Pecadores nas mãos de um Deus infinitamente amoroso

| 14 Set 20

É sobejamente conhecido um famoso sermão que Jonathan Edwards pregou no dia 8 de Julho de 1741. O sermão tinha por tema “Pecadores nas mãos de um Deus irado” e estava em curso o chamado Primeiro Grande Avivamento pietista que atingiu a então colónia britânica de Nova Inglaterra em meados do século XVIII e que se espalhou pela civilização norte-americana ocidental. Jonathan Edwards, talvez considerado por muitos um dos maiores filósofos norte-americanos, era também conhecido pela sua teologia reformada calvinista e pelo trabalho missionário que desenvolveu entre os nativos norte-americanos.

O sermão, típico das grandes pregações de avivamento dessa altura, enfatizava o ensino da real existência do Inferno que, à semelhança da imagética usada por Dante n’A Divina Comédia, era um lugar indescritivelmente horrível pleno de fogo e enxofre, o lugar da vingança terrível de Deus para os pecadores que, desde a eternidade, estava predestinado desde sempre para o sofrimento eterno. Dizem os seus biógrafos que, mesmo não sendo Edwards um bom orador, a meio do sermão houve pessoas que choravam e que clamavam avidamente por arrependimento, enquanto outros se agarravam às colunas da igreja quase como se estivessem a ser engolidos pelo fogo do inferno.

Sem entrarmos aqui na análise detalhada do sermão, aliás demasiado extenso, podemos desde já fazer uma breve leitura da imagem que Edwards tinha acerca de Deus. Este Deus é um Deus distante, extremamente irado, limitado aliás por uma justiça meramente abstrata. Anselmo de Cantuária, na sua famosa obra Cur Deus Homo e lançando as bases para uma das teorias de expiação que mais influenciaram o pensamento teológico medieval e até reformado, postulava que o pecado do homem insulta e ofende a honra de Deus, cujo reparo jamais poderá satisfazer infinitamente a Sua honra e cuja justiça jamais poderá fazer vistas grossas contra infinita ofensa.

A teologia reformada irá refinar melhor esta ideia de reparação de honra levando-a para o plano forense. Jesus é punido na cruz a fim de satisfazer as demandas de justiça de um Deus que não consegue perdoar as ofensas das Suas próprias criaturas. Os reformadores irão mesmo postular que a própria morte salvífica de Jesus irá beneficiar tão-somente uns poucos eleitos em detrimento da grande maioria, cujo destino será o sofrimento eterno no lago do fogo que arde para todo o sempre.

Talvez o sermão pudesse ser reformulado à real imagem daquilo que Deus verdadeiramente é. E se, ao invés de centrarmos o nosso pensamento na ideia de estarmos nas mãos de um Deus irado, nos lançarmos nos braços de um Deus infinitamente amoroso? O autor da primeira Carta de João declara enfaticamente que “Deus é amor” (I João 4:8), deixando desde já bastante claro que a Sua real e verdadeira essência é o amor. Significará isso que todos os outros atributos de Deus, como a justiça e santidade sejam relegados para segundo plano? Como conciliar a ideia de um Deus que se define totalmente como sendo amor com a de um Deus justo e santo?

Uma análise profunda ao tema da “Justiça de Deus” através das Sagradas Escrituras seria demasiado longa para poder ser aqui exposta e discutida, mas a justiça, tal como é vista por muitos exegetas, é muitas vezes apresentada como punitiva, destrutiva e aniquiladora; mas também pode ser entendida como reparadora e restauradora.

Os profetas do Antigo Testamento deixam-nos uma imagética de um Deus que, à semelhança do oleiro, peneira e amassa o barro, que o molda e o aquece numa fornalha de fogo (Jeremias 18:1-6). Deus também é visto como um ourives que refina o Seu povo como a prata e o ouro através do fogo (Zacarias 13:9; Malaquias 3:3). As escrituras hebraicas sempre enfatizaram a noção de restituição e restauração, não de vingança ou punição. A restituição era vista como uma maneira de acertar as coisas. Se a propriedade fosse roubada, a propriedade devia ser devolvida; se algum dano fosse causado a uma casa ou ao campo de alguém, a pessoa responsável pelo dano devia repará-lo.

Cristo e o Abade Mena, ou ícone da amizade; ícone copta do século VI, hoje em exposição no Museu do Louvre.

 

Mais tarde, no Novo Testamento, Jesus rejeita vigorosamente essa noção de vingança ou destruição quando afirma enfaticamente: “Ouviram o que foi dito ‘olho por olho’. Mas eu lhes digo, façam o bem a quem vos prejudicar.” (Mateus 5: 38-42). Todo o ensino de Jesus aponta claramente que a justiça deve ser sempre fundamentada nos princípios do perdão e da reconciliação. Era essa a compreensão e imagem que Ele tinha acerca do Seu Pai, de pastor que, perdendo uma ovelha, não descansa enquanto não a encontra, uma mulher que perdendo uma moeda não descansa enquanto não a encontra, de um pai que não deixa de olhar para o horizonte enquanto não vê o seu filho perdido, correndo loucamente para o abraçar (Lucas 15:1-31). É esse o Pai de Jesus, um Deus infinitamente consumido pelo amor por seus filhos.

Precisamos de mudar essa imagem distorcida do nosso pai, de um Deus irado para um Deus de amor. Ele é certamente justo, mas a Sua justiça jamais precederá o Seu amor. Certamente que Ele exercerá a Sua justiça sobre os Seus filhos, mas o fará para nos refinar de todas as nossas imperfeições a fim de que sejamos feitos à imagem de Jesus (1 João 3:2).

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.

 

Novo Pacto para as Migrações: Igrejas reconhecem “boas intenções”, mas continuam “muito preocupadas”

Novo Pacto para as Migrações: Igrejas reconhecem “boas intenções”, mas continuam “muito preocupadas” novidade

Depois de terem emitido um comunicado em que diziam “esperar melhor da Europa e dos seus líderes” em relação à política de acolhimento de migrantes e refugiados, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), a Conferência das Igrejas Europeias (CEC) e a Comissão das Igrejas para os Migrantes na Europa (CCME) fizeram questão de entregar o texto em mãos, na passada sexta-feira, 25 de setembro, na sede da Comissão Europeia, em Bruxelas. Recebidos por Vangelis Demiris, membro do gabinete da vice-presidente da comissão, Margaritis Schinas, os representantes das igrejas cristãs em todo o mundo disseram acreditar que há espaço para melhorias no novo Pacto para as Migrações e Asilo apresentado pela Comissão Eurorpeia a 23 de setembro.

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Breves

“Basta. Parem estas execuções”, pedem bispos dos EUA a Trump

O arcebispo Paul Coakley, responsável pelo comité de Justiça Interna e Desenvolvimento Humano na conferência episcopal dos EUA (USCCB), e o arcebispo Joseph Naumann, encarregado das ações pró-vida no mesmo organismo, assinaram esta semana um comunicado onde pedem , perentoriamente, ao presidente Donald Trump e ao procurador-geral William Barr que ponham fim às execuções dos condenados à pena de morte a nível federal, retomadas em julho após uma suspensão de quase duas décadas.

ONGs lançam atlas dos conflitos na Pan-Amazónia

Resultado do trabalho conjunto de Organizações Não Governamentais (ONGs) de quatro países, o Atlas de Conflitos Socioterritoriais Pan-Amazónico será lançado esta quarta-feira, 23 de setembro, e irá revelar os casos mais graves de violação dos direitos dos povos da região, anunciou a conferência episcopal brasileira.

Papa apoia bispos espanhóis para ajudar a resolver estatuto do Vale dos Caídos

O Papa Francisco recebeu os novos responsáveis da Conferência Episcopal Espanhola, com quem falou sobre o papel da Igreja Católica no apoio aos mais pobres e mais fragilizados pela pandemia e sobre dois temas que esta semana estarão em debate nas Cortes de Espanha: eutanásia e lei da memória histórica, com o futuro do Vale dos Caídos em questão.

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Boas notícias

Sea-Watch 4 resgata 104 migrantes no Mediterrâneo

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O Sea Watch 4 resgatou, de manhã cedo, neste domingo, 23 de Agosto, 97 pessoas que viajavam a bordo de uma lancha pneumática sobrelotada, já depois de ter salvo outras sete pessoas noutra lancha. A presença do navio desde há dias no Mediterrâneo central, é fruto da cooperação entre a Sea Watch, os Médicos Sem Fronteiras (MSF) e a Igreja Protestante alemã, que promoveu uma campanha de recolha de fundos para que ele pudesse zarpar.

É notícia

Mais de 220 milhões de crianças são vítimas de exploração sexual

No Dia Internacional contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Pessoas, assinalado esta quarta-feira, 23 de setembro, as Missões Salesianas alertaram para o facto de existirem atualmente no mundo mais de 150 milhões de meninas e 73 milhões de rapazes vítimas de exploração sexual, ou obrigados a manter relações sexuais sem o seu consentimento. Outros dois milhões de menores são ainda vítimas de tráfico para fins de exploração sexual, de acordo com a Organização Internacional de Trabalho. Para combater esta “forma de escravidão do século XXI”, os Salesianos têm em marcha projetos de educação e prevenção em diversos países, nomeadamente na Nigéria, Índia e Gana.

Cardeal Tolentino recebe o hábito dominicano

O cardeal José Tolentino Mendonça vai receber o hábito dominicano, no próximo dia 14 de novembro, no Convento de São Domingos, em Lisboa. A iniciativa surgiu da Ordem dos Pregadores (nome pelo qual são conhecidos oficialmente os dominicanos), devido à amizade de longa data que os une ao cardeal e ao reconhecimento da sua forte identificação com o carisma dominicano. “Foi um convite que lhe fizemos e ele aceitou de imediato por se identificar com o carisma de São Domingos, e deu-se a feliz coincidência de, quando ele foi feito cardeal, ter ficado titular da igreja de São Domingos e São Sisto, em Roma. Ele próprio assumiu nesse dia a sua ligação aos Dominicanos”, recordou frei Filipe Rodrigues, mestre de noviços e dos estudantes à agência Ecclesia.

Padre polaco acusa cardeal Dziwisz de encobrir abusos de menores

O padre polaco Isakowicz-Zaleski divulgou no seu blogue pessoal a carta que terá entregue em mãos ao cardeal Stanislaw Dziwisz, arcebispo de Cracóvia, em 2012, na qual denunciava a prática de atos de pedofilia por parte de um outro padre, Jan Wodniak. Zaleski acusa Dziwisz de ter encoberto tais atos, o que o levou a traduzir a carta para italiano e enviá-la, um ano depois, diretamente à Congregação para a Doutrina da Fé, no Vaticano. Wodniak viria a ser condenado em 2014. Dziwisz diz nunca ter recebido a carta de Zaleski.

Justiça angolana encerra todos os templos da IURD no país

No mesmo fim de semana em que foram retomados os cultos religiosos em Luanda, suspensos desde março devido à pandemia de Covid-19, a justiça angolana iniciou um processo de encerramento e apreensão de todos os templos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) no país. Desde novembro do ano passado que a IURD tem estado envolvida em diversas polémicas em Angola. Em agosto, a Procuradoria-Geral da República tinha já apreendido sete templos em Luanda, no âmbito de um processo-crime por alegadas práticas dos crimes de associação criminosa, fraude fiscal e exportação ilícita de capitais.

Entre margens

A trama invisível da cidadania e o valor de educar

“Em Ersília, para estabelecer as relações que governam a vida na cidade, os habitantes estendem fios entre as esquinas das casas, brancos ou pretos ou cinzentos ou pretos e brancos, conforme assinalem relações de parentesco, permuta, autoridade, representação. Quando os fios são tantos que já não se pode passar pelo meio deles, os habitantes vão-se embora: as casas são desmontadas; só restam os fios e os suportes dos fios.”

Cultura e artes

Encarnando o irmão Luc

Michael Lonsdale era, naquele final do dia, em Braga, o irmão Luc, assim dando corpo e espírito ao monge com o mesmo nome que foi assassinado na Argélia, em 1996. E é inesquecível a sua participação no filme Dos Homens e dos Deuses, que evoca a vida dos monges do mosteiro argelino de Tibhirine, sete dos quais (Bruno, Célestin, Christian, Cristophe, Michel, Paul, além de Luc) raptados e assassinados por um grupo de islamitas.

Michael Lonsdale: “Gostaria de morrer tranquilamente. Em Deus sobretudo”

Um dos mais fascinantes actores franceses, Michael Lonsdale morreu na passada segunda-feira, 21. Uns lembrar-se-ão de ele ter sido o vice-cônsul de Lahore no filme India Song, de Marguerite Duras, outros não ignorarão o facto de ele se ter empenhado em fazer a vida negra a James Bond. Mas Michael Lonsdale participou em filmes de Truffaut, Malle, Buñuel, Spielberg e outros realizadores não menos relevantes.

Sete Partidas

A reunião de trabalho

A reunião de trabalho convocada pela chefe chegou sem surpresa. Mais uma entre tantas. Comparecemos todos. Através do ecrã, a expressão no rosto e o tom da voz denotavam, no entanto, uma intenção outra. Um assunto especial. Havia efectivamente um assunto especial a abordar. Abertamente. Uma autenticidade sem pudor marcou o tom da conversa. Um cuidado humilde e generoso revelado sem condicionamentos.

Aquele que habita os céus sorri

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