Paz, esperança e diálogo inter-religioso na viagem histórica do Papa ao Iraque, “berço da civilização” e “terra abençoada e ferida”

| 5 Mar 21

A viagem do Papa ao Iraque que se inicia esta sexta-feira, 5, é histórica por várias razões: é a primeira de um líder católico ao país e à “terra de Abraão”, é a primeira de Francisco depois do início da pandemia, inclui o primeiro encontro com um líder muçulmano xiita e a primeira celebração num rito caldeu. E é, sem dúvida, a mais perigosa em termos de segurança. Ou, corrigindo, uma das mais interessantes…

O Papa quer levar ao Iraque “o carinho afectuoso de toda a Igreja.” Foto: Crianças iraquianas a agradecer pinturas oferecidas por crianças australianas. © ACN-Portugal.

 

Uma viagem para ajudar a propor dinâmicas de pacificação numa sociedade devastada pela guerra, incentivar ao diálogo inter-religioso e peregrinar ao “antigo e extraordinário berço da civilização”, que é o Iraque. Ali se pode dizer que se iniciou a história bíblica, com Abraão, o patriarca de judeus, cristãos e muçulmanos. Nesta que é a sua 33ª viagem fora de Itália e a primeira desde o início da pandemia, o Papa Francisco não deixará também de apelar fortemente a que os cristãos regressem às casas, cidades e país de onde muitos fugiram.

Francisco “entrou” no Iraque já nesta quinta-feira, dia 4 (embora só aterre nesta sexta às 11h de Lisboa na capital iraquiana) com uma mensagem gravada em vídeo e dirigida aos iraquianos. Apresentando-se como “peregrino penitente”, “peregrino de paz” e “peregrino de esperança”, afirmou: “Vou como peregrino, como peregrino penitente, para implorar perdão e reconciliação do Senhor depois de anos de guerra e terrorismo, para pedir a Deus consolo para os corações e cura para as feridas.”

E que feridas! Invasão dos aliados ocidentais liderados pelos Estados Unidos, em 2003, contra o regime do então Presidente Saddam Hussein, fortemente contestada pelo então Papa João Paulo II; um clima de guerra civil entre muçulmanos xiitas e sunitas que se seguiu à derrota de Saddam; revoltas no Curdistão, que há muito luta pela autonomia e independência; o aparecimento do auto-designado Estado Islâmico (Daesh), a reboque da guerra na Síria, que ocupou importantes zonas do território – sobretudo na planície de Nínive, onde residia a maior parte dos cristãos, intensamente perseguidos por aquele grupo.

Pelo meio disso, um enorme êxodo dos cristãos do país: em 2003, antes da invasão pelos militares dos EUA e aliados ocidentais, havia cerca de 1,4 milhões; hoje, eles serão cerca de 250 mil, praticamente 1/6 do que eram há menos de duas décadas.

“Sinto-me honrado por encontrar uma Igreja mártir: obrigado pelo vosso testemunho”, diz o Papa na sua mensagem, dirigindo-se especificamente aos cristãos. “Quero levar-vos o carinho afectuoso de toda a Igreja, que está solidária convosco e com o Médio Oriente atormentado e vos anima a prosseguir.”

 

“Sois todos irmãos, uma única família”
Curdistão, Iraque, JRS, Irene Guia, Refugiados

Hoshang Farooq, muçulmano de Qadish, Amedi, no Curdistão (esqª), da equipa do JRS no Curdistão, com dois outros colegas cristãos (2017 em Araden). Foto © Irene Guia

 

A mensagem retoma o lema desta viagem, retirado de uma frase do Evangelho segundo Mateus: “Vós sois todos irmãos.” “Sim, vou como peregrino de paz mendigando fraternidade, animado pelo desejo de rezarmos juntos e caminharmos juntos, incluindo os irmãos e irmãs doutras tradições religiosas, sob o signo do pai Abraão que reúne numa única família muçulmanos, judeus e cristãos”, afirma Francisco.

A ideia da fraternidade completa-se com a referência do Papa aos yazidis, um dos grupos mais massacrados pelo Daesh: “Nestes anos, muito pensei em vós; em vós que tanto sofrestes, mas não vos deixastes abater. Em vós, cristãos, muçulmanos; em vós, povos… como o povo yazidi, os yazidis que sofreram tanto, tanto; sois todos irmãos, todos. Agora vou à vossa bendita e ferida terra como peregrino de esperança.”

O Papa manifesta ainda o desejo de há muito encontrar os iraquianos, ver os seus rostos e visitar uma terra que é um “antigo e extraordinário berço de civilização”. No programa da viagem, incluem-se quer a região de Ur da Caldeia, a sul, de onde saiu Abraão, quer a planície de Nínive, a norte – onde existiram grandiosos palácios e a fabulosa Porta de Ishtar (divindade local do segundo milénio antes de Cristo), hoje exposta no Museu Pérgamo, em Berlim. A região tem como capital a cidade de Mossul, uma das mais martirizadas pelo Daesh, conforme já foi descrito num trabalho do jornalista José Manuel Rosendo publicado no 7MARGENS.

“Em Nínive, ressoou a profecia de Jonas, que impediu a destruição [da cidade] e levou uma nova esperança, a esperança de Deus. Deixemo-nos contagiar por esta esperança, que anima a reconstruir e recomeçar”, afirma o Papa na mensagem.

Referindo-se ainda ao sofrimento do país, invoca por duas vezes a figura de Abraão: “Não nos rendamos à vista do mal que se difunde: as antigas fontes de sabedoria das vossas terras apontam para outra direcção, isto é, para fazer como Abraão que, apesar de deixar tudo, nunca perdeu a esperança; e, confiando em Deus, deu vida a uma descendência numerosa como as estrelas do céu. Queridos irmãos e irmãs, contemplemos as estrelas. Nelas, está a nossa promessa.”

Ao concluir, refere ainda: “Milénios atrás, Abraão começou o seu caminho; hoje cabe a nós continuá-lo, com o mesmo espírito, percorrendo juntos os caminhos da paz! (…) E a vós todos peço para fazerdes o mesmo que Abraão: caminhar na esperança e nunca deixar de contemplar as estrelas.”

 

Terrorismo e pandemia, riscos ponderados

Há riscos na viagem, que Francisco quis manter depois de já ter estado prevista por duas vezes: : o terrorismo, que não largou ainda o país viagem, e que leva a severas medidas de segurança (10 mil agentes nas ruas); e a pandemia, num momento em que os números crescem de novo, depois de terem estado em queda entre meados de Outubro e meados de Janeiro. Os últimos dados (de dia 3, quarta-feira) registavam 5.173 novos casos e 25 mortos.

Apesar das críticas de alguns especialistas à realização da viagem, o próprio Papa não queria adiá-la de novo. As medidas de segurança foram garantidas, defende o Vaticano, com a limitação do acesso a lugares de encontro público e as deslocações de Francisco a serem feitas por via aérea. E, sobretudo, o Papa não queria “decepcionar segunda vez” os iraquianos: em 1999-2000, João Paulo II quis visitar o país, mas os Estados Unidos desaconselharam e disseram que não havia condições de segurança, acabando Saddam por vetar a viagem.

Na sua mensagem, o Papa também se refere às circunstâncias actuais: “Nestes duros tempos de pandemia, ajudemo-nos a reforçar a fraternidade, para construir juntos um futuro de paz; juntos, os irmãos e as irmãs de cada tradição religiosa”, diz.

A propósito, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, afirmou que o importante é que os iraquianos possam acompanhar Francisco pela televisão e “saber que o Papa está ali por eles, levando uma mensagem de que é possível ter esperança mesmo em situações mais complicadas”. Citado pelo Crux, acrescentou que os riscos foram medidos e que era necessário que os iraquianos sintam o acto de amor do Papa. E, a avaliar pelos testemunhos recolhidos pela irmã Irene Guia, que trabalhou no Curdistão com refugiados e publicados há dias pelo 7MARGENS, muitos iraquianos estarão sintonizados com esta perspectiva.

 

Encontro com Ali Sistani e uma liturgia em caldeu
Ali al-Sistani, Iraque, islão, xiita

O ayatollah Ali al-Sistani (esqª), líder dos muçulmanos xiitas do Iraque, com o ayatollah Al-Khoi. Foto: Faizhaider/Wikimedia Commons

 

Pode dizer-se que o programa tem três etapas distintas, uma por dia: esta sexta-feira será o dia político e institucional: primeiro-ministro, Presidente da República, autoridades e corpo diplomático e, finalmente, bispos, religiosos e catequistas; sábado é para os encontros inter-religiosos; domingo será para os mártires: cristãos, yazidis, curdos… Uma oração pelas vítimas da guerra e uma visita à comunidade de Qaraqosh na catedral da Imaculada Conceição, em fase de reconstrução, são os dois actos simbólicos marcantes, além da missa em Erbil. O regresso a Roma está previsto para segunda-feira de manhã.

No sábado, destaca-se o encontro com o grande ayatollah Ali Sistani, 91 anos, líder espiritual dos muçulmanos xiitas iraquianos, a maioria no país (cerca de 64 por cento, o dobro dos muçulmanos sunitas). O Papa vai de Bagdad expressamente para Najaf, encontra-se com Ali Sistani em sua casa e parte, de novo em avião, para Nassiriya. Aqui, na planície de Ur, decorre um encontro inter-religioso, com cristãos de várias denominações, judeus, muçulmanos sunitas e xiitas, yazidis…

Estes dois únicos pontos da agenda de sábado, antes da missa em Bagdad, são uma forma de abrir mais um canal de diálogo entre cristãos e muçulmanos: há dois anos, Francisco encontrou-se com o imã sunita Al Tayyeb, do Cairo, com quem assinou a Declaração sobre a Fraternidade Humana – que o Papa desenvolveu na sua encíclica Fratelli Tutti, publicada em Outubro. Agora, com Ali Sistani, Francisco alarga aos xiitas as possibilidades de diálogo entre as duas grandes tradições religiosas do mundo.

A missa que Francisco presidirá em Bagdad, sábado às 15h (hora de Lisboa) será celebrada em rito caldeu. No domingo, em Erbil (13h de Lisboa) haverá também textos em caldeu, curdo e árabe e ambas terão limitações de acesso e podem ser acompanhadas através da rede vídeo do Vatican Media. Estes detalhes revelam também a importância do reconhecimento das fortes tradições cristãs espirituais, litúrgicas e teológicas daquela região do mundo.

O porta-voz do Vaticano resumiu o significado e importância destes quatro dias de alto risco do Papa Francisco: “Eu não entraria numa competição sobre as viagens mais arriscadas, mas diria que esta é certamente uma das mais interessantes.”

 

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