O patriarca de Lisboa considera que o aumento dos estrangeiros em Portugal não coloca em causa a matriz cristã da sociedade portugueses, criticando ao mesmo tempo os católicos que são contra os imigrantes, por desrespeitarem os ensinamentos de Cristo.
Em entrevista à agência Lusa na sexta-feira, 16, reproduzida por vários meios de comunicação nesse dia e no sábado, 17 (entre os quais o Público, o Expresso, a Rádio Renascença e a TSF), Rui Valério salientou que o catolicismo e a cultura cristã são “forte promotor da mentalidade universalista” e a presença de muitos imigrantes de outras religiões não diminui o cariz cristão e católico dos valores morais da sociedade portuguesa: “Essa tal matriz a que se refere está no coração das pessoas e não é isso que está em questão.”
Sobre o discurso contra os imigrantes, protagonizado por muitos que se dizem católicos e de movimentos conservadores, Rui Valério recordou que “o próprio Cristo se identificou como peregrino e como estrangeiro”, citando o Evangelho: “Eu era peregrino e estrangeiro e vós me recolhestes, eu tive fome e deste-me de comer, eu estava no hospital e fostes-me visitar, eu estava na prisão e vós viestes em meu auxílio”, recordou o patriarca de Lisboa, sublinhando que a diocese deve estar unida nesse sentimento de ajuda ao próximo e aos mais pobres, imigrantes ou nacionais.
No final de 2024, Portugal passou a ter 1,5 milhões de estrangeiros a residir do país, um aumento que criou problemas sociais e novas divisões, a par do crescimento da intolerância, admitiu o prelado.
“O fenómeno da imigração apanhou-nos a todos de surpresa e não fomos preparados para ele”, considerou Rui Valério, apontando “falta de preparação por um lado no acolhimento e, por outro, na preparação de nós próprios”, enquanto sociedade.
O patriarca dá o exemplo da sua freguesia natal, Urqueira (Ourém), quando vê a presença de “irmãos e irmãs de outros países, de outras tradições, com outros hábitos de rezar e de viver a sua fé “ e olha para o comportamento dos seus conterrâneos.
“A população estava devidamente preparada para isso?”, pergunta. “Provavelmente não estava”, responde, embora recusando que o facto justifique ou legitime “fenómenos de intolerância, que são inadmissíveis, ou aqueles fenómenos de exploração vergonhosa do trabalho de imigrantes”.
Reconhece que a imigração é um “fenómeno complexo”, mas, “numa perspetiva cristã e evangélica, nunca nós podemos deixar de tratar o outro, seja ele quem for, como um irmão ou como uma irmã”, acrescentou.
Contudo, o aumento dos imigrantes não coloca em causa a fé da sociedade portuguesa, porque o cristianismo “existe, medra, desenvolve-se, acontece em todos os quadrantes, em todos os países, em todas as tradições, ao contrário de, provavelmente de outras [religiões] que são mais referidas a determinados contextos ou costumes”.
Sobre os imigrantes de outras religiões em Portugal, Rui Valério saudou a convivência e o respeito que têm pela fé católica, dando o seu próprio exemplo pessoal, quando contacta com essas comunidades, em ocasiões em que participa na distribuição de comida a pessoas carenciadas nas ruas de Lisboa. Muitos crentes de outras religiões “olham para mim e vêm pedir a bênção”, exemplificou, salientando que tem ouvido muitas histórias pessoais.
“A principal dificuldade é a legalização, encontrar documentos”, num processo de exclusão social em que se confundem com os portugueses mais pobres, que também enfrentam o aumento galopante do custo de vida.
“A tarefa pastoral da Igreja é ser ela própria uma comunidade de encontro que promove o encontro”, disse ainda Rui Valério.
Líderes mundiais imaturos

Trump e Putin num encontro em Helsínquia, em 2018: “Há da parte de alguns líderes de superpotências uma vontade explícita de fazer a guerra”, diz o patriarca de Lisboa. Foto © Casa Branca/Flickr
O patriarca de Lisboa acusou ainda alguns dos líderes mundiais mais poderosos de serem imaturos e de quererem fazer a guerra, promovendo uma corrida ao armamento que coloca em causa a paz mundial e o equilíbrio das nações.
“Há da parte de alguns líderes de superpotências uma vontade explícita de fazer a guerra e, portanto, quando é assim, dificilmente chegamos a um acordo”, afirmou na mesma entrevista Rui Valério, que subscreve “linha por linha” a posição do Papa Leão XIV sobre o tema.
“Quando ele nos fala de uma paz desarmada e de uma paz desarmante, ele quer contrariar exatamente esta cultura do armamento exacerbado”, afirmou o antigo bispo das Forças Armadas portuguesas.
Rui Valério disse ainda que “guerras geram guerra, ódio gera ódio e armamento gera a vertigem de uma paz armada que está apenas a adiar um conflito iminente de uma guerra iminente”.
Embora dizendo compreender a corrida ao armamento por parte dos países, para, “de certa forma, travar o adversário”, esse mesmo oponente “só se deixa travar porque tem medo da resposta que pode receber” e não porque deseja a guerra.
A tensão mundial tem subido de tom após a invasão da Ucrânia pela Rússia, as mortes em Gaza ou a recente captura do chefe de Estado da Venezuela pelos EUA, cujo Presidente tem ameaçado derrubar, pela força, governos no Irão e Cuba, bem como invadir a Gronelândia.
“No capítulo da vontade, de facto, eu constato que na origem de todos estes conflitos existe vontade de fazer a guerra. Não venham cá com outra conversa”, acusou Rui Valério, esperando que as tradições humanistas de muitos desses países venham a despertar a consciência das respetivas sociedades, porque “fazer guerra só provoca mais guerra, só provoca destruição”.
Para Rui Valério, alguns dos líderes mundiais – que nunca nomeia – correspondem a “gente não resolvida, gente que não amadureceu: são pessoas que não cresceram, que ficaram numa fase de desenvolvimento muito ali à beira da adolescência” e “têm de resolver qualquer coisa dentro delas”, pelo que usam o discurso bélico e a guerra para “afirmar as suas personalidades”.
Papa Leão terá decisão final no Sínodo

O Papa Francisco no ecrã de participantes do Sínodo sobre a sinodalidade, em Outubro de 2023: a sua “personagem singular” foi inspiradora e reforçou o diálogo da Igreja com o mundo, que Leão XIV continuará, diz o patriarca. Foto © António Marujo/7MARGENS.
Na entrevista à Lusa, o patriarca de Lisboa prometeu também que a sua diocese irá sempre cumprir as decisões do Papa no final do processo sinodal, um mecanismo de consulta das comunidades católicas para discutir temas como a participação dentro da Igreja, mas também outros que dividem opiniões no interior da Igreja, como a ordenação de mulheres, o fim do celibato obrigatório dos padres ou o papel dos divorciados.
Evitando falar diretamente sobre algumas dessas questões polémicas, Rui Valério remeteu para Leão XIV a decisão final quanto ao processo sinodal, assegurando a fidelidade total a Roma.
O patriarca recorda que o sínodo é também um regresso à “dimensão missionária da Igreja em ordem a uma renovação que passa pela evangelização” da sociedade. Por isso, recusa reduzir o papel da Igreja ao discurso político e às suas reações.
E é esse foco na evangelização permanente que faz com que a Igreja continue a ser escutada, “porque é uma voz que continua a ter substância e que continua a ter a capacidade de inspirar uns e outros”
Nesse sentido, a “personagem singular” do Papa Francisco foi inspiradora e reforçou o diálogo da Igreja com o mundo contemporâneo, um legado que Leão XIV está a continuar, considerou.
“A palavra da Igreja é uma palavra universal, uma palavra que tende a iluminar o homem como homem, independentemente das suas particularidades ideológicas”, acrescentou Rui Valério.










