Na Missa Crismal e no almoço com os padres

Patriarca antecipou despedida do clero: esta será a sua “última” Páscoa no cargo

| 6 Abr 2023

Patriarca, Missa Crismal, Manuel Clemente

O cardeal-patriarca, Manuel Clemente, na Missa Crismal de 6 Abril 2023, que referiu como sendo a sua última no cargo. Foto © Diogo Paiva Brandão/Patriarcado de Lisboa

 

O cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, antecipou nesta Quinta-Feira Santa a sua “despedida” do clero de Lisboa, ao anunciar por duas vezes que será a última vez que celebra a Páscoa naquele cargo. Na homilia da Missa Crismal, que cada bispo celebra com o clero da sua diocese, o patriarca dirigiu-se aos seus padres e afirmou: “Uma última coisa vos quero dizer, porque também última será certamente a Missa Crismal em que vos falo na presente condição: E a palavra que vos deixo é de gratidão a vós e de ação de graças a Deus, pelo presbitério que integrei como padre, bispo auxiliar e desde 2013 como patriarca.”

Pouco depois, já no almoço que reuniu boa parte do mesmo clero da diocese, o cardeal Clemente repetiu a mesma mensagem, afirmando que esta seria a última Páscoa que celebraria enquanto patriarca, segundo contaram ao 7MARGENS vários clérigos que estiveram presentes no Seminário dos Olivais, onde decorreu a refeição.

Nesta mesma ocasião, o padre Alexandre Palma, da equipa de formação do seminário e que integra a direcção da Faculdade de Teologia da Universidade, dirigiu-se ao patriarca em nome de todos, agradecendo também a missão desempenhada por D. Manuel.

Na homilia da missa celebrada de manhã, o patriarca manifestou a sua “gratidão” pelos muitos de padres que “serviram ou servem” no Patriarcado. “É certo que as falhas, reais ou supostas, de algum são mais mediatizadas do que a caridade pastoral do magnífico conjunto que integrais”, acrescentou, referindo-se implicitamente ao tema dos abusos sexuais, que abordara momentos antes. E desejou “que a tristeza não encubra o bem que” é feito por tantos padres “e a realidade que tão positivamente” eles são, “confirmada por tantos que beneficiam” da sua acção.

O patriarca completa os 75 anos – idade canónica para a resignação – em 16 de Julho (nasceu em 1948, em São Pedro e São Tiago (Torres Vedras), poucos dias antes do início da Jornada Mundial da Juventude que decorre em Lisboa. Em muitos casos, quando se trata de cardeais, e não havendo razões de saúde ou outras que o impeçam, o Papa pede que fiquem mais um ano ou dois no cargo. Mas o patriarca, assolado pela questão dos abusos e pelos vários casos que teve de gerir, mesmo mediaticamente, não se sente em condições de continuar, conforme tem dado a entender, de várias formas, ao longo dos últimos meses. No auge da primeira crise sobre o tema, no último Verão, o cardeal Clemente foi mesmo ao Vaticano para se encontrar com o Papa. E o pedido de resignação antecipado pode ter estado na mesa da conversa. (ver 7MARGENS)

Sobre os abusos, Manuel Clemente referiu-se ao que tem sido feito e se deve fazer ainda, “apoiando as vítimas e prevenindo o futuro”. Dirigindo-se às pessoas abusadas, manifestou “de novo o pedido de perdão institucional e convicto, bem como a disposição de apoiar quem necessite. E confirmou “a disposição firme” de fazer das comunidades católicas “lugares saudáveis e seguros” neste âmbito.

O patriarca referiu ainda a próxima realização da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, entre os dias 1 e 6, cuja preparação criou “uma grande rede de planeamento” que pode vir a ser “a base duma pastoral juvenil renovada” da Igreja em Portugal. “Como tenho dito em várias ocasiões, não podemos desaproveitar esta oportunidade para o rejuvenescimento da Igreja em Portugal, contando agora e depois com tantos milhares de jovens e com a experiência criativa e responsabilizada que assim ganharam”, afirmou na homilia.

Nesta Quinta-Feira Santa, em que a Igreja Católica celebra a Última Ceia de Jesus com os seus discípulos, vários foram os bispos que, em Portugal, se referiram ao tema dos abusos na Igreja, no contexto da Missa Crismal (de manhã) ou da celebração da Última Ceia (à noite). Foi o caso do bispo de Leiria-Fátima e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, José Ornelas, que pediu aos padres o “mais claro e decidido repúdio e responsabilização de atitudes” que envergonham e contradizem”, e que tenham a “coerente atitude de justiça, de apoio e da reparação possível” de quem foi vítima de abusos, que “nunca deveria ter acontecido, especialmente no interior da Igreja”.

Em Braga, o arcebispo, José Cordeiro, afirmou que “não é suficiente pedir perdão” e por isso está empenhado “em escutar, acompanhar, proteger e reparar as pessoas vítimas que o desejem”. Os bispos de Aveiro, Porto, Santarém, Porto e Vila Real foram outros dos que se referiram ao tema dos abusos. Em Angra, o bispo Armando Esteves disse que os padres devem dar tudo para “erradicar da sociedade imagens gastas de pastor”. E acrescentou que “os abusos podem ser de poder, de autorreferencialismo, de menosprezo pelo sentir e pensar dos fiéis leigos em relação ao que diz respeito a todos, de consciência, de busca desmedida de bens materiais, etc.

 

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