O teólogo ortodoxo francês Olivier Clément (1921-2009) foi um nome importante na teologia espiritual e ecuménica, trazendo para o Ocidente muitos dos místicos orientais e da Igreja Ortodoxa. Nascido numa família de tradição protestante, acabou por fazer uma busca filosófica no ateísmo, convertendo-se aos 30 anos, depois de, sob a influência de Nikolai Berdiaev e Vladimir Lossky, ter descoberto o pensamento dos Padres da Igreja, os teólogos dos primeiros séculos do cristianismo. Isso levou-o a decidir ser baptizado com 30 anos, escolhendo a paróquia de Santo Irineu em Paris, vinculada ao Patriarcado (ortodoxo) de Moscovo, em 1951.
Professor do Instituo São Sérgio, de Paris, publicou três dezenas de livros, nos quais cruzava a espiritualidade ortodoxa com as questões actuais. Um deles, Taizé, Um Sentido Para a Vida, está publicado em Portugal pela Paulus, e propõe precisamente a experiência de Taizé como “lugar de um prodigioso encontro em que se constrói a Europa do Espírito”. No texto a seguir reproduzido, Clément fala da Páscoa e do sentido da ressurreição. Neste fim-de-semana, a maior parte da Igreja Ortodoxa celebra a Páscoa, tendo em conta a diferença de calendários seguidos no Oriente europeu.

A ressurreição não significa a reanimação de um cadáver, um morto que volta à vida nas mesmas condições em que se encontrava antes de morrer. A ressurreição de Cristo subverte radicalmente essas condições. Certamente que o Ressuscitado é bem real, deixa-se tocar por Tomé, partilha a comida com os seus discípulos e no entanto é diferente «sob outra forma», diz o final de Marcos, de tal modo que Maria Madalena o toma por jardineiro e os peregrinos de Emaús por um viajante mal informado. Ele escapa ao espaço e ao tempo que separam, transforma-os em meios de encontro, em caminhos de comunhão.
Nele, o divino e o humano unem-se definitivamente, o humano encontra assim a sua realização e essa humanidade transfigurada, divinizada, penetra doravante, «trabalha» a partir de agora as profundezas da história, como se diz de uma mulher que está «em trabalho» – e é a Mulher ao mesmo tempo perseguida e «vestida de sol» de que fala o Apocalipse no seu décimo segundo capítulo. «Como o ferro ao entrar em contacto com o fogo assume a cor deste, assim também a carne [ou seja, a criação], depois de ter recebido em si o Verbo deificante, é libertada da corrupção. Assim [Cristo] revestiu a nossa carne para a libertar da morte» (Cirilo de Alexandria, Homilia sobre Lucas, V, 19).
Mas então, por que razão a ressurreição permanece secreta? Por respeito à nossa liberdade. O Ressuscitado não se impõe. Não se mostra aos poderosos deste mundo, revela-se apenas àqueles que O acolhem na fé e no amor. Não é a ressurreição que suscita a fé, é a fé que permite que a ressurreição se manifeste. Jesus chama-nos suavemente, tal como chamou Maria Madalena: só então «ela voltou-se», o seu coração voltou-se – reconheceu-O. E é no momento em que parte o pão, numa estalagem qualquer, que os peregrinos de Emaús o reconhecem – e que ele desaparece, agora presente na Eucaristia, no Espírito, nos «mistérios» da Igreja.
Na Igreja, de facto, a sua humanidade que é a nossa, a sua humanidade ao mesmo tempo crucificada e glorificada, torna-se para nós a fonte da Vida. E, certamente, a morte reina sempre e tudo nos lembra a sua presença: a separação, a tristeza, o desaparecimento daqueles que amamos, as tragédias tantas vezes atrozes da história, o ódio a nós próprios, aos outros. Mas todas estas situações, se as atravessarmos com confiança no Ressuscitado, se aceitarmos receber-nos dele, podem tornar-se caminhos de Ressurreição. Cristo ressuscitou, a morte espiritual foi vencida, a morte não passa de um véu rasgado pelo amor. Então, no fundo de nós, a angústia transforma-se em confiança, já não precisamos de escravos nem de inimigos.
Pensávamos que não havia saída, mas Ele está aqui, o nosso amigo, o nosso lugar – «vinde a mim, todos vós que estais sobrecarregados e cansados e eu vos darei descanso» – e a Sua presença é uma irradiação de luz. «Ontem eu estava sepultado contigo, ó Cristo», dizem as matinas pascais. Hoje eu desperto contigo, ó Ressuscitado.» Sim, acordamos como crianças, como convalescentes, na luz da Páscoa – e é a primeira manhã do mundo, uma amendoeira floresce entre as ruínas, Deus dá-nos de novo a vida, perdoa-nos. «Ninguém te condenou? – pergunta Jesus à mulher adúltera. «Nem eu te condeno. Vai e não peques mais.»
Olivier Clément, Christ est ressuscité, Propos sur les fêtes chrétiennes (“Cristo ressuscitou, Reflexões sobre as festas cristãs”, Desclée de Brouwer, Paris, 2000, páginas 47-49. Texto traduzido a partir da publicação na página Prie en Chemin.









