A notícia surgiu discreta e inesperadamente, na passada sexta-feira. Num pequeno destaque lateral, sem honras de manchete, mas lá estava ela, no site da confiável emissora britânica BBC. “Capelão do Exército perdoa rapaz que o esfaqueou”, dizia o título. Não sabia do esfaqueamento, mas o que me chamou a atenção foi o verbo perdoar. “Quantas notícias terão sido escritas, nos média ditos generalistas, com o verbo perdoar no título?”, pensei. Merecia ser lida.
Soube então que o capelão é o padre católico Paul Murphy, 52 anos, que em agosto de 2024 foi esfaqueado, em Galway (Irlanda), por um adolescente de 16, radicalizado online pelo grupo Estado Islâmico. O presbítero estava a sair do quartel onde prestava serviço, ao volante de um jipe, quando o jovem, que se encontrava junto ao portão, se aproximou mostrando intenção de falar com ele. Assim que o padre Murphy baixou o vidro, o rapaz começou a esfaqueá-lo repetidamente, só parando quando um grupo de soldados conseguiu, por fim, imobilizá-lo. Além das cicatrizes resultantes dos múltiplos ferimentos, o capelão militar ficou com o movimento e a força do braço esquerdo comprometidos. Mais tarde, o adolescente terá explicado à polícia que o ataque era uma vingança pela mobilização do Exército Irlandês no Mali.
Mas durante a audiência prévia, que decorreu na semana passada, o clérigo surpreendeu e comoveu a generalidade dos presentes no Tribunal Penal Central de Dublin quando afirmou que, longe de estar “no lugar errado, à hora errada”, considerava que tinha sido a pessoa certa, “no lugar certo, à hora certa” e descreveu aquele dia como “abençoado”. E sobretudo quando, dirigindo-se diretamente ao agressor ali presente, lhe disse: “Como um homem de fé, estou no negócio do perdão e ofereço-te a ti, o jovem acusado diante de mim, o perdão que espero que te ajude a tornar uma pessoa melhor”. O rapaz, por sua vez, respondeu que estava arrependido, relata o correspondente da BBC na Irlanda, acrescentando que, no final da audiência, o padre foi ao encontro do jovem e o abraçou, enquanto ele lhe pedia novamente desculpa.

“Quantas notícias terão sido escritas, nos média ditos generalistas, com o verbo perdoar no título?”. Foto: Direitos reservados
A sentença do agressor só será conhecida no dia 29 de abril, mas a notícia é outra e surgiu antes, no momento em que mais precisamos dela. Num mundo onde grassam a violência, o extremismo, a incompreensão e tantos conflitos devastadores, precisamos de testemunhos como este e de tirar lições dele. E, cristãos, crentes ou não, todos precisamos de entrar também no “negócio do perdão”.
O motivo é simples: “é assim que se trava a infeção”, como tão bem explica o Papa Francisco na sua autobiografia, Esperança, ao falar da importância de pedir desculpa e de perdoar quando queremos trilhar o caminho para a fraternidade e para a paz. “Se não perdoamos, não seremos perdoados; se não nos esforçarmos por amar, não seremos amados”, assegura Francisco, lembrando que “na vida, nem tudo se resolve com a justiça. Sobretudo, onde se deve erguer uma barreira ao mal, todos devem amar para além do devido, para recomeçar uma história de graça”. E, do alto dos seus 88 anos, o Papa alerta: “Sabemos bem que o mal conhece as suas vinganças: se não o interrompermos poderá alastrar, sufocando o mundo inteiro”.
E podemos realmente interromper o mal. Lemos a notícia: foi isso que acabou de acontecer em Galway!
O gesto do padre Paul Murphy lembra-nos alguém, aquele que certamente o inspirou e cuja morte e ressurreição os cristãos celebram nesta semana a que chamam “Santa”: Jesus.
Por estes dias, há cerca de dois mil anos, Jesus inaugurou “o negócio do perdão”, interrompendo o mal de tantas e tão surpreendentes formas. Uma delas terá sido amando “além do devido” quem o traía. Segundo os Evangelhos, Jesus percebeu que Judas, um dos apóstolos que ele próprio tinha escolhido – um dos seus melhores amigos – iria entregá-lo às autoridades judaicas, supostamente por dinheiro, levando-o à morte na cruz. Mas Jesus nunca o chamou de “traidor”. Pelo contrário, continuou a chamar-lhe “amigo” e não deixou de lhe demonstrar o seu amor. Quando se baixou para lavar os pés aos discípulos, lavou também os de Judas. Quando partilhou o pão na Última Ceia, deu-lhe um generoso pedaço.
E porque terá Judas feito o que fez? “Talvez a explicação mais provável – histórica, teológica e espiritual – seja que Judas desejava um Deus aos seus moldes: um Deus vingador que serviria à justiça expulsando os odiados ocupantes e restaurando os destinos do povo de Israel”, escreve James Martin na revista America. “Judas, assim como a maioria de nós [e talvez também como aquele adolescente que atacou o padre Paul Murphy], queria fazer Deus à sua imagem, e não o contrário.”
Mas o que Judas obteve foi muito diferente, continua o padre jesuíta: “um Deus sofredor que aceitou voluntariamente uma morte vergonhosa na cruz. Um Deus crucificado, na frase pungente do teólogo Jürgen Moltmann. Tragicamente, Judas não ficou por perto para ver o que aconteceu na manhã de Páscoa”.
Nós também não vimos, mas ouvimos e lemos. E se por um lado, como também nos lembra o Papa Francisco, precisamos de reconhecer que cada um de nós tem dentro de si “um pequeno Judas”, por outro todos temos de (re)aprender a pedir desculpa, a perdoar, a amar. É possível que nunca cheguemos a saber de onde vinham o ressentimento e o ódio de Judas. Mas será que conseguimos compreender verdadeiramente o amor de Jesus por ele – por todos – até ao fim?
E particularmente nesta Semana Santa, dirijo-me aos cristãos, nos quais me incluo: será que compreendemos que a morte de Cristo na cruz deve ser objeto de seguimento? E sabemos de que modo podemos fazê-lo nas nossas vidas concretas, tal como fez o padre Paul Murphy?
“Neste triste tempo de guerra, dificuldades, perda e luto, há duas coisas no coração do cristianismo que são mais do que nunca necessárias: esperança e perdão”, sublinhava Timothy Radcliffe, numa palestra proferida em julho de 2022. E referia que “há apenas um grande ato de perdão, e esse é o Domingo de Páscoa”. O frade dominicano explicava porquê: “Na Sexta-Feira Santa, colocamos o Amor Incarnado numa cruz. Rejeitámos o Deus que é amor. A cruz foi um ato de destruição estéril, sem vida e sem sentido. Mas no Domingo de Páscoa, Jesus encontrou Maria Madalena num jardim. Esta foi a Primavera irreprimível de Deus. A madeira morta da cruz deu flores. Nesse momento, tudo é perdoado”.
Mas Radcliffe também reconhecia que “às vezes, a primavera do perdão demora muito a chegar. Não se pode forçar”. E questionava-se sobre “o tempo que será necessário antes que o povo ucraniano seja capaz de começar a contemplar o perdão daqueles que estão a causar agora o seu terrível sofrimento”. Ao povo ucraniano, poderíamos hoje juntar o povo de Gaza, de Myanmar, do Sudão, do Iémen ou da República Democrática do Congo. E poderíamos juntar tantos líderes mundiais, políticos e religiosos.
Podemos também juntar-nos a nós, que tantas vezes amamos menos do que é devido – ou não amamos sequer – e nem equacionamos a hipótese de perdoar.
“Tornarmo-nos pessoas que perdoam não é esquecer”, esclarece Timothy Radcliffe. “É abrir a porta para a graça criativa de Deus. É inseparável de aprender a falar com a outra pessoa que o feriu. Descongelar o mar; abrir o caminho para palavras de cura; deixar o deserto estéril da dor ser tocado pela primavera”. Como fez o padre Paul Murphy. Só assim poderemos verdadeiramente celebrar a Páscoa.










