Modos de envelhecer (10)

“Peço a Deus que me ajude a guardar este meu passatempo preferido: ler e escrever”

| 20 Mai 2024

Vivemos em sociedades em que o envelhecimento é olhado muitas vezes como um problema económico, tanto para os estados como para as famílias, de abandono e da quebra de laços que têm como consequência a destruição de redes de solidariedade e de suporte que foram apoio durante a vida ativa. Na verdade, o envelhecimento daqueles e daquelas que nos precederam põe à prova a nossa humanidade enquanto sociedade e enquanto indivíduos.

O 7MARGENS iniciou a publicação de depoimentos de idosos recolhidos por José Pires, psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Publicamos hoje o décimo depoimento do total de vinte e cinco. Pode ler aqui os depoimentos já publicados. Informamos que tanto o nome das pessoas como as fotografias que os ilustram são da inteira responsabilidade do 7MARGENS.

 

Maria Olímpia, 75 anos

Comecei a envelhecer, após a minha reforma, já lá vão quase 10 anos (tenho 75 anos).
Durante 40 anos de estadia em França, a trabalhar sempre na Educação Especializada com jovens em situação de risco e futuras mães adolescentes, onde terminei a minha carreira laboral.

Já tinha o projecto de regressar às minhas raízes, a Portugal, para poder envelhecer com uma certa qualidade de vida que não encontrava em França.
Apesar dos meus 4 filhos e 7 netos continuarem a viver lá longe, não hesitei em voltar para viver a minha velhice na terra que me viu nascer.
Claro que já não sinto aquela energia, devido a um grave problema de saúde que me afectou durante 5 anos, para poder continuar a viajar entre Portugal e França a fim de os visitar nas festas de aniversários. Fui moderando as minhas viagens , aguardando as férias deles para virem a Portugal me visitar.
Não gostaria de ir viver para um Lar Sénior onde não existam actividades, passeios, clubes de leitura, ateliers de escrita criativa, de cozinha, de pintura, de ginástica, visitas a Museus,  folclore, grupo coral (mesmo desafinado…) para nos recordar e fazer trabalhar a nossa memória etc.
Seria também interessante para aquelas pessoas que ainda têm saúde mental, essa possibilidade de saírem, uma vez por outra da Instituição: darem um passeio com um amigo ou parente,  sentir que  ainda podem ir ao cinema ,  ver as montras,  assistir a uma festa sem um (profissional  “guarda-costas” ) do Lar.

Já fui visitar Lares, ou melhor, “Hotéis para Séniores” em França, e o que vi não me agradou nada. Ver naquela bela tarde de sol a maioria dos utentes sentados silenciosamente nas poltronas de veludo (uns a dormir), certamente muito confortáveis mas todos com um ar tão triste em frente a uma ou duas televisões  e nenhum profissional a animar ou a comentar o documentário que estavam a ver ! Lá fora no jardim o pessoal a fumar e a discutir os horários, as faltas às reuniões…

Aqui em Portugal, fui durante 3 anos , uma vez por semana, com uma amiga visitar o seu marido, que estava doente com Alzheimer num Lar Paroquial numa aldeia cá do Norte. Assisti várias vezes a festas de aniversário e admirei o trabalho, a empatia com os idosos mais necessitados do pessoal que se ocupava deles. Não era somente a ouvir o “Terço” ao final da tarde…Havia música e bailaricos nas festas de aniversário dos utentes. Quando ouvi há pouco tempo uma amiga que foi trabalhar para outro Lar na mesma região e que me contou que ficou escandalizada com o que viu ao ponto de não querer voltar lá nem mais um dia, apesar de querer muito trabalhar num Lar de Idosos! Estava a ajudar um velhinho a comer a sopa e como ele demorava muito, a empregada que estava a orientar a minha amiga, disse-lhe:
– Deita a sobremesa  (era gelatina) na sopa para ele engolir mais depressa !!!
Imagino que a falta de pessoal ou de meios (?) sejam os motivos que levam a estas tristes situações infelizmente.

Eu gostaria, se um dia vier a precisar de ir para um Lar, que tivesse muitas actividades diversas como a possibilidade de jardinar e de participar nos atelieres de leitura para aqueles velhinhos que já não pudessem ler, ouvir um conto, ou um capitulo de um antigo clássico como As pupilas do Sr Reitor etc.. De certeza que viria a interessar alguns utentes para exercitarem a suas memórias e porque não criar um “jornal” com frases, ideias, sugestões, quadras (alguns velhinhos têm uma memória espantosa, eu que o diga!). Era assim que eu desejava envelhecer num Lar dinâmico e inovador se fosse preciso.

Entretanto, peço a Deus que me ajude a guardar este meu passatempo preferido: Ler e escrever as minhas crónicas das quais fui testemunha durante a minha actividade profissional em Paris.

 

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Estou na Calábria com vista para a Sicília e o vulcão Stromboli ao fundo. Reunião de Coordenadores das Redes Internacionais do Graal. Escolhemos reunir numa propriedade de agroturismo ecológico, nas escarpas do mar Jónio, da antiga colonização grega. Na Antiguidade, o Mar Jónico foi uma importante via de comércio marítimo.

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