Em inícios de maio de 2026, em Isiro (nordeste da República Democrática do Congo), começámos a receber notícias inquietantes. Os ‘rebeldes’ conseguiam driblar ou mesmo derrotar o exército nacional, em localidades situadas a Leste. Ao longo da N26, atacaram e raptaram uma dezena de jovens comerciantes, que regressavam a Isiro nas suas motos carregadas de mercadorias. Recontros entre os rebeldes e o Exército eram assinalados cada vez mais perto de Mungbere, a 138 quilómetros.
No regresso vitorioso de um desses combates a Mungbere, os soldados deram-se à bebedeira. Um deles matou a tiro um companheiro de armas. Espalharam o boato de que os rebeldes é que o tinham matado, mesmo ali no centro da vila. Reação: boa parte da população de Mungbere fugiu para Leste, em direção às vilas mineiras do ouro ou, para ocidente, para Isiro.
Em 26 de maio, temendo a grande concentração de militares, os terroristas, pelos caminhos das florestas, evitam Mungbere, e surgem em Difolu, na N26, já a 12 quilómetros a leste de Mungbere e a 126 quilómetros de Isiro. Regam de gasolina e queimam completamente um grande camião carregado de produtos alimentares para os armazéns de Isiro, matam dois homens e ferem outro (o catequista), incendeiam a capela católica e tentam fazer o mesmo ao posto médico.
Este acontecimento teve enorme repercussão em todas as aldeias das florestas e da savana. Os fugitivos de Difolu alertam toda a gente. Quem foge de moto faz a notícia correr célere, mesmo para aldeias afastadas da Estrada Nacional. Ndúbala, já a 12 quilómetros de Difolo e primeira aldeia da paróquia de Santa Ana, a cargo dos Combonianos de Isiro, esvaziou-se. Gerou-se um tsunami de gente a fugir, cada mais numerosa, aflita, dia e noite: “Era uma da madrugada”, conta emocionada dona Isabel. “Quem vinha de Sálando (a 35 quilómetros de Isiro), já empurrada por quem vinha de Pengue (45), assustada pelos que fugiam de Difolu, Ndúbala (115), Gao (90), gritava-me ‘dona Isabel, fuja, não fique aí. Eles vêm aí!… A minha filha pegou no bebé e em pouca coisa e fugimos… Era uma gritaria, na estrada. Imensas crianças choravam, cansadas, os pés inchados, esfomeadas e com sede… Todos fugiam porque os outros fugiam, era impossível verificar o que quer que fosse…”
Chegaram a Isiro na madrugada do sábado, 30 de maio…
Uma missa de campanha

Sacos de ajuda para quem chega: “A grande maioria vem das comunidades do território da nossa paróquia.” Foto © Claudino Gomes.
O governo da província do Alto-Úele improvisou o acolhimento nas instalações de um complexo escolar, para o fim de semana. No domingo, dia 31, fui lá… Falo com a polícia e os funcionários da Divisão da Ação Humanitária e Solidariedade Nacional (DAHSN). Entrego alguns sacos de arroz e volumes de sabão, primeira ajuda da paróquia. Visito muitas salas (de aula), cheias de mães com uma infinidade de crianças. Homens e jovens, no exterior, em corrilhos, conversam. A grande maioria vem das comunidades do território da nossa paróquia. Apresento-me a todos. Quero que saibam que os seus pastores estão com eles. Do lado deles, idêntica alegria: “Senhor padre, eu conheço-o”, exclama, sorridente, uma senhora. Sou de Zakuda!” , a 20 quilómetros. “Padre, você batizou-me, em Netenvo!” (102 quilómetros), acrescenta um miúdo, que reconheço, dos encontros de preparação para o batismo.
Com carteiras da sala reservada à polícia, improvisamos um altar, no meio da grande esplanada da escola. Missa de campanha. Era impressionante unirmos as nossas vozes na oração, no canto, na proclamaçao da Ressurreiçao de Jesus, força da nossa luta por um mundo mais irmão, fonte da nossa esperança… Acabavam de deixar tudo, literalmente. Sem saber se ou quando poderão voltar.
Nos primeiros dias de julho, a situação agrava-se. O exército declarou uma extensa área como zona de intervenção militar, que os civis devem abandonar. Em Betongwe, Maboma, 40 quilómetros a sul de Mungbere, aos combates, com mortos de ambos os lados e entre os civis, somam-se casas incendiadas, minas anti-pessoal espalhadas nas pistas do mato – um coronel morreu pela explosão de uma –, raptos de adolescentes, que, na floresta profunda, serão transformados em combatentes rebeldes… e mais cortejos de fugitivos.
A maioria encontrou guarida nas casas de familiares. A família alargada africana, embora afetada por imensos problemas e crises, mostra aqui o rosto lindo da hospitalidade e solidariedade. Muitas famílias acolheram dez, quinze e mais de vinte refugiados internos. Mas a onda atual de deslocados a chegar tem menos familiares em Isiro. Vão para o Centro de Acolhimento de Góssamu e para as paróquias católicas e protestantes, que puseram as suas instalações ao dispor.
A ajuda e o futuro

“Nuvens” de crianças, em fuga com as suas mães. Foto © Claudino Gomes.
Esta Paróquia, situada na periferia Leste de Isiro e confiada aos Missionários Combonianos, estende-se até Ndúbala, a 113 quilómetros, e Élimba, a 124 quilómetros para norte, a partir de Gao. Todas as suas comunidades foram esvaziadas pela grande onda de pânico gerada a Leste. A quem chega, é dado imediato acolhimento na paróquia, sem qualquer pergunta sobre a pertença religiosa. Cada pessoa em situação de fragilidade é, para nós, Jesus, que acolhemos, nela.
No quarto dia, um responsável do Grupo ‘Amor pelos Pobres’ anunciou ter encontrado 70 pessoas comprimidas num pequeno espaço, nas vizinhancas. A paróquia abriu portas. São de Nekpiri, uma das nossas comunidades, a cerca de 80 quilómetros, no interior. Gente de Maboma procura a paróquia, também. Aberta para além das possibilidades, ela é vista como porto de paz. Neste momento, em princípios de julho, os nossos hóspedes são uns 150: “Santa Ana é a nossa Paróquia. Nós somos seus filhos… Ajudem-nos!”, exclamam.
Aos ‘internos’, a paróquia tem garantido alojamento em salas cobertas, alimentação, roupa e assistência médica (nisto, com a colaboração da DAHN). As famílias que acolheram muitos deslocados depressa viram as suas capacidades decrescer. Por isso, a paróquia, aproveitando da rede das suas 15 Comunidades Eclesiais de Base existentes nos bairros, elaborou um esquema de ajuda pontual a essas famílias: feijão, arroz, sal, sabão consoante o número de deslocados acolhidos. Perto de 2.800 pessoas puderam assim beneficiar de uma atenção. Entretanto, o dinheiro dado pela DAHN acabou. A ajuda não pode continuar, se outros benfeitores não vierem em nosso socorro. Precisamos de ajuda urgente e de longa duração.
A fome e as doenças não são os únicos problemas a enfrentar. É preciso dar força à alma, ferida pelo medo e a fuga, encorajar quem se vê sem sem campos e sem casa, queimada, ajudar a lobrigar uma luz na treva da violência. Desde as primeiras chegadas, celebramos a santa missa no meio deles, todos os domingos, no Centro de Acolhimento de Góssamu, gerido pelo Governo Provincial. A presença de Jesus Ressuscitado, vencedor das dinâmicas de morte e desespero, dá brilho aos olhos esmorecidos e gera fraternidade, na tribulação: “Vinde a Mim, vós todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu sou o vosso repouso… Vinde à minha escola!”
Verificámos ser possível aproveitar deste tempo de imprevista paragem para se cultivar pessoalmente. Encontros de formação bíblica e litúrgica para animadores de comunidades cristãs, formação psicológica para ajudar a gerir o medo e as suas consequências; atualidade política nacional e Direitos Humanos. Na mira, está também formação para as numerosas mães jovens, rodeadas de nuvens de crianças. Nós, por exigência de humanidade e da nossa fé e vocação missionária, decidimos ficar com este Povo, ao qual fomos enviados como dom do Coração de Jesus Cristo.
O futuro

O autor com mães e crianças refugiadas: “isto é só o começo!” Foto: Direitos reservados
Nuvens sombrias escurecem o horizonte longínquo, nesta Província do Alto Úele. Olhamos para o que acontece na Província vizinha, o Kivu-Norte, onde a guerra da AFDL/NALU, de obediência “islâmica” e prática terrorista (e que vários indícios apontam estar agora em ação, aqui) dura há mais de 12 anos, com milhares de mortos. Perante tal quadro, declaram os ‘nossos’ deslocados: “Padre, isto é só o começo!”.
Claudino Ferreira Gomes é padre católico, dos Missionários Combonianos e trabalha em Isiro, República Democrática do Congo.
Padre Clémy Mikozama: porque não fugimos?

Clémy Mikozama: “Somos pessoas, temos medo, mas a nossa presença é um sinal de esperança.” Foto: Direitos reservados
O padre Clémy Mikozama, pároco de Mungbere, originário do Congo-Brazaville e também membro da congregação dos Missionários Combonianos, responde à pergunta do padre Claudino Gomes “porque não fugimos?”
Somos pessoas humanas! Como tal, também temos medo. Não obstante, sabíamos que se ficássemos, a nossa presença em Mungbere seria um grande sinal de esperança. Por exemplo, o facto de tocarmos o sino para a missa, de manhã, era um sinal forte para os cristãos, mesmo tendo ficado poucos, um pequeno resto de Israel, diríamos. Ouvir as badaladas do sino da igreja paroquial fazia e faz-lhes sentir que há vida! A vida continua e Deus está a proteger-nos.
Na comunidade, os missionários refletimos: como comunidade comboniana, como vamos fazer? Cada um disse o que pensava. E, como comunidade, todos comungámos numa decisão única: nós ficamos com estes irmãos e irmãs que cá ficaram.
Constatámos ter medo, perguntávamo-nos: Vamos dormir, mas como acordaremos? Mas as pessoas diziam-nos: Padre, se vocês se vão embora, que vai ser de nós? Essas palavras ajudaram-nos muito mesmo…
Outra coisa que nos ajudou a decidir ficar foi a boa qualidade da nossa vida em comunidade. A fraternidade que existe entre nós deu-nos força. E encorajamo-nos uns aos outros a vivermos esta hora de sofrimento com fé forte.
Nós damos graças a Deus que nos ajuda e nos protege.










