Graça Machel quer mulheres na resolução de conflitos

Patriarca Bartolomeu: “Crise ecológica é inseparável da pobreza, migração e conflitos”

e | 16 Mai 2024

Intervenção do Patriarca Bartolomeu: sensibilidade à questão ambiental desde a década de 1980. Foto © António Marujo/7MARGENS 

“Todos estamos bem conscientes das ligações íntimas e inseparáveis da crise ecológica com os problemas globais da pobreza, da migração e dos conflitos”, afirmou o Patriarca ortodoxo de Constantinopla, Bartolomeu, na sessão de abertura do Fórum Global de Diálogo organizado pelo Kaiciid, Centro de Diálogo Inter-Cultural, em Lisboa. Dirigindo-se à centena de participantes da iniciativa, o líder espiritual dos ortodoxos interpelou sobretudo as lideranças de fé: “Como é que nós, enquanto líderes religiosos, podemos não procurar o bem-estar dos habitantes do mundo? Como podemos não trazer à luz do dia a exploração criada por indústrias e empresas, muitas vezes com a permissão ou tolerância de políticos e estados? Esta é certamente uma parte fundamental e crítica do nosso serviço como representantes da religião.”

Bartolomeu é, desde há muito, conhecido como o “patriarca verde”, pela sua sensibilidade e atenção a estes temas. Nos anos 1990-2000, o responsável ortodoxo promoveu a realização de vários simpósios “Religião, Ciência, Ambiente”, que reuniam teólogos, cientistas e ambientalistas, em lugares do mundo mais ameaçados. Os rios Danúbio e Mississipi, o Ártico e a Amazónia foram algumas das regiões onde decorreu essa iniciativa.

O próprio recordou, na sua intervenção, a atenção que tem dado ao tema desde a década de 1980, quando já estava convencido “que a sustentabilidade constitui parte integrante da nossa crença doutrinária e do nosso comportamento adequado, respeitando a criação material e aprendendo a viver com menos, bem como a oferecer glória e acção de graças ao Deus Criador”. Tudo isto, acrescentou, “é central e vital”, e Bartolomeu já o pensava “muito antes de a ecologia ser considerada popular ou apelativa”.

Ao longo das últimas décadas, o patriarca tem “procurado aumentar a consciencialização” sobre matérias como os direitos humanos e a questão da crise climática. Esta, afirmou, “não é um desafio marginal ou periférico no nosso mundo”. Antes “tem raízes espirituais sinceras e profundas que derivam da forma como entendemos o dom da criação como um dom divino e uma responsabilidade divina”. E sublinhou: “Cuidar da criação de Deus não é apenas uma questão política ou tecnológica, é antes de mais uma vocação e uma obrigação sagrada e espiritual” e não apenas “uma questão de relações públicas ou de declarações de moda”.

É por estas razões que, defende, “a resposta à crise ecológica, pelo menos com base nos princípios da tradição cristã, exige uma mudança radical de comportamento em relação à criação e um cepticismo como antídoto para os consumidores”. Para o patriarca é clara a ligação: “O endeusamento das necessidades e a atitude aquisitiva pressupõem a nossa maior responsabilidade por transmitir um ambiente natural valioso às gerações futuras.”

 

“Tratamos a terra como objecto dessacralizado”

Aspecto da sala durante a sessão de abertura. Foto © António Marujo/7MARGENS.

Foi essa consciência que levou a Igreja Orotodoxa, no seu Concílio de 2016, a publicar uma encíclica que diz que a raiz da crise ecológica é espiritual e ética – uma perspectiva muito semelhante à que é proposta pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’; esse mesmo horizonte levou Bartolomeu, o Papa Francisco e o Arcebispo Justin Welby, primaz anglicano, a assinar uma declaração conjunta sobre o tema, em que se defende que “todos os líderes religiosos têm o dever de responsabilizar as nações e as empresas, mas também as comunidades e os indivíduos, pela forma como estamos a tratar o nosso planeta hoje”.

“Estamos a abusar e a explorar a terra e os seus recursos porque não consideramos este planeta como sagrado e, em vez disso, infelizmente, percebemos e tratamos a terra como um objecto dessacralizado”, afirmou Bartolomeu, para declarar, sobre as lideranças religiosas: “Não há qualquer razão ou desculpa para a nossa indiferença ou inacção.”

Para Bartolomeu está em causa também pensar no que passou com a pandemia: “Aprendemos quão vulneráveis somos enquanto seres humanos e quão frágil é o nosso ambiente se não trabalharmos em conjunto. Os nossos sistemas sociais são hoje fantásticos e descobrimos que não podemos controlar tudo.” Mas há outras conclusões: “Temos de reconhecer que as formas como utilizamos o dinheiro e organizamos as nossas sociedades não beneficiaram toda a gente. Encontramo-nos fracos e ansiosos, submersos numa série de crises, por exemplo, na saúde, na alimentação, na economia e na sociedade, todas elas profunda e inseparavelmente interligadas. Estas crises colocam-nos perante uma escolha clara: (…) ou as enfrentamos com falta de visão e profetismo” ou “aproveitamos esta oportunidade de conversão e transformação, que é a maneira da fé”.

Este caminho, concluiu o Patriarca ortodoxo, “implica inevitavelmente fazer mudanças, por vezes radicais e até difíceis, mas esse é o caminho autêntico da transformação, esse é o caminho autêntico do diálogo transformador e da construção da paz” e “é o único caminho para a colaboração e a inclusão”. Por isso, as religiões têm de “aumentar a consciencialização sobre a forma como utilizamos os nossos recursos” e de “descobrir novas formas de trabalhar em conjunto para derrubar as barreiras entre fés, culturas e povos”.

 

Mulheres, as que mais sofrem

Graça Machel: as mulheres “carregam o maior peso do sofrimento e as feridas mais dolorosas”. Foto © António Marujo/7MARGENS.

De outro ponto de partida falou Graça Machel. Apresentando-se como “lutadora pela paz e a liberdade e avó africana que quer deixar um mundo de paz aos netos e às gerações vindouras”, a viúva de Samora Machel defendeu a participação as mulheres em processos de pacificação, resolução de conflitos e negociações de paz.

“Apelo a todos a encontrar formas significativas de garantir que as mulheres se sentam nas principais mesas de negociação e de tomada de decisões – com as suas capacidades enquanto especialistas, líderes da sociedade civil, guardadoras da religião, académicas, advogadas, defensoras dos direitos humanos, mães e irmãs”, afirmou, acrescentando que essa participação deveria ser obrigatória.

Graça Machel, que viria a ser mais tarde mulher do Presidente Nelson Mandela, da África do Sul, contou exemplos de processos de resolução de conflitos em que participou, na Libéria, no Burundi e no Quénia, para defender a participação das mulheres: são elas que têm a maior dor e “que carregam o maior peso do sofrimento e as feridas mais dolorosas das vítimas dos conflitos” e por isso é importante “ouvir e respeitar diferentes vozes, diversas entoações” para poder “desfrutar dos acordes harmoniosos e duradouros da paz”. Até porque as mulheres, acrescentou, “têm perspectivas e aspirações absolutamente cruciais para a resolução duradoura dos conflitos”. Mas, apesar de resoluções das Nações Unidas nesse sentido, as mulheres continuam a ser uma minoria nesses processos de pacificação.

Tão pouco deve ser deixado apenas às facções beligerantes a resolução dos conflitos. Deve reconhecer-se “a força do diálogo entre múltiplos intervenientes” e devera haver “uma percentagem de mulheres sentadas à mesa das negociações formais”.

Graça Machel, que enquanto estudante viveu em Lisboa num lar da Igreja Presbiteriana, à qual pertencia, sublinhou também a responsabilidade dos líderes religiosos em apontar caminhos para milhões de pessoas: devem assumir um papel de “portadores da paz”, afirmou, permitindo que as instituições religiosas sejam “plataformas de diálogo” e ajudem a “pôr fim aos conflitos”. “Aqueles de quem procuramos orientação espiritual” devem recusar “as ideologias que fomentam a desigualdade, a divisão e a destruição e, em vez disso, nos orientem para a empatia, a compaixão e a aceitação mútua”, concluiu.

O vídeo das sessões plenárias do primeiro dia de trabalhos do Fórum pode ser visto no canal YouTube do Kaiciid:

 

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