconografia cristã, em plena discussão sobre o seu papel e importância teológica, parece ter conhecido apenas o ícone a que se refere e que integra os dois momentos na perspectiva de Edvokimov acima referida, que exalta a verdade dogmática para além do acontecimento histórico.

À esquerda: Youssef al-Musawwer, Ícone da Anastasis (Descida aos Infernos), 1645, Col. Abou Adal. À direita: El Greco, Ressurreição (Museu do Prado, Madrid, Espanha).

 

Para melhor percebermos o ícone da ressurreição, expõem-se alguns ícones escolhidos para ilustrar o que foi dito e a seguinte interpretação de alguns elementos:

Cristo é representado em sofrimento por todos nós, através da cruz que segura, das chagas que exibe, da tumba humana; pelo esmagar do Hades[ix] – que está sob os seus pés, mas não o rodeia – quebrando as suas portas e todos os sofrimentos lá expressos, nomeadamente as correntes quebradas que uniam as pessoas e a salvação de Adão, como sendo o poder redentor de Deus sobre os justos e tudo o que existe, visível e invisível.

Rodeado pela tumba vazia, as vestes de Cristo são magníficas e celestes, mostrando pontas elevando-se ao céu, com algumas figuras bíblicas que esperam pacientemente a sua redenção pelo Messias

Cristo saiu fisicamente do túmulo e a sua alma saiu de entre os mortos num acontecimento universal cósmico e majestoso abolindo a morte.

Cito Serge Boulgakov [x]: “A necessidade de ter um ícone connosco e diante de nós provém do carácter concreto de um sentimento religioso que não se satisfaz com pura contemplação espiritual, mas que procura uma proximidade imediata, tangível, porque é natural no ser humano composto de uma alma e de um corpo.”

Ícone da Ressurreição. Mosteiro de São Lucas, Lebadeia, séc. XI.

 

Notas
[i] Eusébe de Césarée, Histoire Ecclesiastique, Culture & Foi, cap. XVIII
[ii] Saint Basile le Grand, Traité sur L’Esprit Saint, 18,45, Homilia 17 – Panegírica a Santo Barlaam (EOC.ee)
[iii] Actas do 7º Concílio Ecuménico, II de Niceia, (4ª a 6ª sessões) – (EOC.ee)
[iv] Léonid Ouspensky, La Theologie de L’Icon, CERF, 2003.

[v] Os Ícones são escritos e não pintados no sentido de obra de arte produto da criatividade do artista, mas uma transcrição por imagem, de um acontecimento bíblico, ensinamento teológico e/ou, personagem.
[v] Nicodemus Athonite, The Rudder, Orthodox Christian Educational Society, pag. 422, 1957
[vi] Hades: Mundo inferior, repleto de tormentos – Actos 2:27-31
[vii] Paul Evdokimov, L’Art de L’Icone, Desclée, 2017
[viii] Saint-Jean Damascéne, Exposition Exacte de La Foi Orthodoxe, Foi-Orthodoxe.fr, Paris 1966
[ix] Salmos 16:8-11, Eclesiastes 12:7, Mateus 11:23; 16:18; Lucas 10:15; 16:23; Atos 2:27:31
[x] P. Serge Boulgakov, L’Orthodoxie, L’Age D’Homme, 1980, cap. XI.

 

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