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Pedofilia: bispos, palavra pedida

| 10/10/2021

Infância. Abusos. Série "Childhood Fracture" (V), de Allen Vandever

“É necessária uma mudança de mentalidade, porque às vezes a impressão é que as coisas são feitas só ou maioritariamente devido à pressão que se sente.”  Pintura: Infância. Abusos. Série “Childhood Fracture” (V), de Allen Vandever. Reproduzido de Wikimedia Commons

 

Foi um peso pesado que veio expressamente enviado do Vaticano a Portugal no passado mês de maio. Jesuíta, alemão, psicólogo, o padre Hans Zollner foi o viajante. Em nome da Comissão antipedofilia do Vaticano e da Comissão Pontifícia para a Tutela de Menores, falou. A razão de ser da sua vinda era o cumprimento da vontade expressa do Papa Francisco, em abertura ao apuramento e condenação de abusos sexuais na Igreja. O motivo, neste contexto, era a importância deste encontro marcado para reflexão e orientação sobre o tema.

Concreto, o encontro reunia bispos e membros das comissões diocesanas de proteção de menores e adultos vulneráveis. As conferências episcopais de todo o mundo tiveram os seus bispos chamados a pensar, a refletir, a decidir. A escutar, como ultimamente se usa dizer na linguagem eclesiástica, e não só a ouvir. Todos chamados a enfrentar tão grave e angustiante crime.

Apelando ao esclarecimento, nas várias instâncias das dioceses, das comunidades, dos fiéis. Considerando formação e ação eclesial. Preparando os seminaristas e os vocacionados para o sacerdócio. Organizando a proteção dos abusados ou dos possíveis abusados. Concretizando a apuração de responsabilidades, com a condenação e penalização dos abusadores.

Atuando na área da sexualidade, desde sempre e ainda hoje, tão sensível palavra e conteúdo no ministério da Igreja.

Dias antes do encontro em Fátima, vale a pena relembrar que o jornal Público perguntou a vinte dioceses a sua posição sobre pedofilia na Igreja. Quatro não responderam. Supostamente, depois de prazos prescritos, de denúncias não avaliadas, havia nessa altura uma só investigação em curso, na Igreja do nosso país.

Em 29 de maio, bispos portugueses recusaram divulgar queixas, ou investigá-las. O padre Manuel Barbosa, secretário da Conferência Episcopal, afirmou: “Não temos dados nacionais.” Sem mais.

Dias antes do encontro de Fátima, em tom retórico e convencional se pronunciou o bispo D. Américo Aguiar, coordenador da Comissão de Proteção de Menores do Patriarcado de Lisboa: “Seria útil e benéfico termos disponível uma centralização da realidade de cada diocese, até para a promoção de um clima de confiança transversal e capaz de ajudar as potenciais vítimas a abrirem essa página dolorosa das suas vidas.”

Já em maio de 2019, D. Manuel Clemente, então presidente da Conferência Episcopal, tinha prometido a criação prioritária de instâncias para a avaliação de abusos sexuais nas dioceses. Não conhecemos a sequência da promessa.

Mas vale a pena conhecer o diagnóstico do padre Hans Zollner, especialista nestas matérias, sobre as medidas tomadas e, sobretudo, sobre a atitude do seu auditório. Muito reveladora da identidade portuguesa, quando algo de novo se apresenta ou se impõe: “O que tem sido anunciado e o que tem sido feito é suficiente para cumprir com os regulamentos. O que espero é que a Conferência Episcopal e as congregações religiosas não se limitem a cumprir com as obrigações da lei canónica. Isso não é suficiente, é necessária uma mudança de mentalidade, porque às vezes a impressão é que as coisas são feitas só ou maioritariamente devido à pressão que se sente.”

E ainda na sua fala, a misericórdia: “Há bons exemplos no mundo, onde as vítimas são verdadeiramente ouvidas. O eixo é a dor espiritual. O sofrimento. A dignidade humana. Curar, recomeçar, reconhecer.”

Por aqui, continuamos à espera de uma palavra dos nossos bispos.

 

Leonor Xavier é escritora e autora, entre outros, de Passageiro Clandestino e Há Laranjeiras em Atenas. 

 

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