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Combonianos, Pedro Pablo Hernández

[Crónica]

Páscoa em Maio

| 01/05/2024

A maioria dos cristãos celebrou a Páscoa da Ressurreição do Senhor a 31 de março. A Comunhão Ortodoxa fá-la a 5 de maio. Calendários diferentes ditam datas diferentes.

Combonianos, Pedro Pablo Hernández

O padre mexicano dos Missionários Combonianos, Pedro Pablo Hernández: a necessidade de uma celebração comum da Páscoa foi já manifestada por vários líderes cristãos. Foto: Direitos reservados.

A regra para a celebração da Páscoa é simples e foi estabelecida há 1700 anos pelo Concílio de Niceia, em 325: a ressurreição do Senhor celebra-se no domingo depois da lua cheia do equinócio da Primavera.

Contudo, este ano, enquanto católicos e outros cristãos celebraram a Páscoa a 31 de março, os ortodoxos fazem-no a 5 de maio. Porquê? Enquanto católicos e protestantes celebram a Páscoa segundo a data do calendário gregoriano que se impôs como contador universal, a comunhão ortodoxa segue o vetusto calendário juliano, em vigor desde quase meio século antes de Cristo ter nascido, que foi substituído pelo gregoriano em 1582 para acertar as contas do ano solar.

Os dois calendários têm uma diferença de 13 dias no início do mês. Por isso, a data da Páscoa varia entre 22 de março e 25 de abril segundo as contas do calendário gregoriano e 4 de abril e 8 de maio segundo a contagem do juliano.

Podemos voltar a celebrar a Páscoa numa data comum? Os dois calendários coincidem de vez em quando. No próximo ano, a celebração das igrejas orientais e ocidentais faz-se no domingo, 20 de abril. O Relatório de Síntese da primeira sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que decorreu em outubro passado, evoca a coincidência: «Providencialmente, a data da solenidade da Páscoa coincidirá para todas as denominações cristãs [no ano em que se celebram os 1700 anos do Concílio de Niceia]. A Assembleia exprimiu um vivo desejo de conseguir encontrar uma data comum para a festa da Páscoa, de modo a poder celebrar no mesmo dia a ressurreição do Senhor, nossa vida e nossa salvação», lê-se nas propostas apresentadas para a unidade cristã.

O Patriarca Ortodoxo de Constantinopla também manifestou o desejo de os cristãos no Oriente e Ocidente celebrarem a Páscoa em «data unificada»: «É um escândalo celebrar separadamente o acontecimento único da única ressurreição do único Senhor», afirmou o Patriarca Bartolomeu na sua homilia de 31 de março, dia em que enviou delegados para saudarem as igrejas que celebraram a Páscoa do Senhor em Constantinopla.

A necessidade de uma celebração comum da Páscoa foi também manifestada pelo Papa Francisco em junho de 2015, quando afirmou aos participantes do retiro mundial para padres que «temos de chegar a um acordo» para uma data comum para a Páscoa.

 

Mesma data, celebrações diferentes

Etiópia, Páscoa

Celebração pascal na Etiópia: os católicos etíopes seguem dois ritos diferentes. Foto: Direitos reservados.

A Etiópia celebra as suas festas cristãs segundo o calendário juliano e a Igreja Católica também o segue nos seus dois ritos, Oriental e Romano.

A Igreja Católica foi restabelecida na Etiópia no século XIX sob dois ritos: o Oriental, no Norte (onde a população é predominantemente de origem semita e segue a Igreja Ortodoxa Etíope); e o Romano, no Sul (entre as etnias cuchitas mais protestantes e católicas). Foram protagonistas dessa dinamização dois grandes bispos missionários italianos: São Justino de Iacobis e o cardeal Guilherme Massaia, respetivamente.

As duas tradições católicas usam práticas litúrgicas diferentes. Os católicos do rito Oriental começam a Quaresma duas semanas antes dos do rito Romano, seguindo a tradição ortodoxa de uma Quaresma de 55 dias, celebrada em moldes próprios com jejum diário depois do jantar e até ao meio-dia ou às 15h00 do dia seguinte. Durante esse tempo, seguem uma dieta tipicamente vegana, abstendo-se de qualquer produto de origem animal: carne, leite, ovos… Os talhos ortodoxos encerram durante a Quaresma, mas os muçulmanos e outros permanecem abertos.

Os católicos de rito Latino fazem jejum na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa e abstêm-se de carne durante as sextas-feiras. Durante as celebrações da Quaresma, as palmas, teclados e tambores litúrgicos, flores e adornos, são guardados na sala de arrumos até à Páscoa.

Bênção do lume. Etiópia. Páscoa

Bênção do lume novo, segundo o rito católico latino: depois da celebração da festa litúrgica, a Páscoa é festejada também na família. Foto: Direitos reservados.

 

A celebração da Páscoa do Senhor é também diferente. A liturgia oriental é celebrada dentro de portas e não contempla o rito do lume novo nem a renovação das promessas batismais, que é feita na celebração do Timket, o Batismo/Epifania do Senhor, a 19 de janeiro. A vigília pascal começa às 19h00 e decorre pela noite dentro. As mulheres vestem predominantemente de branco (roupa nova ou lavada). Os homens cobrem-se com um manto branco.

Durante a celebração, a assembleia escuta onze leituras bíblicas (dez passagens das Escrituras Hebraicas e uma do Evangelho de João) mais dois textos dos Padres antigos. À meia-noite, é proclamado um canto tradicional que anuncia que o Senhor ressuscitou. A liturgia dura até perto da aurora, feita de muitos cânticos, orações, procissões à volta do altar, incenso e velas.

Depois da igreja, a Páscoa faz-se em casa com o quebrar do jejum da carne. Cada família, de acordo com o orçamento familiar, cozinha um cordeiro, um cabrito ou um frango. Bebidas alcoólicas tradicionais também fazem parte do menu pascal: tela (cerveja caseira) ou tej (uma bebida fermentada de mel com água).

Os ritos pascais romanos são iguais em todo o lado, vertidos para as línguas locais. A celebração começa depois do pôr do sol com a bênção do lume novo, fora do templo, e continua com a celebração da Palavra (que pode ter até sete leituras das Escrituras Judaicas e duas das Cristãs, incluindo a proclamação do Evangelho da Ressurreição; entre cada leitura é costume cantar-se um hino ou salmo).

Segue-se a liturgia batismal em que, por um lado, os fiéis renovam as promessas feitas no dia do batismo e, por outro, os catecúmenos, as pessoas que durante um ano ou mais se prepararam para serem admitidas na Igreja Católica, são batizadas. A mãe de todas as vigílias conclui com a liturgia eucarística. Tudo junto, leva entre três a quatro horas. Não há pressa!

A Páscoa é também altura para as pessoas, no Sul, renovarem o guarda-roupa, mas vestindo-se de cores diversas. Também comem uma refeição melhorada que normalmente inclui um prato de galinha cozida com alguns ovos numa calda espessa, bem condimentada e picante, acompanhada com injera, pão tradicional etíope feito com tef, um cereal miúdo autóctone, ao jeito de uma panqueca gigante. Os familiares visitam-se para se cumprimentarem e provam do almoço pascal.

 

José Vieira é padre católico e integra a congregação dos Missionários Combonianos. Trabalha entre os Gujis do Sul da Etiópia.

 

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