Abusos sexuais na Alemanha

Pedido de resignação do cardeal Marx: significados de um gesto histórico

| 7 Jun 21

O cardeal Marx a celebrar a eucaristia: o seu pedido de resignação foi um choque. Foto © FDI2 / Pixabay

 

A surpreendente demissão do cardeal Reinhard Marx das funções de arcebispo de Munique e Freising, na Alemanha, nesta sexta-feira, 4, provocou, compreensivelmente, uma onda de choque nos meios eclesiais. Ficará muito provavelmente como um marco, no processo local e global de enfrentamento do escândalo dos abusos sexuais na Igreja Católica.

O 7MARGENS deu a notícia e dá, agora espaço às reações e comentários desencadeados pelo gesto radical deste poderoso cardeal próximo do Papa Francisco, não sem antes dizer quem é o ex-presidente da Conferência dos Bispos Católicos Alemães e sublinhar os principais pontos da carta dirigida ao Papa.

 

Quem é o cardeal Marx

Reinhard Marx nasceu na Alemanha em 21 de setembro de 1953. Foi nomeado bispo pelo Papa João Paulo II, em 1996, e feito cardeal por Bento XVI em 2010. Encontra-se desde 2007 à frente da Arquidiocese de Munique e Freising, um lugar que já foi ocupado por Joseph Ratzinger, que viria a ser o Papa Bento XVI.

Nesta quase década e meia, ocupou diversos cargos de alto nível. Na Alemanha foi presidente da Conferência Episcopal até 2020, e presidiu também à Comece (Comissão dos Bispos da União Europeia). No Vaticano, entre outras responsabilidades, dirige a Comissão de Economia e, sobretudo, é membro, desde 2013, do Conselho de Cardeais (C6) que assessora o Papa Francisco na reestruturação da Cúria.

Porquê este surpreendente pedido de resignação

A carta de resignação dirigida ao Papa data de 21 de maio, ainda que só tenha sido dada a conhecer, com autorização de Francisco, em 4 de junho; incide apenas sobre as responsabilidades deste cardeal como arcebispo.

– O seu pedido tem um sentido preciso: “É importante para mim – escreve Marx – compartilhar a responsabilidade pela catástrofe do abuso sexual cometido por responsáveis da Igreja nas últimas décadas.” É certo que o que se tem vindo a saber revelou, de forma consistente, “muitas falhas pessoais e erros administrativos”. Mas revelou igualmente “falhas institucionais ou “sistémicas” em cuja responsabilidade compartilhada “alguns membros da Igreja se recusam a acreditar”. Isso significa, para o ainda arcebispo, que esses membros não assumem que “a Igreja enquanto instituição também deve ser responsabilizada pelo que aconteceu”, pelo que desaprovam “a discussão de reformas e renovação no contexto da crise dos abusos sexuais”.

– Em suma, e aqui está a diferença de posicionamento e o alcance do gesto de demissão, o cardeal Marx entende que é crucial considerar, na resposta ao escândalo dos abusos, os dois aspetos: a responsabilização pessoal de quem cometeu ou encobriu os abusos, por um lado, e “a falha institucional que requer mudanças e uma reforma da Igreja”, por outro lado. “O ponto de inflexão desta crise só é, em minha opinião, possível se seguirmos um “caminho sinodal (…), um caminho que realmente permita um ‘discernimento dos espíritos’”, faz notar o bispo alemão.

– Explicitando mais: é manifestamente insuficiente que os bispos se remetam à posição de dizer que os abusos já aconteceram há muito tempo ou que se lidou com o assunto da forma que foi considerada a mais adequada. Assim como não basta ser transparente, deixar as comissões vasculhar os arquivos (quando eles existem). Não se pode “enterrar” deste modo o que aconteceu.

– Num tom mais confessional, o bispo escreve ao Papa: “Sinto que, por permanecer em silêncio, negligenciando as ações e focalizando excessivamente a reputação da Igreja, me tornei pessoalmente culpado e responsável. Só a partir de 2002 e ainda mais a partir de 2010, as pessoas vítimas de abusos sexuais foram colocadas em primeiro plano de forma mais consequente e essa mudança de perspetiva ainda não foi concluída. Ignorar e desconsiderar as vítimas foi certamente o nosso maior defeito no passado.”

– Resignar é, assim, “um sinal pessoal para um novo começo, para um novo despertar da Igreja, não apenas na Alemanha” e uma forma de “expressar essa disposição de assumir responsabilidades”, já que “não é o ministério [que] está em primeiro plano, mas a missão do Evangelho”.

Reinhard Marx Foto © Klaus D. Wolf/Erzbischöfliches Ordinariat München

O cardeal Marx pretende dar o exemplo, mesmo sem ter sido diretamente implicado nos casos de abusos relatados no seu país. Foto © Klaus D. Wolf/Erzbischöfliches Ordinariat München

Qual o contexto e enquadramento

Ainda que a carta do arcebispo ao Papa coloque no centro das atenções a insuficiência da resposta “sistémica” da Igreja ao problema dos abusos, cabe notar que ela abre com um quadro de situação que sublinha a crise que vive a Igreja Católica na Alemanha.

Com motivos e facetas que são locais mas também da Igreja no seu todo, o olhar projetado sobre as últimas décadas levou o autor a construir a impressão de que ela se encontra hoje num “ponto morto” ou “beco-sem-saída”, ainda que a sua “esperança pascal”, o leve a achar que “também tem potencial para se tornar num “ponto de viragem”.

Como é sabido, os bispos alemães encomendaram em anos recentes estudos independentes dos arquivos eclesiásticos que proporcionaram já resultados globais, mas que continuam a correr em algumas dioceses. Este tema, que originou um forte abalo na Igreja alemã, é um dos motivos do Caminho Sinodal que começou a ganhar forma naquele país, e que tanta polémica tem dado, nomeadamente com alguns responsáveis do Vaticano. Se a carta do cardeal tem de ser lida à luz do Sínodo alemão, o inverso também será de se considerar.

Como tem sido interpretada a decisão do cardeal Marx?

A entrevista onde o cardeal anuncia a decisão foi recebida como “uma surpresa” e um “ato de coragem” e, por alguns meios de comunicação laicos, como um gesto espetacular e até como um “tremor de terra” para a Igreja.

Se as reações são em geral positivas ou de compreensão, os verdadeiros destinatários ou “alvos” do pedido de resignação não são coincidentes. Ficam aqui quatro exemplos de leituras bastante diversas.

Robert Mickens, um especialista em assuntos do Vaticano, escreveu este fim-de-semana na sua “Carta de Roma” do La Croix International, que, se o Papa Francisco vier a aceitar a resignação de Reinhard Marx, de imediato uma série de outros prelados, da Alemanha e não só, ficarão sob pressão para seguirem o mesmo caminho. A força da atitude de Marx reside no facto de ele ser talvez um dos altos hierarcas da Igreja Católica que, desde 2010, mais tem batalhado por medidas a favor das vítimas e de mudança das estruturas que produziram a vitimização. Se, ainda assim, ele entendeu resignar, que farão tantos outros colegas do episcopado que se limitaram a fazer o que Roma ordenou ou que pura e simplesmente esperaram que a tempestade passasse?

Um colunista deste mesmo jornal, Massimo Faggioli, fez notar quão alta foi posta a fasquia com este gesto cardinalício. Até porque, como observa um outro jornalista e vaticanista sénior, John C. Allen, do Crux, “Marx é visto como um importante prelado ocidental que empresta peso intelectual e político à agenda do Papa”.

Allen prefere ver a questão pelo lado das normas e das lógicas com que estes casos costumam ser tratados. Ora, diz ele, “a maneira como Marx apresentou a sua renúncia, insistindo que os líderes da igreja devem assumir responsabilidade não apenas pela sua conduta pessoal, mas também pelos fracassos corporativos para os quais contribuíram, é uma expressão perfeita da pressão por responsabilidade que tem estado no cerne do esforço de reforma”. Daí a dúvida: Francisco pode manter Marx no seu posto, tendo o gesto produzido já os seus efeitos, ou pode aceitar a resignação, atendendo ao alcance do mesmo gesto e ao muito que a Igreja tem ainda a esperar do seu autor.

Uma leitura que vai numa direção mais crítica é a de Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e profundo conhecedor da realidade alemã, numa entrevista publicada no diário Avvenire. Para ele, o significado do gesto o arcebispo de Munique é difícil de compreender. O aspeto mais inteligível, do seu ponto de vista, é que “talvez ele queira desencadear uma mudança radical na classe dirigente episcopal” do seu país. Contudo, estamos aqui perante “um gesto problemático, num contexto já de si muito problemático”, observa Riccardi. É que, além da questão dos abusos sexuais de crianças, na sua leitura, Marx não se sente já um pastor capaz de guiar a Igreja alemã e de intermediar o processo sinodal entre a Alemanha e o Vaticano.

Finalmente, outra veterana do jornalismo e autora de obras sobre o Papa e o Vaticano, Franca Giansoldati, escreve em Il Messagero, sobre o pedido de resignação, que “tanto trovejou que acabou por chover”: “Reinhard Marx, o poderoso arcebispo de Munique e membro do Conselho dos Cardeais, lançou o desafio a Roma e, automaticamente, ao Papa Francisco para que este não impeça o caminho das reformas iniciadas na Alemanha por católicos progressistas”.

O olhar crente recusa-se a ver nestas movimentações um mero jogo de xadrez ou um palco que encena uma série de jogadas, mesmo que a Igreja não seja imune a práticas desse tipo. O tempo se encarregará de ajudar a fazer mais luz sobre o significado deste acontecimento. O certo é que há um pedido de resignação que tem um alcance maior do que o seu objeto imediato e que a decisão sobre esse pedido se encontra do lado do Papa.

 

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