Contributos para o Sínodo (18)

Pastoral Familiar de Silvalde: Chegar aos mais frágeis, escutar os de dentro e os de fora

| 24 Jun 2022

Chegar às pessoas mais fragilizadas, pobres, marginais ou carecidas de afeto da respetiva freguesia, poder unir esforços e contribuir para minimizar as dificuldades e ajudar a erguer os mais débeis, e procurar chegar a todas as pessoas, crentes ou não, são propostas de um grupo de Pastoral Familiar da Paróquia de S. Tiago de Silvalde (Vigararia de Espinho/Ovar, Diocese do Porto) em resposta à maior auscultação alguma vez feita à escala planetária, lançada pelo Papa Francisco, para preparar a assembleia do Sínodo dos Bispos de 2023. Esse coro imenso de vozes não pode ser silenciado, reduzido, esquecido, maltratado. O Espírito sopra onde quer e os contributos dos grupos que se formaram para ouvir o que o Espírito lhes quis dizer são o fruto maduro da sinodalidade. O 7MARGENS publica alguns desses contributos, estando aberto a considerar a publicação de outros que nos sejam enviados. 

 

Uma cruz feita com Bíblias. “Para caminharmos juntos, a nosso ver, o mais importante de tudo é a formação na escuta do Evangelho.” Foto © Timóteo Cavaco.

A questão fundamental

Anunciando o Evangelho, uma Igreja sinodal “caminha em conjunto”: como é que este “caminhar juntos” se realiza hoje na vossa Igreja particular? Que passos o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

 

Quem somos. Breve apresentação

Somos um grupo de Pastoral Familiar da Paróquia de S. Tiago de Silvalde, Vigararia de Espinho/Ovar, Diocese do Porto. Estamos atualmente no grupo seis casais (um deles, recasado). O grupo foi fundado há mais de 35 anos e três dos atuais casais e um elemento do casal recasado estão desde a sua origem. Trabalhamos durante trinta anos na preparação de noivos para o Matrimónio. Reunimos mensalmente, só os leigos, em casa de um dos casais (o casal mais velho). O nosso Pároco é conhecedor do nosso trabalho, mas apenas na primeira reunião de formação do grupo e nas reuniões com os noivos é que o tivemos presente no grupo. Temos presença nas reuniões vicariais, através de um casal nosso delegado, e marcamos presença nas atividades da Vigararia, Diocesanas e Nacionais da Pastoral da Família.

 

O primeiro passo para o que caminha em Igreja

Para caminharmos juntos, a nosso ver, o mais importante de tudo é a formação na escuta do Evangelho. Lendo, rezando e escutando a Palavra do Evangelho, percebemos a pouco e pouco,

  • quem é o Deus de Jesus, um Pai amoroso e cheio de misericórdia para com os seus filhos, todos os homens de todas as condições, tempos e lugares…, mas com especial predileção pelo pobre ou aflito que clama por Ele;
  • verificamos que, na realidade, o Evangelho fala ao nosso quotidiano e leva-nos a questionar sobre o que Jesus faria em cada situação ou acontecimento concreto e a encontrar a resposta sempre cheia de compaixão de Jesus para apontar caminhos justos e bons para o nosso fazer humano;
  • vemos como é que Jesus caminhava junto com alguns e se distanciava de outros; por quem mostrava compaixão e de quem se distanciava e condenava. Jesus foi o oposto do Messias rei-guerreiro, todo-poderoso, esperado pelo seu Povo e caminhou junto com a fragilidade do pobre, do pecador, do doente, do de fora, do estrangeiro, do das margens… com todos os excluídos! Jesus (e os seus discípulos, nos primeiros séculos da Igreja), foi sempre alguém das margens e contra a opressão de qualquer tipo de poder, religioso ou outro. E nesta fragilidade e pobreza de meios, a sua Boa Notícia se espalhou e foi levada a todo o lado…, até ao nosso hoje… e irá ao futuro depois de nós! Infelizmente, vemos também que a Igreja se tornou, durante muitos séculos, influenciadora próxima do Poder, muitas vezes, ela própria o Poder real… e se afastou das margens e do caminhar junto com o Pobre, onde tudo começou. No passado, ouvimos muitas vezes dizer a ordem de importância do poder: primeiro o Clero, depois a Nobreza e no fim, o Povo… e os elaborados cerimoniais e a pompa e magnificência exibidas, são ainda hoje a prova simbólica disso. Temos de voltar a ser próximos do primitivo Caminho de Jesus e que o Evangelho, a todos, nos evidencia!

Assim, o primeiro passo para caminharmos juntos de forma semelhante àqueles com quem Jesus caminhava junto (os pobres, os que não contam para nada, os pequeninos das margens), é conhecer aprofundadamente o Evangelho. Sem este prévio conhecimento é possível que, sem o sabermos, caminhemos juntos com os que condenaram e mataram a Jesus (e que eram religiosos e conheciam muito bem a letra da Sagrada Escritura)! Assim, como primeiro e fundamental passo, é evidente a necessidade de termos formação aprofundada sobre os Livros Sagrados, principalmente os Livros do Novo Testamento, e, de forma particular, os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos.

 

Os passos seguintes. As dificuldades

Temos dificuldade em escutarmo-nos dentro da Igreja e ao mundo que nos rodeia.

No nosso pequeno grupo de Pastoral Familiar não há muita dificuldade em nos escutarmos uns aos outros, assim como cada um dos elementos não tem muita dificuldade em escutar os que nos são próximos, como os nossos familiares e amigos. O problema reside na dificuldade em escutar os outros grupos eclesiais, assim como o mundo fora das nossas relações próximas. E assim, temos dificuldade em caminharmos juntos, quer dentro da Igreja, quer no mundo que nos é próximo.

 

Dificuldades e propostas, dentro da Igreja

Precisamos de um Conselho de Pastoral que ainda não temos. Culpa de quem? Nossa, sem dúvida, e do nosso Pároco bastante idoso. Apesar de várias tentativas ao longo de anos, nunca foi possível mudar a situação e, agora obviamente, muito menos. Por agora, temos de viver assim, procurando-nos uns aos outros através de encontros informais. Mas temos consciência de que sem um Conselho de Pastoral, que efetivamente funcione, é muito difícil caminharmos juntos na nossa Paróquia.

  • O Conselho de Pastoral é um meio imprescindível para a concretização de ações comuns que levem o Evangelho à Comunidade crente e à generalidade da população da Paróquia;
  • um espaço de escuta e partilha das preocupações e esperanças dos diferentes grupos que, conforme os seus carismas, participam, de diferentes modos, da mesma ação evangelizadora, promovendo a troca de experiências, a interajuda e até, se oportuno, de ações conjuntas. É, essencialmente um lugar de escuta compassiva das dificuldades, assim como das propostas de cada membro, para procurar consensos de forma a nos ajudarmos mutuamente a levarmos o Fazer e a Palavra do Evangelho à Comunidade.

De notar que o Conselho de Pastoral não é um órgão decorativo: não é necessário perder tempo em reuniões se o debate e a procura de consensos servir apenas para se escreverem atas bonitas, e não forem tomados em conta para a concretização dos planos ou das ações a realizar.

 

E para fora da Igreja
ajudar, escutar, solidariedade foto pixabay

Termos meios de escuta em todos os lugares possíveis, das alegrias ou tristezas do nosso Povo, é um caminho facilitador de sermos Igreja no meio concreto em que estamos inseridos. Foto © Pixabay.

 

Mas a ausência de um Conselho de Pastoral não é a nossa única dificuldade. Precisamos de ser criativos e arranjar meios de diálogo com as Instituições sociais e de Poder Local.

Assim, o Conselho de Pastoral (quando existir), para além das suas preocupações da Pastoral, deve alongar o seu olhar para além da parcela de Povo para quem se dirige e procurar chegar a todos, pois crentes ou não, todos são igualmente Filhos de Deus, que é Pai Misericordioso de todos. Lembremos, a propósito, a parábola que conta a preocupação do Pastor que obstinadamente busca a ovelha perdida e deixa as outras noventa e nove boazinhas no deserto (Lucas 15,4-7). Assim,

  • parece-nos importante que através do Grupo de ação e intervenção sócio-caritativo da Paróquia e de outros cristãos mais habilitados na intervenção e acompanhamento social, se promovam periodicamente encontros com as diversas Instituições civis e, principalmente, com o Poder Autárquico, para chegarmos às pessoas mais fragilizadas, pobres, marginais ou carecidos de afeto da nossa freguesia, e podermos unir esforços e contribuir para minimizar as dificuldades e ajudar a erguer os mais débeis. Para se chegar aos mais frágeis e às margens da Paróquia/Freguesia, um meio privilegiado é, sem dúvida, através do campo de ação das organizações civis já existentes e, com especial relevância, a Junta de Freguesia;
  • o Conselho de Pastoral deve indicar pessoas com capacidade de escuta, para se encontrarem com as Instituições civis com o fim de promoverem ou apoiarem ações que ajudem a levantar os caídos da nossa Comunidade. O Conselho de Pastoral deve reunir antes de cada reunião de seus delegados, para preparar propostas apropriadas ao meio onde estes são enviados e encorajá-los a escutarem o que lhes for proposto; e, do mesmo modo depois de cada encontro, o Conselho deve reunir para tomar as medidas julgadas necessárias e adequadas, que sejam resposta aos anseios ou dificuldades encontradas;

A possibilidade de chegarmos a todos, ou à grande maioria das pessoas que vivam sem acesso a uma vida digna, dependerá muito da nossa capacidade de escutarmos as preocupações e dificuldades das pessoas concretas e de sermos facilitadores de caminhos para a resolução ou esbatimento dos problemas encontrados. Assim, termos meios de escuta em todos os lugares possíveis, das alegrias ou tristezas do nosso Povo, é um caminho facilitador de sermos Igreja no meio concreto em que estamos inseridos.

 

Mas há outras preocupações

O Evangelho e a vida devem estar profundamente ligados. Assim, o Evangelho deve ser a todos anunciado, tornando-o parte do nosso quotidiano. Se não formos assim, somos anunciadores sem sal, perdemos o gosto para quem ainda nos escuta. Tão pouco somos luz capaz de indicar trilhos novos de misericórdia (Mateus 5,13-16). Assim, com quem devemos caminhar juntos:

  • na nossa Igreja local devemos ser acolhedores, portas abertas para todos, sem nenhuma exceção. A não ser assim, seremos parecidos com os responsáveis religiosos do tempo de Jesus, que seguindo rigorosamente a Lei de Deus, contrariavam e combatiam o fazer misericordioso e compassivo para com os pecadores, do Deus anunciado por Jesus, e assim, condenaram este à morte na cruz. Assim, seguirmos muitas leis e dogmas, se estas servirem para excluir e não integrarem e acolherem, merecemos ouvir as palavras duras de Jesus: «Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!» (João 8,7);
  • escutar os que estão de fora, sejam cristãos afastados ou sem prática religiosa, ou não-crentes. A todos devemos escutar as suas preocupações e angústias, assim como as suas alegrias e experiências de vida. E devemos igualmente ter a coragem de partilhar as nossas dificuldades e dores, tal como a nossa fé em Deus misericordioso e libertador. E perguntarmos sempre: posso fazer algo por ti? como te posso ajudar? Tens possibilidade de me ajudares… ou de a alguém socorreres? Só conhecendo com verdade o outro, o podemos reconhecer como um irmão que, de facto, é. Assim, temos de sair do nosso comodismo e irmos ao encontro do irmão afastado… ou que esquecemos;
  • escutar as dificuldades, preocupações e propostas dos jovens, incentivando a sua criatividade e protagonismo e proporcionando-lhes meios de formação no Saber Evangélico. Enaltecer e valorizar o papel insubstituível da mulher no serviço concreto à Igreja. Sem elas em todo o lado, a Igreja não cumpriria a sua missão de bem anunciar a Jesus. Em plena igualdade com o homem, a mulher é protagonista e a sua palavra deve ser escutada. Na Igreja, os jovens e as mulheres devem deixar de serem tratados como periféricos e ocuparem o lugar central que lhes é devido: aos primeiros, porque neles reside a esperança de voltarmos a ser a novidade transformadora de mentes e corações, das origens do cristianismo; e às segundas, porque sem elas, a Igreja não seria, nem “funcionaria”;
  • deve ser pensada e promovida formas efetivas de participação dos leigos nos atos e cerimónias litúrgicas, de modo que estes sejam atores comprometidos e não meramente sujeitos passivos e desligados… um ato, por mais relevante que seja, se se tornar numa rotina no coração e no sentir de uma pessoa, perde o ser real significado e a esvazia por dentro. A participação na missa não é um fim em si mesmo, mas ponto de chegada com a vida que nos trouxe até ali, e ponto renovado de partida para o que o futuro nos reservar;
  • o presbítero tem uma missão absolutamente central e decisiva: anunciar ao povo, a quem foi enviado, o Evangelho e, importantíssimo, fazer a ligação da Palavra escutada, à vida e acontecimentos concretos vividos na sua Comunidade. Esta atualização da Palavra no quotidiano torna, em cada hoje, o Evangelho presente, vivo em nosso meio e sempre atuante a fazer caminho no coração e nas ações das pessoas que o escutam. Assim, para além da Palavra bem proclamada, a homilia deve ser muito bem preparada para, de forma simples e direta de modo a todos a compreenderem, ligar claramente o Evangelho de Jesus à vida de cada um que o escuta. E assim, a Palavra, como a semente, cairá em terra bem cuidada e fará o Seu caminho (Marcos 4,1-9)…
  • quando o presbítero preside a uma reunião, ou um conselho, deve promover o consenso e o esbatimento das diferenças, para que todos se revejam nas decisões ou caminhos tomados. Se deve caminhar para uma Igreja mais horizontal, próxima e menos piramidal e afastada. O presbítero, com as funções particulares que lhe cabem na condução da caminhada cristã da sua Comunidade, é um batizado entre outros batizados, com a igual responsabilidade e missão de levar o anúncio e a vivência do Evangelho a todo o lado.

 

Para concluir

Todos somos diferentes e temos formas e maneiras distintas de pensar e de agir. Mas esta diversidade é uma verdadeira riqueza. Lembremos sempre que todos, independentemente dos cargos ou serviços, na Igreja ou no mundo, temos uma radical igualdade e dignidade: somos filhos amados por Deus que é Pai, Papá/Mamã-Abba (Marcos 14,36) de todos, sem nenhuma distinção.

Não desconhecemos a realidade dolorosa e demencial da guerra, da desigualdade, da exclusão e do abandono a que multidões são sujeitos em nosso mundo triste, cruel e profundamente desigual. Não temos soluções, mas cada um de nós pode fazer a sua pequena parte. Assim, como grupo de famílias, propomo-nos ver e chegar mais longe, aos mais debilitados, doentes ou sós, às famílias irregulares ou afastadas, aos mais precários ou em sofrimento. Como o autêntico discípulo de Jesus, devemos fazer a nossa parte para constituirmos uma verdadeira Família Humana em que todos estejam e se sintam incluídos, e ninguém seja ou se sinta sobra inútil e descartável. Que o Espírito Santo de Deus nos conduza e guie, para bem vermos e acudirmos, como o samaritano da parábola (Lucas 10,29-37), ao nosso irmão necessitado. Ámen!

 

Grupo de Pastoral Familiar da Paróquia de S. Tiago de Silvalde, Diocese do Porto, 27.03.2022; 02.04.2022

 

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