Pedro Abrunhosa a olhar para dentro de nós

| 15 Nov 19 | Cultura e artes - homepage, Música, Últimas

Pedro Abrunhosa no Coliseu de Lisboa, dia 8 de Novembro. Foto © Rui Bandeira

 

É um dos momentos altos do concerto: no ecrã do palco, passam imagens de João Manuel Serra – o “senhor do adeus” que estava diariamente na zona do Saldanha, em Lisboa, a acenar a quem passava – e a canção dá o tom à digressão de Espiritual, de Pedro Abrunhosa, com o músico a convidar cada espectador a olhar para dentro de si: “Sou aquele que já não tem sombra,/ Tanta gente veloz de partida,/ Da verdade não há quem se esconda. (…) Acena-me um Adeus, Um lençol de jasmim,/ Um Abraço intocado,/ Sê louco a meu lado,/ Olha p’ra dentro de mim.”

Em Lisboa dias 7 e 8 (espectáculo a que se refere este texto), no Porto nesta sexta-feira e sábado (15 e 16, concertos praticamente esgotados) o músico de Viagens convida, agora, a um percurso mais interior, nem por isso menos intenso – bem pelo contrário. Durante o concerto, houve (haverá) vários momentos assim, num dos quais se destacam as músicas que integram o último disco, que dá título a esta digressão. Sempre com a palavra, sempre com as palavras e a sua força, a que Pedro Abrunhosa dá ainda mais vigor.

O espectáculo fala das feridas humanas mas também do amor, da perdição e da salvação, da solidão e da esperança, dos refugiados, pobres e transexuais (como Gisberta, assassinada no Porto em 2006, num crime de “racismo e homofobia”, como lembrou Abrunhosa). Ou de Deus, afinal: “Só há um Deus no nosso céu,/ Chama-se A.M.O.R.”

Logo de entrada, o músico diz ao que vem: “Uma espécie de céu/ Um pedaço de mar/ Uma mão que doeu/ Um dia devagar…” E devagar – ou depressa demais, para quem escuta – se fará o concerto. Depois de Momento, Abrunhosa afirmará convicto que o único Deus se chama A.M.O.R. E deixará também, num intenso crescendo, as muitas perguntas de Será?: “Será que fiz tudo o que podia fazer/ Ou fui mais um cobarde não quis ver sofrer…” Antes de recordar a história triste de Gisberta (condenando a violência dos fracos sobre os mais fracos) e a vida terna do “senhor do adeus”. As denúncias continuarão pouco depois, com Dizes que gostas de mim, um libelo contra a violência doméstica: 39 mulheres mortas em Portugal em 2018, mais 29 no que já leva 2019, recorda o músico, a propósito do primeiro tema de Espiritual que entra no concerto.

 

Levantar voo, até à sarça ardente

Pedro Abrunhosa com os Comité Caviar: Cláudio Souto (direcção musical, teclados e órgão), António Casado, Bruno Macedo e Paulo Praça (guitarras), Miguel Barros (baixo), Pedro Martins (bateria e percussão), Eurico Amorim (piano), Rui Pedro Silva (trompete), Paulo Gravato (saxofone alto), Daniel Dias (trombone), Patrícia Antunes e Patrícia Silveira (coros). Foto © Rui Bandeira

 

Até Senhor do Adeus, Abrunhosa estivera sozinho – ou melhor, um pano escondia os Comité Caviar. E quando o músico do Porto convida a Vamos levantar voo, sobe o pano, desvenda-se a banda e os minutos seguintes irão num novo crescendo até às perguntas de Quem me leva os meus fantasmas?, que conclui com Abrunhosa no piano, sublinhado pelo coro, como que exorcizando os medos de que fala a música.

Ao álbum Longe (2009) foi Abrunhosa buscar a música seguinte, Pode o céu ser tão longe, mas numa lógica que a integra na linha de Espiritual. Ao último trabalho, irá o músico buscar ainda três dos seus temas mais conseguidos: Se tens de partir não me contes – Hold me (que no disco ele canta em dueto com a voz agridoce de Lucinda Williams, mas que se permitiu a ousadia de a cantar sozinho por gostar muito do tema); Pode acontecer (que serviu para dedicar à memória da mãe, que morreu no início do ano, e invocar a ternura dos pais, nonagenários, na sua vida de casal); e Amor em tempo de muros (para perguntar, na introdução, “que espécie de cristandade é esta que recusa o auxílio a seres humanos?”).

Foto © Rui Bandeira

 

A partir daí, foi um crescendo até final, com várias canções dos diferentes discos de Abrunhosa, incluindo temas já “clássicos” – Se eu fosse um dia o teu olhar, Socorro, Vamos fazer o que ainda não foi feito, por exemplo – e outros mais recentes (Vem ter comigo aos Aliados).

O concerto conclui, no encore, com Pedro Abrunhosa só, no piano, com o belíssimo e íntimo Eu não sei quem te perdeu, a que se segue Ilumina-me, antes dos dois temas finais: Loucas são as noites e Tudo o que te dou. A apoteose começa em Ilumina-me: voz, percussão, um suave toque de órgão, a letra repetida em coro por um Coliseu em crescendo, rendido à dimensão Espiritual de um músico que não abdica de fortes convicções na sua trajectória artística. E com Abrunhosa a sublinhar, enquanto o auditório se iluminava de lanternas: “Nas tormentas temos de ser a luz firme dos outros, a luz de quem precisa – pode ser um coração, uma sarça ardente…”

Assim arda.

O Coliseu de Lisboa rendido a Pedro Abrunhosa no concerto “Espiritual”. Foto © Rui Bandeira

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Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Dez
10
Ter
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Dez 10@17:30_18:30

O livro será apresnetado por Manuel Cândido Pimentel, professor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa.

Dez
11
Qua
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Dez
14
Sáb
3º Concerto de Natal da Academia de Música de Santa Cecília @ Basílica do Palácio Nacional de Mafra
Dez 14@21:00_22:30

Entrada gratuita mediante o levantamento de bilhetes nos Postos de Turismo de Mafra e Ericeira

 

A Academia de Música de Santa Cecília, escola de ensino integrado de música, apresenta o seu terceiro concerto de Natal nos dias 14 e 15 de Dezembro, no Palácio Nacional de Mafra, classificado recentemente como Património Cultural Mundial da UNESCO.

Neste concerto participa um coro constituído por 250 crianças e jovens dos 10 aos 17 anos e uma orquestra de cordas de alunos da escola, a soprano Ana Paula Russo e ainda o conjunto, único no mundo, dos seis órgãos da Basílica de Mafra.

No programa estão representados vários compositores nacionais e estrangeiros, destacando-se a obra “Seus braços dão Vida ao mundo”, sobre um poema de José Régio, da autoria da jovem Francisca Pizarro, aluna finalista do Curso Secundário de Composição da Academia de Música de Santa Cecília.

O concerto assume especial importância não apenas pela singularidade do conjunto dos seis órgãos do Palácio Nacional de Mafra mas também pela dimensão do número de jovens músicos envolvidos.

A relevância do concerto manifestou-se em edições anteriores (2016 e 2017), pela sua transmissão integral na RTP2, tendo o concerto de Natal de 2017 sido difundido em directo para a União Europeia de Rádio. O concerto tem o patrocínio da Câmara Municipal de Mafra.

Programa do concerto

Arr. Carlos Garcia (1983)
Ó Pastores, Pastorinhos (tradicional de Alferrarede)

Francisca Pizzaro (2001)
Seus braços dão Vida ao mundo (sobre um poema de José Régio), obra em estreia absoluta, encomendada para a ocasião; Francisca Pizarro é aluna do curso secundário de Composição da AMSC

Arr. Fernando Lopes-Graça (1906-1994)
O Menino nas Palhas (tradicional da Beira Baixa)

Eurico Carrapatoso (1962)
Dece do Ceo (sobre um poema de Luís de Camões)

Arr. Carlos Garcia
Gloria in excelsis Deo (tradicional francesa) *

Franz Xaver Gruber (1787-1863) Arr. Carlos Garcia
Stille Nacht

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)
Alleluia, do moteto Exsultate, jubilate

Tradicional francesa
Quand Dieu naquit à Noël

Louis-Claude Daquin (1694-1772)
Noël X

Arr. Malcolm Sargent (1895-1967)
Zither Carol (tradicional da República Checa)

Tradicional do País de Gales
Deck the Halls

John Henry Hopkins Jr. (1820-1891); Arr. Martin Neary (1940)
We three Kings

Arr. Mack Wilberg (1955)
Ding! Dong! Merrily on High (tradicional francesa)

Arr. David Willcocks (1919-2015)
Adeste Fideles (tradicional), com a participação do público.

CANTORES E MÚSICOS
Ana Paula Russo, soprano

Ensemble Vocal da AMSC
Coro do 2º Ciclo da AMSC
Coros do 3º Ciclo e Secundário da AMSC

Orquestra de Cordas da AMSC
Pedro Martins, percussão

Rui Paiva, órgão da Epístola
Flávia Almeida Castro, órgão do Evangelho
Carlos Garcia, órgão de S. Pedro d’Alcântara
João Valério (aluno da AMSC), órgão do Sacramento Liliana Silva, órgão da Conceição
Afonso Dias (ex-aluno da AMSC), órgão de Sta. Bárbara

Carlos Silva, direcção da orquestra

António Gonçalves, direcção

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