A memória longínqua de uma pátria
eterna mas perdida e não sabemos
se é passado ou futuro onde a perdemos.
(Sophia de Mello Breyner)

“Era uma noite calma. O silêncio, abençoado silêncio, permeava tudo. As árvores adejavam na escuridão, livres, tocadas pela suave brisa.” Foto © José Centeio
Era uma noite calma. O silêncio, abençoado silêncio, permeava tudo. As árvores adejavam na escuridão, livres, tocadas pela suave brisa.
Parecia a última noite, o fim dos tempos, mas pouco a pouco a madrugada deu lugar à manhã, e com ela retornavam o tempo e a história.
Pouco a pouco, as pessoas levantavam-se para enfrentarem mais um dia das suas misteriosas existências. Misteriosas para si próprias, embora, com as lides e obrigações do dia, cedo disso se esquecessem. O mistério da suas existências e da existência como um todo ficava assim adormecido, latente, até à hora do ócio e do silêncio da noite. E mesmo assim, não para todos. Só para os menos cansados e oprimidos por preocupações de vária ordem.
Na hora propícia, longe das palavras vãs dos negócios humanos e dos ruídos profanos, o silêncio de novo revelava o território inominado da realidade tal como ela é, nua no seu mistério supremo, dom incompreensível.
E as mentes mais despertas interrogavam-se e filosofavam nessas horas.
Outros, cegos pela dor, ou mesmo pelo desespero, não conseguiam senão orar a Deus para que lhes desse paz. Ou lançavam ao abismo absoluto do Céu e da Terra um lancinante porquê, quando não um para quê, daqueles que visam a raíz do Ser para redimir toda a realidade. E o silêncio respondia sempre.
Durante o dia, ocasionalmente, nos intervalos do esquecimento das obrigações diárias, tinham conversas deste calibre:
– Já reparaste que, embora chamemos realidade a este mundo e à nossa existência nele, vivemos a maior parte do tempo numa espécie de irrealidade, como num sonho? Por mais que nos esforcemos, parece que nos escapa sempre algo de absolutamente essencial…
– Sim, tens toda a razão. Os momentos de paz e alegria são raros, aqueles momentos em que tudo parece certo e pleno, conforme a corrente da vida. No resto do tempo, estamos mergulhados na incerteza e na dúvida, desorientados, e a vida parece não ter nenhum sentido…
– Exato! O que nos salva às vezes é mesmo o assombro perante o mistério que a vida é. Quando o sentimos realmente, radicalmente, a dúvida parece que perde esse caráter negativo, e é como se o próprio mistério fosse a resposta… Como se nele, ou por ele, algo de absolutamente extraordinário, real, fundamental e inaudito nos fosse revelado. Uma vez um filósofo escreveu, e muito bem, acho eu, que a vida sem mistério seria irrespirável…
– Sim, talvez, num certo sentido. Mas a mim angustia-me não saber. Queria saber tudo, conhecer tudo, se pudesse! Pelo menos que alguém me dissesse: “Eis o teu sentido, o teu destino, a tua razão de viver. Agora vive.”
– Meu caro, isso dispensava-te de procurar, não é? De escolher… Dispensava-te do caminho extenuante do autoconhecimento. Dispensava-te da incerteza implicada em toda a escolha. Mas não me parece que isso possa ser assim, porque seria alienarmos a nossa liberdade. Ninguém nos pode dizer qual a nossa razão de viver, o nosso destino. Temos de ser nós a abrir esse caminho que nunca se nos apresenta pronto, e se assim se apresenta, talvez seja melhor desconfiarmos… Abrir esse caminho na espessura da vida a partir de uma consciência cada vez mais plena daquilo que somos e do que nos toca na alma; da nossa vocação, o que quer que isso seja. E ter esperança de que, ao aprendermos a usar bem a nossa liberdade, o nosso destino, qualquer que ele seja, se revelará.
Como todos os dias, a noite voltava e as gentes retornavam às suas casas. Uns para esquecer, outros para recordar. Uns voltavam à intimidade do lar, outros iam mais longe e voltavam ao seu íntimo.
Como sempre, a Lua tomava o lugar do Sol, a vida seguia o seu curso, a sua respiração; a existência proclamava-se a cada dia na sua inexorabilidade aos olhos dos mortais, mas em silêncio, numa linguagem tão incontornável quanto inacessível.
Passava o tempo, como sempre, e nem se dava por ele. Tempus fugit. O tempo voa. E com ele cresce o esquecimento. O segredo do tempo é precisamente nunca parar de correr; é ser constante, ainda que lento. Por isso, quando menos damos conta, já passou um ano, dois, três, dez, cinquenta.
Para cada um de nós, no fim do nosso tempo, está o horizonte inexorável da morte. Mas sobre ela nada sabemos realmente, embora nos ocupemos desde sempre a diabolizá-la. A morte é uma doença da imaginação, dizia um tal de Alain, filósofo.
Em todo o caso, não nos conformamos com o horizonte da morte, entendida como mergulho no nada absoluto. Nem com o tempo enquanto realidade surda que, sob os nossos pés, vai correndo sem parar até nos deixar sem chão.
A vida que somos, a nossa consciência profunda, aponta para a eternidade. Desejamos a imortalidade, porque, intimamente, nos sentimos imortais, coparticipantes de uma realidade mais alta, que se insinua em nós pela experiência do amor, da beleza e da verdade.
Visamos portanto o alto, o vértice da vida, o infinito acima e dentro de nós, mais do que esse horizonte da dita morte, filha do tempo.
Para nós, um tempo que não vise a eternidade tem pouco ou nenhum sentido. Uma ação ou pensamento que não fale de realidades perenes, de qualquer coisa de universalmente válido, não satisfaz verdadeiramente a nossa sede, não gera esperança verdadeira.
No silêncio o amor se fez esperança esperança

“Um dia olharemos para trás e teremos pena de tudo aquilo que não pode ser. Teremos saudades, porque ter saudade é também isso mesmo, a dor do que não foi. E do que não fomos! A dor do que ficou irremediavelmente para trás.” Foto © Matt Bennett / Unsplash
Li algures num romance a seguinte frase: “A saudade era a sua cidade”. Referia-se a essa nostalgia de paraíso e absoluto que movia certos cruzados e peregrinos da Idade Média no seu caminho até Jerusalém. Era da Jerusalém Celeste que tinham sede, não da Jerusalém terrestre.
De facto, de uma forma ou de outra, todos habitamos essa saudade, porque nunca estamos plenamente satisfeitos com o que temos e somos; todos habitamos um vir-a-ser e mesmo um dever-ser; todos vivemos, num certo sentido, sempre na véspera de nós mesmos, na expectativa de uma pátria que não é realmente deste mundo, e que em nós se revela sobretudo como um sentimento absolutamente íntimo e portanto impossível de verbalizar, bem como por um desejo essencial de sublime paz e plenitude.
Pois também para os habitantes da nossa pequena cidade, a saudade era a sua cidade. Que bela era esta cidade! Calma, cheia de espaços acolhedores que despertavam nas pessoas misteriosos fiapos de reminiscências – de outras vidas? de outras plenitudes? da pátria ínsita no coração de cada um? Tudo o que é belo é um símbolo. Talvez não busquemos nos lugares senão os lugares ocultos na nossa própria alma.
Pequenas praças ajardinadas sob árvores frondosas, rumorejantes; fontes e fontinhas; um horizonte a perder de vista. No centro, uma grande praça, sempre animada durante o dia, mas nunca demasiado ruidosa. Bordejam-na claustros que, de manhã cedo ou à tardinha, lançam sobre a praça sombras conventuais. Silêncio em pedra, esses claustros, convidando ao recolhimento e à meditação, mas também às confidências do amor e de tudo o que dá vida.
Sob um desses claustros, um homem e uma mulher, sentados num banco de praça, junto a uma fonte de três bicas, tecem confidências. Dessa pequena fonte, três fios de água rumorejam brandamente, à sombra. As palavras fluem com a mesma naturalidade, brandura e clareza da água. Diz o homem:
– Quando nos apaixonamos, é como se encontrássemos a nossa pátria. Quando esse amor falha ou não é correspondido, é como se fossemos exilados para sempre.
Depois de um breve silêncio, a mulher respondeu num tom levemente irónico:
– Porque dizes isso? Estás apaixonado? Sabes que quando se perde um amigo o sentimento é muito semelhante. Sobretudo se se trata de um bom amigo, de longa data. Qualquer forma de amor, desde que seja honesto, significa um enraizamento, uma espécie de pátria.
– Queres dizer que eu também sou a tua pátria? – Respondeu imediatamente o homem com o olhar algo enternecido e húmido e o esboço de um sorriso cansado.
– Claro que és.
– Sabes, já tenho saudades tuas.
– Vais para onde!? – perguntou a mulher meio perplexa.
– Por agora, para lado nenhum. Mas chegará um dia em que tudo terá passado, isto tudo, aqui, à nossa volta, tu e eu, nós – tudo terá passado. E tudo o que ficou por dizer e fazer… enfim.
Ao dizer “enfim” o homem baixou os olhos, como se a tristeza os fizesse de repente pesados.
– Queres dizer-me alguma coisa? – perguntou a mulher.
O homem teve um momento de hesitação e disse, quase em surdina:
– Quero. Um dia olharemos para trás e teremos pena de tudo aquilo que não pode ser. Teremos saudades, porque ter saudade é também isso mesmo, a dor do que não foi. E do que não fomos! A dor do que ficou irremediavelmente para trás. E eu, já, neste momento, antecipo a angústia futura, tenho saudades do nosso futuro, daquilo que irremediavelmente se perderá se não dissermos agora tudo o que há para dizer, e não vivermos tudo o que há para viver…
– Desembucha. Diz o que tens a dizer. – disse a mulher com um assomo de impaciência.
– Amo-te. – respondeu o homem.
Interpôs-se entre eles um silêncio prolongado, atravessado apenas pelo rumorejar da fonte. Até que a mulher falou:
– Sabes, tu sempre foste um idealista. Um romântico. O que te leva a crer que me amas? Quem te garante que não te iludes? Talvez só ames uma ideia, a ideia que tens de mim, ou a ideia que fazes de ti mesmo comigo. As saudades que dizes ter, “saudades do futuro” (e acompanhou a expressão com um gesto de aspas), talvez não passem de saudades de um ideal, algo que não sou eu, que está muito para além de mim e de nós. Nada mais. Julgas que te darei a paz que há muito procuras, e com ela te farei um homem melhor, mais virtuoso e sábio, limpo e puro. Julgas que comigo virás a ser quem és, o melhor que podes ser; julgas que comigo te vais realizar de acordo com essa ideia que tens de ti mesmo… Mas será mesmo assim? Poderei eu, tão imperfeita, dar-te tudo isso? Não estarás equivocado?
– Tens muita razão. Quando estava emigrado, em condições por vezes bem difíceis, sentia saudades da minha terra, da limpeza e do conforto dos meus lençóis, do meu cafézinho à hora certa; enfim, dos meus hábitos. Mas não era realmente do que eu era antes que eu tinha saudades, mas daquilo que eu julgava poder ser uma vez regressado a esses mesmos hábitos, a esse mesmo conforto. Imaginava-me de novo um homem nesse conforto reconquistado, pronto para realizar os meus projetos, a minha vocação, e fazia planos para me disciplinar assim que voltasse, dar e ser o melhor de mim uma vez de regresso à minha pátria. Isso trazia-me uma grande esperança no futuro, uma grande esperança em tudo o que eu poderia fazer e construir uma vez reinstalado no meu elemento. Mas, depois de regressado, cedo me acomodei aos velhos hábitos, quer dizer, à velha falta de disciplina, e nunca estive realmente à altura dessa esperança que alimentei acerca de mim mesmo e da minha vida. Falhei, como hoje ainda falho, em tornar-me no homem que acreditava – e acredito – poder ser.
Pode ser que eu veja em ti e no nosso amor aquilo que antes via quando pensava no regresso ao meu país: esse conforto e essa limpeza, o meu elemento, no qual e a partir do qual poderia reencontrar-me e ser o homem que sempre quis ser: limpo, puro, seguro e comprometido com ideias e valores essenciais. É tão mais fácil ser-se tudo isto quando se é amado!
Porque, de facto, a minha vida hoje é vazia e carente de sentido. Vivo desconfortável comigo, sempre aquém de mim, sempre na véspera de mim, como se estivesse exilado de mim mesmo. Meio perdido, é como se o mundo fosse por vezes demasiado grande para mim e eu não tivesse lugar a que chamar casa.
– Vês em mim uma espécie de salvação, não é?
– Vejo em ti um lar. Neste mundo, nada somos sem um lar. Sem ele ficamos sem eira nem beira. Eu bem sei que ninguém pode fazer por outrem aquilo que o próprio é incapaz de fazer por si mesmo. A salvação, qualquer que ela seja, está também dentro de mim; depende, em primeiro lugar, de um esforço da minha própria vontade. Depende do exercício da minha liberdade pessoal. Mas também é verdade que ninguém se salva sozinho.
Depois de refletir uns instantes, a mulher replicou:
– Estás disposto a comprometer a tua vida? A assumires plenamente o teu amor, qualquer que ele seja? Mesmo que as coisas acabem por não correr tão bem como pensas? Este mundo é bastante imperfeito, e eu também sou o que sou, apenas humana, ainda que tenha os meus próprios sonhos e ideais e também adorasse ser toda luz e claridade…
– Olha – interrompeu o homem –, vou dizer-te uma coisa que aprendi há não muito tempo. Quem quer encontrar a sua verdadeira liberdade tem de se comprometer. Ser homem é ser responsável. Era o que dizia aquele autor que escreveu “O Principezinho”, o Saint-Exupery. Não há liberdade verdadeira sem o vínculo que nos enraiza na vida, o vínculo da humanidade, que é o vínculo da responsabilidade.
– Dá-me a sensação de que estás outra vez a falar de ideias e grandes causas, não de mim, que sou muito concreta e imperfeita. Tu foste feito para as grandes causas, meu amigo. Foste feito para as grandes ideias, não sei se suportarias a imperfeição de um quotidiano em comum, de uma rotina, de um…
– Já te conheço há alguns anos, minha querida. Não és propriamente uma desconhecida para mim. Acho que estou disposto a correr o risco, até porque me sinto na obrigação de aprender, de ir além de mim mesmo, do meu egoísmo e dos meus medos… preciso de encontrar esse vínculo de responsabilidade, mesmo que seja difícil… Perto de ti sou sempre melhor pessoa, e até mesmo longe de ti, apenas por te saber dentro da minha vida. Posso estar completamente iludido, mas devolveste-me a esperança, e onde há esperança, há alegria. E onde há alegria, reza um dito védico, há criação. Nunca ouviste? Iludido ou não, sou melhor por tua causa. Se não me rejeitares, maior ainda será essa alegria.
Não sei o que há-de ser da minha vida no futuro, mas não quero perder o presente. Quero tirar dele todo o potencial de eternidade; quero dizer tudo o que tenho para dizer, realizar tudo o que tenho para realizar, sem medo. Sempre em nome do bem, da beleza e da verdade, e certamente do amor, sem o qual tudo se torna muito mais árido e difícil. Não quero vir a chorar no futuro tudo aquilo que não pude dar, ou não soube dar, por egoísmo, mesquinhez, ignorância, enfim. Quero entesourar para o futuro um tesouro imperecível.
Ajuda-me a ser um homem. Ensina-me a amar.
(E perante o silêncio da interlocutora, decidiu prosseguir)
Tens razão quando dizes que me quero vincular, acima de tudo, a uma ideia. De facto, não acho que haja algo maior do que servir… uma ideia. Servi-la e ser responsável por ela. Não há nada que eu mais deseje do que ser um Homem. Do que dar um sentido à minha vida, à altura da minha dignidade. Mas essa ideia não é algo de meramente abstrato, estratosférico, como pensas. Não. Essa ideia não é outra senão a vida no seu grau supremo, a sua essência. Quero uma ideia que tenha vida e que signifique cada vez mais vida. Para tal, não tenho outro remédio senão aprender a arte da vida, que é a arte do enraizamento, da responsabilidade, do conhecer e do amar pessoas concretas. Irra, e como isto é difícil! Sim, eu sei que é. É mesmo muito difícil! E cheio de desafios, espinhos e dores…
Sei muito pouco do mundo. Sei muito pouco deste mundo pelo qual desejo ser responsável.
Ensina-me isso também, se puderes e quiseres. Ajuda-me a criar raízes. Raízes na terra, raízes no Céu.
Finalmente, fez-se silêncio. A tarde caíra, a sombra ficara mais espessa sob os claustros, a praça esvaziava-se sem alarde. Só o rumor da água na fonte continuava exatamente igual. Não estava frio. Muito pelo contrário, uma brisa amena beijava por igual a pele das mãos e do rosto do casal que permanecia sentado, junto à fonte. Não mordia, beijava.
Nessa noite, igual a tantas outras noites, e tão diferente, o homem e a mulher adormeceram embalados pela esperança que, como um vento interior, sopra, inflamando a alma, enchendo-a de promessas luminosas.
Sonharam – e não foram os únicos na cidade – com pedaços de lugares conhecidos e desconhecidos, mas postos a uma nova luz, cheios de uma alma nova. Como se a reminiscência profunda de um sentimento familiar como nenhum outro se revestisse com farrapos de memórias concretas para assim se apresentar à consciência. Era como se cada qual estivesse em casa nesse sentimento, mais real que qualquer outro, mais concreto que qualquer lugar. Íntimo como uma pátria inominada e inominável, mas sensível.
Ruben Azevedo é professor e autor de vários livros.









