Pecadores impenitentes e pequenas epifanias

| 5 Dez 18

Claudio Magris, Instantâneos
Lisboa: Quetzal, 2018
Tradução de Sara Ludovico

É a fotografia que empresta o título ao mais recente livro editado em Portugaldo escritor italiano Claudio Magris. Ele socorre-se, aliás, do Grande Dicionário da Língua Italiana para, logo no início de Instantâneos, explicar que o instantâneo é “obtido com um tempo de exposição muito curto, sem recurso a outros suportes”. A atenção do escritor dirige-se, pois, para pequenos acontecimentos quotidianos, susceptíveis de oferecer uma concisa reflexão ética, uma moralidade breve.

O tom dos cerca de cinquenta textos breves nunca é doutrinário e a ironia é frequente – como quando, por exemplo, conta uma história passada em Nova Iorque, na Galeria de Leo Castelli. Para contestar uma sentença judicial que condenou um artista por obscenidade, os quadros da exposição que a galeria apresenta estão cobertos por um pano preto. A certa altura, conta Claudio Magris, uma jovem, desconhecendo as marcas de protesto, vai olhando atentamente para esses panos pretos – “afasta-se e aproxima-se para observar melhor” – que parecem agradá-la e convencê-la.

Assaz divertida é também a história protagonizada por “um ilustre matemático dedicado a inalcançáveis estudos ultraespecializados” que foi dar um curso ao Collège de France. Tem sempre a sala cheia. Tal parece incompreensível pois aquilo que diz é imperceptível. A assistência não é, todavia, do género da jovem da exposição nova-iorquina, agradada e convencida, mas não vale a pena antecipar aqui a razão do sucesso do matemático.

Embora os dois exemplos citados se tenham localizado em Nova Iorque e Paris, é na Trieste natal, ou nos seus arredores, que o escritor testemunha grande parte dos episódios descritos nos instantâneos. É o caso da missa pascal em Aurisina, uma localidade situada no planalto do Carso, na zona de Trieste, que oferece a Claudio Magris um pretexto para falar do “pecado de azedume”. Socorre-se de Máximo, o Confessor, teólogo e mártir cristão do século VII, para, com ele, afirmar “que a taciturnidade e a tristeza escondem por vezes um rancor consciente ou inconsciente”. Recorda o escritor que “as grandes fés religiosas conhecem bem o abismo da dor, o suor de sangue do desespero, mas não se demoram neles, antes amam a alegria: a serenidade budista, a letícia franciscana, o Vidente de Lublin, um santo hebraico-oriental, que gostava de pecadores impenitentes porque esses, apesar das quedas, conservavam intacta a alegria”.

Como muito bem assinalava o diário Corriere della SeraInstantâneos oferece ao leitor “pequenas epifanias quotidianas que iluminam o presente”.

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