Pecados em quarentena

| 15 Mar 21

Máscara, Pandemia, Miguel Veiga

“Cada vez é mais necessário pôr as ideias de quarentena”. Foto © Miguel Veiga.

 

Qual será “um dos oito pecados mortais do homem civilizado”? Para o psicólogo Konrad Lorenz é o doutrinamento – a par da entropia do sentimento, sobrepovoamento, devastação do ambiente, competição do homem contra ele próprio, decadência genética, corte da tradição e armas nucleares.

(Nota: Utilizo a palavra doutrinamento para traduzir o inglês indoctrination e o francês endoctrinement. Em português, têm surgido as formas endoutrinamento, endoutrinação, termos que eu desconhecia até começar a escrever sobre o assunto. Prefiro doutrinamento como forma mais simples e mais portuguesa, além de mais de acordo com o sentido etimológico do sufixo mento – reflexão mental).

Também há pandemias que atacam os assuntos mais sérios, destruindo a seriedade e independência com que deles devemos falar. E exigem cuidados especiais muito intensivos, quando está em jogo a formação de espírito crítico nas novas gerações e o esforço de darmos o exemplo: chamando bom ao que justificadamente consideramos bom e mau ao que justificadamente ajuizamos ser mau.

Para tanto, cada vez é mais necessário pôr as ideias de quarentena (“ao menos uma vez cada ano”…). E os actos nascidos tanto delas como da divinizada (e bem!) liberdade de expressão. Digo “e bem!” porque a plena liberdade de expressão só poderia ser atribuída a um ser divino (não esqueçamos que “divino” significa “luminoso”). Mas pensando nós Deus como o “totalmente outro” e eternamente desconhecido, cabe-nos aproveitar as descidas funestas para melhor subir a encosta que nos leva cada vez mais alto – cada vez mais ansiosos por descobrir o que o próximo pico esconde. Bem precisamos de quem nos anime a “nós pecadores”, mas conscientes de que “pecado” tem o sentido primordial de mancar, falhar, revelando o sentido geral de inferioridade (presente nos vocábulos pé, pior, péssimo…). Não é, pois, uma expressão condenatória, mas sim um aviso de que a vida anda um tanto emaranhada.

Somos por natureza “animais sem fronteiras”. E por isso, temos que pôr em quarentena ideias e planos – para que a empresa Razão, Imaginação & Sentimento se deixe orientar pelos sinais do próprio deserto – a maravilha das dunas facilmente nos atrai a um erro fatal. Não pode avançar quem fica agarrado à “sua” liberdade de expressão.

Acontece que esta liberdade se tem vindo a confundir com o atraente ruído dos carros de alta cilindrada conduzidos por quem dá mais valor ao barulho do que ao objectivo da viagem (se é que há) e para quem os outros só valem pela força dos seus gestos e gritos de aclamação.

No segundo quartel do séc. XX, o biólogo Edward O. Wilson pronunciava lapidarmente: “Os seres humanos são absurdamente fáceis de doutrinar – até o desejam! Preferem mais acreditar do que conhecer.”

 

Perigo iminente
Novas teconologias, computador, pessoas, comunicação

“Sempre que se analisam situações de transmissão, comunicação… aparece o doutrinamento como perigo iminente.”  Foto © Miguel Veiga.

 

O verbo doutrinar, de que deriva, tem o sentido comum de “instruir numa doutrina, ensinar, instruir, catequizar”. Por sua vez, doutrina é vulgarmente definida como “conjunto de princípios em que se baseia uma religião ou um sistema político ou um sistema filosófico”; e ainda “erudição, norma, disciplina, instrução, modo de pensar, catequese religiosa”.

Contudo, sempre que se analisam situações de transmissão, comunicação… aparece o doutrinamento como perigo iminente. E de facto, a pessoa que fala ou expõe (e tradicionalmente num estrado) dispõe de situação propícia para valorizar o que vai dizendo, preocupando-se mais com “vender” a sua opinião do que com a procura da verdade. É o doutrinamento no mau sentido: imposição das ideias (de um educador, de um gestor, de um político, de um sacerdote…) a todo o custo, eliminando as possíveis razões contrárias.

Por isso, se os ouvintes não utilizam a força da razão de que dispõem, caem na atitude acrítica de permeabilidade à informação, descansando sobre a força ou autoridade alheia.

O sentimento, muito embora possa ter um papel preponderante no conhecimento, próximo da intuição, facilmente induz a aceitar como racionalmente válido aquilo que não passa de apresentação atraente: a estética, a arte, o encadeamento das ideias, a beleza e imponência de um universo ordenado… não raro usurpam o lugar de uma análise cuidada, paciente, imparcial (virtudes da razão). A própria objectividade só merece um pedestal se cumpre a exigência racional de ser submetida a contínua fundamentação, persistente e honesta (sem a qual não haveria progresso científico). As técnicas fraudulentas abundam nas demagogias.

Que há conteúdos mais facilmente doutrináveis, é notório: a política, a religião, a estética, a própria história… e sempre que o sentimento ou interpretação subjectiva têm lugar relevante. Quem queira impor as suas teorias elaborará um brilhante “curto-circuito” de coerência racional, que levará muito a peito defender. Mas quem procura a verdade é consciente de que essa “sólida estrutura” só é verdadeira na medida em que for reconhecida como provisória: caminhamos sem fim para a Verdade – que orienta o nosso desejo e o cuidado em pesar o valor dos passos que damos.

É natural e normal encontrar uma instituição ou alguém, cujos conhecimentos e sabedoria são justificadamente reconhecidos (atenção: não se trata de diplomas!), de tal modo que nos sentimos dependentes dessa força e autoridade. O perigo surge quando esse alguém me quer vencer, mesmo sem convencer. Nesse caso, dá-se um “encanto” da mensagem sobre a força da razão ou da análise crítica. As técnicas de persuasão ou de publicidade são disso exemplo.

 

Marca da nossa limitação
Sínodo dos Bispos. Amazónia. Indígenas

“O que interessa, para o ‘missionário’, é que os outros o escutem e se convertam às ideias que lhes são anunciadas”. Foto: Indígenas no Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia. © Arlindo Homem

 

Seja dito, assim, que a situação de doutrinamento é característica do ser humano, é a marca da nossa limitação como seres racionais. A comunicação não é transparente, mas a consciência do limite já nos liberta, interiormente, do próprio limite. Por outro lado, pela análise da situação, encontraremos o melhor caminho para a verdade.

Diz-se também que é natural a qualquer tipo de militante defender acaloradamente as suas ideias e ser até “missionário”. E de um militante comunista que fale de religião, ou de um católico que fale de comunismo, não só não se acha natural como será de desconfiar. Provavelmente, esta suspeita assenta num velho instinto de precaução. Situações concretas como estas, e em todos os níveis, podiam multiplicar-se.

Estamos perante a problemática da “missionação”, onde se podem conjugar a fidelidade a certos conteúdos e a repulsa para com outros.

Todo o homem pode ser “missionário” no sentido em que toma consciência de que deve anunciar algo de importante. A certeza do missionário é fruto da vivência da unidade entre a verdade e o bem. Ganhou a consciência de que lhe compete (aqui pode inserir-se o sentido religioso de chamamento) realizar-se segundo um certo modelo (ideal concretizado), que é simultaneamente a sua forma de se situar no mundo humano e realizar uma obra com influência nesse mundo.

O que interessa, para o missionário, é que os outros o escutem e se convertam às ideias que lhes são anunciadas. Ideias tão importantes que devem ficar bem vincadas, de tal modo que não sejam facilmente destruídas por ideias contrárias. Todas as dúvidas serão demolidas – e oxalá que a arte de o fazer não inclua violência. As próprias razões contrárias serão “convertidas”, sofismadas até, ganharão novo sentido e reforçarão a sua mensagem. Quanto às ideias perigosas, afastá-las-á em bloco, fugindo a qualquer análise honestamente racional.

Atenção, porém, a que existem muitos missionários genuinamente bem-intencionados, apaixonados por ideias dignas da maior consideração. A técnica usada – a de doutrinamento – é que pode deitar tudo a perder.

De qualquer maneira, dá-se uma limitação da capacidade crítica do ouvinte, correlativa, aliás, à visão limitada do “missionário”. Pior será, se o ouvinte se “converter” porque “lhe dá jeito”.

Reconheçamos os nossos pecados e guardemos a quarentena…

 

Manuel Alte da Veiga é professor aposentado do ensino universitário

 

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