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Recluso de mãos estendidas. Foto Photo Images
Depois da pandemia, houve uma quebra muito grande da presença de voluntários nos estabelecimentos prisionais. Foto © Photo Images

Encontro nacional em Fátima

Pastoral Penitenciária quer acompanhar mais reclusos e “suscitar na sociedade a disponibilidade para o perdão”

| 05/07/2025

Vai ser um dia de convívio, mas acima de tudo de convite à esperança e desafio à ação: o encontro nacional da Pastoral Penitenciária de Portugal, que terá lugar este sábado, 5 de julho, em Fátima, irá reunir agentes pastorais, voluntários e especialistas, com um programa que prevê momentos de formação, partilha de experiências e apresentação de propostas concretas a desenvolver no âmbito prisional.

Este encontro, realizado no âmbito do Jubileu da Esperança, revela-se particularmente importante numa altura em que é preciso “reforçar o papel da Igreja no acompanhamento a reclusos” e também “suscitar na sociedade a disponibilidade para o perdão”, sublinha o padre José Luís Costa, coordenador da Pastoral Penitenciária de Portugal, em declarações ao 7MARGENS.

“Depois da pandemia, tivemos uma quebra muito grande em termos de voluntariado e de presença nos estabelecimentos prisionais”, reconhece o presbítero, explicando que tal aconteceu sobretudo devido à faixa etária da maioria dos voluntários, “quase todos pessoas mais velhas, já em situação de aposentadoria, que são as que têm mais disponibilidade de intervir nos espaços horários disponibilizados pelos estabelecimentos”.

Assim, “há a necessidade de uma reproposta desta obra de misericórdia que é visitar os reclusos e este encontro será importante para motivar os atuais voluntários a trabalhar para uma renovação geracional que é necessária”, acrescenta. Algo que só poderá acontecer “revisitando todo o tecido eclesial, não só as comunidades paroquiais, mas também novas realidades em que a fé vai ressurgindo”, defende.

E não é só o tecido eclesial que é importante despertar, mas também a sociedade como um todo, até porque ela “está a perder a capacidade de perdão e de reconciliação, nestes novos tempos em que se olha com cada vez maior desconfiança para qualquer ato de perdão e de libertação”, assinala o padre José Luís Costa.

Prova disso é o facto de, nesta quarta-feira, ter sido recusada na Assembleia da República uma petição dinamizada por várias organizações [ver 7MARGENS] e um projeto de lei do Bloco de Esquerda que defendiam um perdão de penas e uma amnistia de infrações no âmbito dos 50 anos do 25 de Abril.

No Parlamento, venceu a ignorância e o populismo

“A sociedade tem medo de não castigar, o que é uma coisa que me perturba… porque essa ideia de continuar a castigar, achando que pelo castigo as pessoas alteram o seu coração, não tem nada a ver sequer com o nosso código penal, pelo contrário: está nos seus antípodas”, afirma o coordenador da Pastoral Penitenciária.

Para José Luís Costa, seria importante que, com mais frequência, surgissem estes pedidos de perdão de penas, e não apenas no contexto de acontecimentos especiais, como a visita de um Papa, ou uma efeméride importante. “Não tem de ser só porque há uma data redonda ou porque estamos no Jubileu… Era tão bonito que, todos os anos, pudéssemos ouvir no noticiário que 10, 15 ou 40 reclusos foram indultados…”, partilha.

Enquanto isso não acontece, organizam-se encontros como o deste sábado, em que serão partilhadas “boas práticas de reinserção e projetos sociais em contexto prisional”.

Padre José Luís Costa. Foto Agência Ecclesia MC

Era tão bonito que, todos os anos, pudéssemos ouvir no noticiário que 10, 15 ou 40 reclusos foram indultados…”, partilha o padre José Luís Costa. Foto © Agência Ecclesia / MC

Entre essas “boas práticas”, inclui-se a valência de apoio aos reclusos e às suas famílias da Conferência de São Vicente de Paulo de Sintra, “que tem procurado fazer a ponte entre o acontecimento da reclusão e as necessidades mais prementes que as famílias dos reclusos começam a ter, quer pela ausência da pessoa, quer pela falta de contributo económico, e ao mesmo tempo para transmitir alguma segurança aos próprios reclusos, que na sua larga maioria se preocupam com quem deixaram lá fora”.

Outro projeto concreto que será dado a conhecer no encontro deste sábado é o de um voluntário, o Zé Carlos, que “tem levado a poesia ao estabelecimento prisional de Caxias, como um tempo de janela aberta para as emoções dos reclusos que ali vivem”, revela o padre José Luís Costa. Recordando que aquele é um estabelecimento que acolhe presos preventivos, o coordenador da Pastoral Penitenciária assinala que se trata de “um espaço onde as emoções são muito mais intensas, pois a incerteza gera angústia, e há a necessidade de expressões para evitar processos de desequilíbrio psicológico”. Ao mesmo tempo, o padre sublinha que este projeto mostra como “muitas vezes não é preciso grande investimento ou aparato, basta comprometer-se a estar uma vez por semana, para um tempo de leitura, de diálogo, dando-lhe intenção e finalidade”.

Depois destas e de outras partilhas que se esperam inspiradoras, o encontro terminará com a redação de um “Manifesto da Esperança”, que “vai ser elaborado lá, em conjunto, fruto de um trabalho de sinodalidade”. E que pretende ser um contributo para que as prisões deixem de ser “encaradas com um lugar de depósito que já esta fora da sociedade, um lugar de exclusão”.

Para dia 20 de setembro, está já agendada outra iniciativa desta Pastoral: uma peregrinação jubilar ao Santuário de Fátima. A celebração do Jubileu dos Reclusos, na Praça de São Pedro (Vaticano), será a 14 de dezembro.

 

 

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