Artista morreu aos 87 anos

Paula Rego, as histórias que continuam

| 8 Jun 2022

estudio de paula rego foto wikimedia commons Dinkydarcey

Estúdio de Paula Rego, fotografado em 2007. “Há historias à espera de serem contadas e que nunca o foram antes.” Foto  © Wikimedia Commons Dinkydarcey.

 

As múltiplas notícias sobre a morte de Paula Rego publicadas na imprensa internacional servem para dar conta da riqueza da singular obra que a pintora nos lega. “‘She is dancing among the greats’: the dangerously honest, richly ambiguous Paula Rego”, titula o diário britânico The Guardian. O francês Le Monde prefere destacar uma referência às suas pinturas figurativas, “frequentemente inspiradas em histórias, designadamente em lendas do folclore português, em mitos e em contos de fadas”. Às múltiplas facetas que agora estão a ser referidas, acrescentar-se-ão novos ângulos que o tempo ajudará a descobrir.

Ana Gabriela Macedo, autora de Paula Rego e o Poder da Visão (1), chamou a atenção para “a irredutível complexidade com que Paula Rego urde toda a sua obra, criada como ela gostosamente diz, a partir do seu ‘teatro interior’, dizendo-nos numa piscadela de olho que pintar nada mais é que ‘entrelaçar’ e ‘entrelaçar é como fazer tricô’. Nada mais simples ou, dir-se-ia, mais prosaico…”

Numa das entrevistas que Paula Rego concedeu, em Londres, a Ana Gabriela Macedo, a artista explicou eloquentemente: “O meu tema é a minha história, a história que eu tenho para contar e a minha maneira de a contar”.

A originalidade da obra de Paula Rego encontra-se, dito de outro modo, num desígnio assinalado pela artista numa conversa com Melanie Roberts (2), que Ana Gabriela Macedo cita: “Há historias à espera de serem contadas e que nunca o foram antes. Têm a ver com tudo aquilo sobre o que jamais se ousou tocar – a experiência das mulheres”.

A propósito de um conjunto de exposições de Paula Rego realizadas entre 2018 e 2020 em França, Inglaterra e Portugal, a autora de Paula Rego e o Poder da Visão assinalou no JL aquilo que designou por “carácter ético da pintura de Rego”. É ele que acentua “os paradoxos, as tensões e o inconformismo, em detrimento do absurdo e do grotesco, que demasiadas vezes é apressadamente assinalado na sua obra, como se esta de um vazio se ocupasse”. Como se notava no texto que acompanhava a exposição de Paris, que Ana Gabriela Macedo destacava, Paula Rego procede a uma “reinvenção da pintura”, manifesta “numa obra que desafia os cânones contemporâneos, ao propor uma estética ‘formidavelmente figurativa’, empenhada em ‘dizer o mundo de hoje, através de uma incisão cruel e justa’” (3).

Histórias. Fascinantes histórias. Sobre elas, Ana Gabriela Macedo recordou um antigo texto de Salette Tavares: “Cada quadro de Paula Rego é uma história que co-existe com o quadro, que foi fabricada com ele.  Ela está presente nele. O código não é generalizável, a decifração é quase impossível. Ela quer que o quadro subsista em si mesmo, partido, separado da história. Mas quadro e história surgiram concomitantemente. Quadro estructurado, história estructurada. Ler o arbitrário, ou confessional, ou o permutacional semântico, mesmo ligado a razões de interpretação analítica, é errar completamente. Paula constrói o quadro, constrói a história. (…) Se ouvirmos ela contar o seu quadro, a revelação de uma dimensão nova surge – a história está implícita no quadro – o quadro existe sem ela, ou seja, a história, sendo essência nele, não é precisa para que o quadro real apareça” (4).

Paula Rego recebeu abundantes distinções, como, por exemplo, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e com a Ordem do Império Britânico com o grau de Oficial, pela sua contribuição para as artes. A artista foi considerada uma das 25 mulheres mais influentes de 2021 pelo jornal Financial Times. O Turner, em 1989, foi um dos vários prémios que recebeu.

(1) Lisboa, Cotovia, 2010
(2) From the Interior. Female Perspectives on Figuration, 1997
(3) Cécile Debray, curadora, e Scarlett Reliquet, programadora cultural do Museu d’Orsay e Orangerie
(4) “A Estructura semântica na obra de Paula Rego”(sic). Expo AICA, SNBA 1974

 

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