Clero de Lisboa “surpreendido”

Patriarca terá falado com o Papa na possibilidade de sair

| 6 Ago 2022

Patriarca de Lisboa. Manuel Clemente.

Uma eventual renúncia do patriarca anteciparia em cerca de dois anos a sua saída: Foto © Diana Quintela, cedida pela autora.

 

O cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, pode ter colocado ao Papa a possibilidade de deixar o cargo, tendo em conta a pressão social e o descontentamento de muitos católicos à volta da questão dos abusos, o escrutínio mediático que está a ser feito e o facto de estarmos a um ano da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em Lisboa, no início de Agosto do próximo ano.

Nesta análise coincidem vários responsáveis do Patriarcado de Lisboa ouvidos pelo 7MARGENS, que se manifestaram surpreendidos com a notícia da audiência que o patriarca teve na manhã desta sexta-feira, 5 de Agosto, com o Papa Francisco, a pedido do bispo de Lisboa, de acordo com o que diz o comunicado. Está em causa, dizem os responsáveis ouvidos, a possibilidade de a situação se agravar à volta de D. Manuel. Seria preferível, nesse quadro, antecipar a saída e deixar que fosse o eventual sucessor a preparar a JMJ e a receber o Papa em Lisboa.

Conhecidos que são os trâmites da Igreja Católica e do Vaticano, sabe-se que uma audiência como a desta sexta-feira não surge de um dia para o outro. Ela pode ter sido pedida já na semana passada, depois de conhecida a notícia do Observador, segundo a qual o actual patriarca teria pedido para se encontrar, em 2019, com uma vítima de abusos denunciados há 30 anos, sem que tenha tomado quaisquer medidas depois de ter estado com a pessoa. Em causa, defendeu Manuel Clemente numa inédita “carta aberta”, esteve o facto de a própria vítima ter pedido silêncio sobre o caso e de os crimes de que ela teria sido vítima há 30 anos já terem prescrito.

Outro dos casos vindos a público esta semana, desta vez por iniciativa do próprio Patriarcado, foi o de um padre acusado de violação. Finalmente, já na noite desta sexta-feira, o Telejornal da RTP noticiou que, em 2003, o então reitor do Seminário dos Olivais e bispo auxiliar de Lisboa, hoje cardeal Clemente, teria pressionado líderes dos escuteiros a demitirem-se, depois de estes terem apresentado queixa contra o padre Inácio Belo, que já tinha sido transferido de outra paróquia, por acusações de abusos. Inácio Belo deixou entretanto o ministério, tendo-se ligado a um pequeno grupo anglicano sediado em Espanha, que a Igreja Lusitana/Comunhão Anglicana não reconhece.

No comunicado desta sexta-feira, o Patriarcado diz que o encontro do patriarca com o Papa Francisco decorreu “num clima de comunhão fraterna e num diálogo transparente sobre os acontecimentos das últimas semanas que marcaram a vida da Igreja em Portugal”.

Alguns dos responsáveis ouvidos pelo 7MARGENS lêem na expressão “diálogo transparente” a hipótese de a renúncia prematura do patriarca ter sido também tema de conversa, a par das informações que o patriarca levou ao Papa sobre o que se passa em Lisboa. E a questão da JMJ é decisiva, recorda um dos responsáveis: o Vaticano “não quer ser surpreendido por uma espiral descendente à medida que se aproxima” a realização da Jornada, diz.

Mesmo que o patriarca não pondere sair, para já, ou que o Papa não queira que isso aconteça no imediato, perante os dados disponíveis, um tal quadro não seria inédito: o cardeal Philippe Barbarin, arcebispo emérito de Lyon (França), acusado de não ter dado importância a acusações de abusos sexuais, mas que seria depois ilibado pelo tribunal, acabou por pedir ao Papa para deixar o cargo.

Uma eventual renúncia do patriarca anteciparia em cerca de dois anos a saída do cardeal: Manuel Clemente completa 75 anos em 16 de Julho do próximo ano, a duas semanas do início da JMJ, mas já em plena fase de realização de múltiplas actividades em todo o país, no âmbito da designada pré-Jornada. Quando completam os 75 anos, os bispos têm de pedir ao Papa a resignação, segundo as regras canónicas. Mas no caso dos cardeais, é habitual o Papa pedir ao bispo que fique no cargo mais um ano ou dois. Por isso, neste caso, a eventual saída de D. Manuel anteciparia em cerca de pelo menos dois anos o que seria o curso normal dos acontecimentos. Além disso, retiraria a D. Manuel o protagonismo de uma Jornada para cuja realização em Lisboa ele teve, a qual, claramente, um papel decisivo.

 

Bispos Gilberto dos Reis e Manuel Felício também visados em notícias
bispo emerito setubal gilberto dos reis foto diocese de setubal

O bispo emérito de Setúbal, Gilberto dos Reis, teve, segundo o Expresso, conhecimento de queixas de abusos sexuais por parte de um padre na diocese e não reportou às autoridades competentes. A diocese contesta o “encobrimento”. Foto © Diocese de Setúbal.

A audiência do patriarca Clemente com o Papa aconteceu num dia preenchido por notícias relacionadas com a questão dos abusos sexuais na Igreja.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, recebeu durante a tarde a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra Crianças na Igreja portuguesa e fez questão de falar aos jornalistas no final da audiência, tendo lançado um apelo a todas as vítimas para que apresentem as suas denúncias e testemunhos.

Em declarações aos jornalistas no final do encontro, o Presidente elogiou o trabalho da Comissão Independente, que diz ter “um papel fundamental de desbloquear um tema na sociedade e na Igreja portuguesa” e estar a fazer um “trabalho que prepara a intervenção da justiça”, que se deverá seguir numa próxima fase e que deverá ser acompanhada e célere.

Para Marcelo, a Comissão Independente tem, também, “o papel de ajudar a Igreja a fazer o seu percurso em termos de mentalidade”. “Todos percebem que uma instituição só ganha com a verdade e a transparência”, sublinhou, defendendo que a única forma de a sociedade e as instituições progredirem é “anteciparem-se ao apuramento da verdade e da transparência. Se não o fizerem vão apodrecendo e morrendo, pensando que estão vivas”.

Depois de, na semana passada, ter desvalorizado a polémica em torno de patriarca de Lisboa, afirmando que, a título pessoal, não considerava que a hierarquia da Igreja tivesse tido intenção de ocultar qualquer crime da justiça, o chefe de Estado admitiu agora que a Igreja portuguesa terá de “retirar consequências” quando for feito o “apuramento integral da verdade”.

Também esta sexta-feira, o jornal Expresso noticiava (num artigo exclusivo para assinantes) que o bispo emérito de Setúbal, Gilberto Canavarro dos Reis, teria tido conhecimento de queixas de abusos por parte de um padre e não as comunicou nem à Polícia Judiciária nem ao Ministério Público (as autoridades civis com competência para investigar este tipo de crimes), sendo que o padre em causa se encontra ainda no ativo.

A diocese de Setúbal reagiu com um comunicado, onde informa que se fez, entre 2008 e 2015, uma investigação canónica a um padre diocesano, motivada por queixas de abuso sexual de menores. “O processo canónico foi organizado pelo bispo diocesano à data dos acontecimentos, tendo sido ouvidas todas as partes envolvidas, ou seja, o alegado perpetrador e as alegadas vítimas”, adianta o comunicado.

Enquanto decorreu a investigação canónica, o visado esteve suspenso de funções. Contudo, “após a conclusão do processo, o decreto emanado pela Santa Sé ilibou o padre e permitiu que voltasse a exercer o seu ministério, com o ofício de pároco”, justifica a diocese.

Expresso refere, citando uma fonte judicial, que o bispo Gilberto Canavarro dos Reis, bem como o cardeal Manuel Clemente e o bispo da Guarda Manuel Felício, não foram os únicos altos responsáveis a não dar seguimento às queixas que receberam de menores, e que pelo menos algumas delas estão a ser investigadas pelo Ministério Público depois de a Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa as ter recebido.

 

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