Manifestações e conflitos

Páscoa agitada por terras gaulesas

| 9 Abr 2023

Conflitos sociais graves em França. O Panthéon, em Paris, circundado de sacos de lixo. Foto © Tony Neves

Conflitos sociais graves em França. O Panthéon, em Paris, circundado de sacos de lixo. Foto © Tony Neves

 

Encontrei um país a ferro e fogo e, um mês depois – na hora de partir – deixei-o ainda a fumegar mais. A França voltou à rua para contestar a mudança da idade da reforma: era de 62 anos. As greves sucedem-se com implicações graves no que diz respeito ao amontoar do lixo e ao não funcionamento regular dos transportes. Os sucessivos bloqueios e cortes de estradas e vias-férreas colaboraram muito para esta paralisia do país gaulês. Além do mais, preparam-se os Jogos Olímpicos, também eles rodeados de polémicas por causa das consequências da guerra na Ucrânia e a consequente exclusão da Rússia e Bielorrússia.

Paris foi o meu ponto de chegada e de partida. Visitei Notre Dame e a Torre Eiffel depois de chegar, numa altura de forte contestação social, em que a recolha do lixo não se fazia há dias! O céu estava cinzento, o frio penetrava nos ossos, o cheiro era insuportável e, ao fim de duas horas de caminhada, decidi regressar a casa! Voltei a percorrer os mesmos caminhos três semanas mais tarde: o céu estava azul, não havia lixo, visitei novamente Notre Dame e a Torre Eiffel, mas atravessei o Jardim do Luxemburgo, fui à Casa Geral das irmãs Espiritanas e até à Universidade onde estudei. Porém, o tempo de convulsões não tinha acabado: o país ainda vive naquilo que oficialmente é chamado ‘Movimento Social Nacional Interprofissional’.

 

Catedral de Notre Dame, em Paris, na fase de conclusão das obras, após incêndio de abril 2023. Foto © Tony Neves

Catedral de Notre Dame, em Paris, na fase de conclusão das obras, após incêndio de abril 2019. Foto © Tony Neves

 

Feito este enquadramento, vou focar-me no essencial do que me levou a terras de França e partilhar a rica experiência que aqui vivi.

 

A França Espiritana e o operário morto pelos nazis

 

Beato Marcel Callo, patrono da Jornada Mundial da Juventude de Lisboa 2023.

Beato Marcel Callo, patrono da Jornada Mundial da Juventude de Lisboa 2023. Imagem retirada do site do Patriarcado de Lisboa

 

Os Espiritanos foram fundados em Paris, no dia de Pentecostes de 1703, por um jovem bretão, Cláudio Poullart des Places. Seriam refundados em 1848 – novamente em Paris – por Francisco Libermann, um judeu nascido na Alsácia. Se o primeiro fundador queria dedicar-se à formação de padres simples e sóbrios para o serviço das aldeias de França, Libermann apostava na libertação e evangelização dos povos negros escravizados nas colónias. Porque a dupla fundação é de origem francesa, este país continua a ser grande para a Congregação: cerca de 250 membros professos e numerosos leigos associados e membros de fraternidades, que partilham a espiritualidade e a missão desta família religiosa.

Comecei a visita por Paris pela Casa de Formação onde quatro jovens (de outros tantos países) completam estudos de Teologia. Continuei na mesma onda e fui de TGV até Lille para encontrar outros cinco jovens que estudam a língua para fazer estudos em França. De lá, rumei a Rennes, terra natal do fundador, onde há um Centro de Espiritualidade e uma paróquia numa das periferias mais complicadas da cidade onde, após a minha passagem, uma rixa entre traficantes de droga gerou mortes e muito caos.

O centro histórico de Rennes remonta a tempos muito antigos e é monumental. Marcou-me muito a ‘peregrinação’ dos passos do meu fundador (ali nascido em 1679) e a exposição sobre Marcel Callo, que ocupa boa parte da grande igreja da praça de Santa Ana. Este jovem operário bretão foi um activista da Ação Católica. Levado pelas tropas nazis de Rennes para a Alemanha, seria morto no campo de extermínio de Mauthausen, em 1945. A razão da sua morte foi o “ser excessivamente católico”. Tinha 23 anos. Nascido em Rennes, é uma das figuras maiores desta cidade e foi proposto como um dos patronos da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) de Lisboa.

 

A histórica Abadia de Langonnet

 

Claustro da Abadia de Langonnet, na Bretanha, fundada pelos Cistercienses em 1136. Os Espiritanos estão lá desde 1857. Foto © Tony Neves

Claustro da Abadia de Langonnet, na Bretanha, fundada pelos Cistercienses em 1136. Os Espiritanos estão lá desde 1857. Foto © Tony Neves

 

Complicada foi a viagem, de carro, entre Rennes e a Abadia de Langonnet, pois fiquei retido num dos bloqueios de estrada por causa da nova lei da idade das reformas. Foram duas horas de espera até nos deixarem passar.

Langonnet é um espaço paradisíaco. No coração da Bretanha, a 40 kms da cidade mais próxima (Lorient), ali viu nascer, em 1136, uma abadia cisterciense. As muitas confusões da história de França fizeram com que os monges saíssem definitivamente em 1790. Ocupada por militares e outras gentes, seria quase destruída. Em 1857, a abadia regressaria à sua missão inicial com a chegada dos espiritanos que ali se mantêm até aos dias de hoje.

Milhares de jovens e menos jovens por ali foram passando, estando agora 25 anciãos, todos com ricas e longas experiências de missão. Ao todo – fiz a soma – estão mais de dois mil anos de vida dentro das velhas e grossas paredes da Abadia. Devo confessar que foram dois os lugares que mais me marcaram: a antiga e majestosa Sala do Capítulo (hoje, a Capela onde se fazem todas as celebrações) e o cemitério, que tem cerca de 800 espiritanos ali sepultados!

 

De Nantes às periferias de Paris
Benção de Ramos, na Paróquia de St Yves, nas periferias de Nantes. Foto © Tony Neves

Benção de Ramos, na Paróquia de St Yves, nas periferias de Nantes. Foto © Tony Neves

 

Nantes seria a comunidade que se seguiu na minha peregrinação espiritana. Nas periferias pobres da cidade, num contexto muito multi-étnico, os espiritanos animam a Paróquia de St Yves, com duas comunidades: St Michel e St Etienne. Tive a oportunidade de participar nas duas celebrações da Missa de Ramos, onde a presença de povo foi enorme e muito viva, com rostos europeus, africanos e asiáticos a mostrar o rosto plural destas comunidades que enchem as periferias de Nantes. Regressei a Paris no início da Semana Santa.

O ritmo destes dias foi marcado pelo Encontro Europeu de Estudantes Espiritanos, que congregou em Paris 22 jovens e formadores, originários de 15 países diferentes, da Europa, África, Ásia e América. A vivência do Tríduo Pascal foi muito plural: uma Quinta-Feira Santa muito animada, na Paróquia de Blanc-Mesnil, na periferia multi-étnica da capital; a Paixão foi celebrada nas Igrejas de Saint Jacques e Saint Etienne du Mont (uma Igreja enorme, repleta, com muitos jovens), aqui no coração do centro histórico de Paris; a Vigília Pascal foi noutra das paróquias de periferia, Fontenay aux Roses; a missa do Domingo de Páscoa foi na casa-mãe dos espiritanos, no centro de Paris, lá onde viveu, morreu e está sepultado o padre Francisco Libermann, fundador da Sociedade do Imaculado de Coração de Maria, que  se fundiria com a Congregação do Espírito Santo em 1848, há precisamente 175 anos!

 

Todos a caminho de Lisboa

 

Anúncio da JMJ Lisboa na Catedral de Rennes-Abr 2023. Foto © Tony Neves

Anúncio da JMJ Lisboa na Catedral de Rennes-Abr 2023. Foto © Tony Neves

 

Outro destaque desta minha viagem por terras de França prende-se com a muita publicidade às JMJ, com criatividade, uma vez que o famoso ‘eléctrico’ de Lisboa consta em todos os cartazes que fui encontrando. São diferentes, mudando de diocese para diocese.

Encontrei numerosos jovens com vontade de participar, mas percebi que o factor económico impedirá muitos de rumar a Lisboa. A França é um país com um nível salarial muito superior a Portugal, mas eu andei sempre pelas periferias, seja de Paris, Lille, Rennes ou Nantes. Lá habitam populações mais pobres, com enormes dificuldades financeiras, o que constitui obstáculo à participação em iniciativas como as JMJ. De qualquer modo, com muito esforço e engenho, há grupos de jovens que lutam para estar em Lisboa, inventando iniciativas que mobilizam as comunidades e permitem juntar fundos. Tanto esforço merece ser coroado de êxito. Disse a alguns, à despedida: ‘Até Lisboa!’.

 

Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como assistente geral dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), congregação de que é membro.

 

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