“Meu Deus, Meu Deus…” podiam ser (e, segundo os evangelhos, são mesmo) as palavras que Jesus clamou na cruz. Mas são também as primeiras palavras cantadas por Pedro Abrunhosa no tema que abre o seu novo disco de originais, Inverbo. Não seriam talvez as mais previsíveis, tendo em conta que o músico se afirma agnóstico (por vezes, mesmo ateu). Mas, apesar disso, fazem todo o sentido num álbum que o artista assume ser “mais introspetivo” que os anteriores, e que é também resposta a um pedido feito pelo Papa Francisco aos artistas: o de não se esquecerem dos pobres, “que são os preferidos de Cristo”.
Pedro Abrunhosa levou o pedido muito a sério, até porque – como confessou ao 7MARGENS – apesar de agnóstico, se considera “profundamente cristão” e defende que “ver Deus no mais pobre, no mais fraco, deve ser uma prática diária”. Um Deus que considera ser “uma entidade bonita demais” para falar sobre ela, senão pela poesia e pela música. Um Deus em quem não acredita “ainda”, mas com quem dialoga. Inverbo – e esta entrevista – são a prova disso mesmo.
Depois de três concertos esgotados no Porto, Pedro Abrunhosa apresenta-o este sábado, 31 de janeiro, em Lisboa (21h30, Meo Arena), no próximo dia 14 de fevereiro nas Caldas da Rainha e dia 28 na Póvoa de Varzim. E, mais uma vez… quem adivinharia que as palavras com que abrirá estes espetáculos foram escritas por um cardeal?

A capa do nono álbum de originais de Pedro Abrunhosa, lançado no passado dia 16 de janeiro.
7MARGENS – Tem dito que este novo disco é um elogio da palavra e da sua força. Mas o neologismo que criou para o título, Inverbo, também pode remeter para a ideia de estarmos perante um inverno do verbo… É importante dar de novo força à palavra?
PEDRO ABRUNHOSA – Inverbo tem uma leitura múltipla: dentro da palavra, ou apesar da palavra ou com a palavra… e é um disco que claramente só poderia ter sido editado nesta altura sazonal do inverno. É mais escuro… Talvez não mais escuro, mas mais introspectivo, mais interior do que os discos anteriores.
Por outro lado, também vivemos uma espécie de inverno no mundo. Com os avanços de forças extremistas que são, eu diria, preocupantes. E isso leva-me a equacionar que vivemos um momento, aqui sim, um momento escuro. Mas apesar de ser um inverno, temos de nos lembrar que, a seguir ao inverno, vem sempre uma primavera. E esse, creio eu, é o ciclo da História, é o ciclo forçoso da Humanidade. Mas o Inverbo surge aqui como uma chamada à razão da palavra.
Este disco quer resgatar a palavra daquilo a que ela tem sido sujeita, que é a uma certa mesmificação, através do insulto das redes sociais, da grosseria, da ausência de ideias, da rapidez. Porque é inevitável que a rapidez com que se trocam diálogos, que não chegam a ser diálogos, nas redes sociais, não permitem a ideia. E a ideia alicerça na palavra. Portanto, a palavra surge aqui enquanto ideia e enquanto centro da concórdia… não há outra forma.
7M – Curiosamente, o “verbo”, na linguagem cristã, é uma das palavras usadas para designar Deus e a sua criação, e o próprio Jesus como filho de Deus. E há várias referências a Deus ao longo deste disco. Mas o Pedro tem-se afirmado umas vezes como agnóstico, outras como ateu…
Pois é, pois é… Sabe que um agnóstico é sempre um crente e um ateu em simultâneo! Há alturas em que a dúvida é um fator interessante de evolução para todos os sentidos e o agnóstico está um pouco no meio: umas vezes sinto-me mais crente, outras vezes sinto-me mais ateu, e não há outra maneira de o explicar.
E a palavra “verbo” aqui também não foi inocente, nesse sentido que São João lhe dá no Evangelho, e que é lindíssimo: é que, na perspectiva de São João, “no princípio era o logos”. “Logos” é a palavra que lá está e é uma entidade ampla, múltipla, que quer dizer simultaneamente razão e a palavra geradora, a palavra que gera. Isto tem também um sentido profundamente poético, porque dizer que Deus, através da palavra, cria é realmente o sentido que eu gostava de imprimir aqui: a criação através da palavra e a criação no sentido da glorificação da Humanidade. A glorificação da Humanidade produz-se na comunhão, na unidade, na solidariedade, e esse é o princípio básico da ética cristã. E por isso mesmo eu sou profundamente cristão, porque não existe outra ética possível, não há outra que possamos seguir para praticar o bem.

Momento do concerto na Super Bock Arena, Porto, no passado dia 23 de janeiro. “A glorificação da Humanidade produz-se na comunhão, na unidade, na solidariedade.” Foto © Catarina Rocha
7M – No comunicado de apresentação do disco à imprensa, o Pedro escreveu: “Acredito que a Poesia seja a capacidade inelutável da humanidade para conversar com os deuses.” Quem são estes deuses?
Aqui “deuses”, no sentido poético, são aqueles que nos inspiram. Para mim, deus é a minha mãe e o meu pai, que partiram há três anos, e é a minha capacidade de conversar com eles. Mas também é Deus, com “D” maiúsculo. E é por isso que este caminho de ascese até uma revelação é um caminho bonito, porque se descobre Deus em muita coisa, e por outro lado também se questiona a ausência de Deus noutras. É o caso, por exemplo, do genocídio em Gaza. Que Deus permite aquilo? É o famoso silêncio de Deus, não é? Mas este meu diálogo também é com esse Deus. Apesar de eu não ser crente, sei que dialogo com o Deus no qual outras pessoas acreditam, e ainda bem que acreditam.
O escritor Javier Cercas, no livro O Louco de Deus no Fim do Mundo [sobre a viagem do Papa Francisco à Mongólia], diz uma coisa que está certa: “é mais difícil acreditar”, porque se trata de acreditar na possibilidade do impossível, e eu acho isso de uma beleza profunda. Mas ainda não consigo acreditar. E quando digo “ainda”, é um “ainda” com alguma pena… Continuo a deixar que a razão interfira nessa minha ação.
7M – Mas também ainda não deixou de O procurar, nem de perguntar “que fogo nasce” das mãos d’Ele, como faz no tema Glória aos vencidos pelo amor…
É… Sabe que eu acho que não há nada mais poético do que o conceito de Deus. E atenção, que não quero reduzi-Lo a um conceito, porque Deus, ao existir no coração dos homens, é forçoso que exista. Posso partilhar que, ao olhar a catedral de Notre-Dame, tive das experiências mais místicas da minha vida! Eu era um visitante assíduo da catedral, por uma ligação espiritual ao silêncio, que é um silêncio revelador… o silêncio de Notre-Dame não é um silêncio qualquer! Um dia estava a haver um ensaio do grupo de música medieval da catedral, que é um grupo notável – eu, de resto, depois acabei por comprar os discos e continuo a segui-los – , e foi dos momentos mais bonitos. E porque é que eu lhe digo isto? Porque esse tipo de consumação, eu diria física, através dos sentidos, do ouvido, do esmagamento de um monumento como é Notre-Dame, ou o Mosteiro da Batalha, aquilo só foi possível pela fé. Não há outra maneira de explicar aquilo! E a minha presença naquele espaço é completamente avassalada pela fé dos que me precederam, que fizeram construir aquilo. E aquele momento, apesar de epifânico, faz-me sentir muito pequeno perante esse Deus de que falam, e que ainda não me foi revelado.
7M – Gostaria de ter essa fé?
A fé é das loucuras mais bonitas que conheço, e há pouco quando lhe referi o Cercas, e o seu Louco de Deus…, foi numa expressão de reverência perante a loucura. Porque aquela loucura cristã da igualdade, de olhar os fracos, de olhar os pobres, é uma ideia tão bonita, tão impossível, que só pode ser divina. E, portanto, Deus é – como lhe dizia no início desta minha preleção e quase peço desculpas – Deus é o mais bonito dos conceitos poéticos. Não encontro tanta poesia em nenhum lado. Se quiser, talvez na natureza, mas mesmo a natureza é uma natureza impregnada desse Deus de que me falam. Gosto de estar no meio de um bosque, da sensação das florestas, das raízes que vão fundo e dos ramos que tocam os céus. Há coisa mais bonita do que isso? E quando me dizem que foi Deus que criou isto, estão a dizer-me um poema. Isso é um poema, e este Deus de que eu falo é esse Deus, é poesia que eu vejo nas coisas divinas, e nas coisas de que me falam, onde Deus existe. Agora, se Deus existe dentro da catedral de Notre-Dame mais do que no meio dos desgraçados de Gaza que foram massacrados, ou do Holocausto? Essa é a minha questão, e eu sei que a teologia cristã tem respostas para isso, mas não sei se me satisfazem.

“Se Deus existe dentro da catedral de Notre-Dame mais do que no meio dos desgraçados de Gaza que foram massacrados, ou do Holocausto? Essa é a minha questão.” Foto © Celso Colaço
7M – E a canção Leva-me P’ra Casa, que abre o disco, é uma oração… ainda que posta na boca de um pai que perdeu uma filha?
Sim, é uma oração, um apelo, um cair de joelhos perante o fim. Porque a perda de um filho é talvez o fim. Os meus pais perderam um filho, eu vi isso acontecer. O meu pai era ateu, mas a minha mãe era profundamente católica… e eu vi o estraçalhar que foi daquela mãe. Por isso, sim, é uma oração, um apelo a essa entidade de consolo. E é aqui que Deus dá as mãos à arte, porque Deus e a arte estão juntos neste consolo da Humanidade.
Não vou exagerar se lhe disser que recebo centenas de cartas e mensagens de famílias, de maridos, de mulheres, de pais, de filhos… que me dizem que se entregaram às lágrimas no meu disco e nos meus espetáculos… “Porque na semana passada morreu a minha mãe, porque o meu pai tinha bilhetes para o concerto e ia connosco mas morreu… e agora eu e a minha irmã vamos de qualquer maneira e gostávamos que falasses do nosso pai”, pais que perderam os filhos e que me escrevem uns atrás dos outros… Claro que é uma oração. É uma oração como as que a minha mãe rezava após a morte do meu irmão. Rezava e perorava… porque perder um filho, para quem é crente, é terrível. Porque… “Deus, o que é que me fizeste?”…

“A canção Leva-me P’ra Casa é uma oração como as que a minha mãe rezava após a morte do meu irmão.” Foto © Catarina Rocha
7M – A morte do seu irmão mudou de alguma forma a sua relação com Deus?
Não, não me afastou… pelo contrário. Eu nunca fui crente, apesar de ter andado num colégio católico – o Colégio João de Deus, no Porto – e de a minha mãe ser católica. Até porque ela não era nada proselitista, não tentava converter-nos… A fé é uma questão de adesão. É preciso aderir à fé, ou então é preciso ter-se, como Santo Agostinho, a revelação. E eu não tive nem uma, nem outra. Mas Santo Agostinho chegou lá tarde e depois de uma vida bastante agitada, portanto, nunca se sabe… [Risos]
7M – E ter sido pai, também não mudou nada nessa relação?
Sabe que eu escrevi um fado para a Ana Moura, que se chama Tens os Olhos de Deus?… Veja bem a letra desse fado: foi escrito para os olhos do meu filho, quando ele nasceu…
7M – Sempre achei que era um tema romântico…
Nem tudo o que parece é… Mas essa minha proximidade com o Divino é sempre uma proximidade com o Deus dos outros. É uma entidade bonita demais para eu falar sobre ela, senão pela poesia e pela música. Também porque a História está cheia de indivíduos que falaram sobre Deus de uma maneira muito iluminada e fogosa, e que fizeram tudo ao contrário, não é? Será que acreditavam mesmo? Será que o Torquemada acreditava em Deus para fazer aquelas coisas todas? Será que estes cristãos nacionalistas americanos realmente acreditam em Deus? Será que eles leram mesmo a Bíblia e entendem a palavra de Cristo?
7M – Ou o que faz André Ventura na missa?…
Exatamente. O que é que faz essa pessoa ali? É isso que me faz também ter dúvidas… Isso é que me afasta.

“A minha proximidade com o Divino é sempre uma proximidade com o Deus dos outros.” Foto © Celso Colaço
7M – E quando pergunta “o que se esconde atrás da porta”, ou canta que “havemos de chegar ao fim da noite” e que “é sempre escuro antes de amanhecer”, significa que acredita numa vida depois da morte?
Significa que acho o conceito bonito, mas não acredito. Para se ter fé cristã, agora não no sentido da ética nem da filosofia, mas da fé, tem de se acreditar na ressurreição da carne. Sem isso não se é um verdadeiro cristão, não é? São Paulo diz isso. E eu não consigo acreditar na ressurreição da carne. É nesses dogmas que me custa entrar para dizer “acredito”.
7M – A ressurreição é a base da esperança para os cristãos… Onde reside a sua esperança?
Eu aproximo-me mais de uma esperança do agora. Esta vida é tudo o que eu tenho para exercer o bem, e portanto não vou perder tempo a exercer o mal. Tenho de fazer melhor aqui. Sei que Jean-Paul Sartre não é propriamente um exemplo do melhor catolicismo, mas aquilo que ele defendia de que nós não temos propriamente um destino, não somos feitos à imagem de Deus, nós somos nós, e vamo-nos cumprindo ao longo da nossa existência… é mais profundo do que isto, mas isso seduz-me mais, porque força-me a cumprir-me aqui. E é isso que eu tento fazer.
Quanto à morte, assusta todos, os católicos e não católicos, os crentes e não crentes, e os não crentes não têm esse consolo de que amanhã vão estar ao lado do pai… não têm essa esperança. Mas têm outras esperanças. Têm a esperança de que amanhã vai ser melhor, mas precisam de lutar por isso. Não é: “Amanhã vai ser melhor porque Deus me vai salvar”. Não: amanhã vai ser melhor porque eu tenho de me salvar.
7M – Também não têm medo do inferno…
Pois, mas para as 70 mil pessoas que morreram em Gaza ou para os seis milhões de judeus que morreram nas câmaras de gás, o que é que foi para eles o inferno se não aquilo? Não foi depois, foi durante… Eu tenho medo é desses infernos.
7M – O Pedro foi um dos sete portugueses convidados para o encontro do Papa Francisco com os artistas, em junho de 2023. Na altura, ele pediu-vos: “Não se esqueçam dos pobres, que são os preferidos de Cristo, em todas as formas em que se é pobre hoje”. Este disco é também uma resposta a esse pedido?
Claro que sim. E já na altura eu estava a escrever este disco – tinha 30% do disco escrito – mas a visita ao Papa transformou-o completamente. Não é que eu não tivesse já esse olhar para os pobres – creio que essa foi a razão do convite – mas depois de ouvir o discurso do Papa, que é um discurso realmente centrado nos mais fracos, nos pobres, nos loucos, nos velhos, nos sedentos… esse olhar tornou-se ainda mais atento. Aquela coisa de baterem à porta e ser o mendigo andrajoso e para quem é crente ver Deus naquele mendigo… Aliás, essa é uma das parábolas de Jesus e isso deve ser uma prática diária: permanentemente ver Deus no mais pobre, no mais fraco. Nisso sim, acredito completamente.
E esta proximidade aos mais fracos e aos mais pobres foi-me muito trazida pela minha mãe, que antes do 25 de Abril nos obrigava a visitar os bairros de lata, que agora dizem que não existiam, onde moravam milhares de pessoas, nas piores condições, no Porto, no meio da cidade… com crianças sem sapatos, à chuva, no meio da lama. A minha mãe fazia aquilo se calhar porque era católica, mas sobretudo porque era humana, porque era profundamente humana. E o meu pai seguia-a, no seu ateísmo, e à nossa maneira ajudávamos aquelas pessoas. Dos meus seis aos 12 anos fazíamos isto, todas as semanas, e ainda hoje sei onde eram os bairros, onde agora estão grandes empreendimentos luxuosos para arrendamento e alojamento local. E continua a haver muitos pobres, expulsos para as periferias e para os bairros. E sim, o discurso do Papa Francisco mudou-me, mudou a minha escrita, e esta proximidade com a emocionalidade das pessoas.

Pedro Abrunhosa no encontro do Papa Francisco com os artistas, na Capela Sistina (Vaticano), a 23 de Junho de 2023. Foto © Vatican Media
7M – Em que sentido?
A mim choca-me imaginar uma família que vive, imagino, no Fogueteiro, em que o pai e a mãe têm de trabalhar em Lisboa, e que têm dois filhos, às vezes três, menores, com três, quatro, cinco anos… Levantam-se às seis e meia da manhã para fazer o pequeno-almoço, pegam nas crianças, levam-nos até uma ama, que geralmente não é credenciada, depois apanham um autocarro, um comboio ou um barco, para atravessar o rio, e depois apanharem outro autocarro ou metro, para chegarem aos empregos às nove da manhã, arrasados já, para receberem 850 ou 900 euros ao fim do mês, para regressarem a casa para a rotina do dia seguinte e estarem dez minutos com os filhos, que entretanto foram despejados numa escola qualquer.
Tenho de empatizar com estas pessoas, porque eu sei o que me custa a mim, que sou um burguês do Porto, dar qualidade de vida aos meus filhos e o que me custa a ausência e a distância dos meus filhos. E porque é que as pessoas mais pobres não vão sentir a mesma angústia que eu sinto, tendo elas mil vezes menos condições? Que angústia irá na cabeça daquela mãe, daquele pai, que não vêem o filho e a filha durante semanas, só no fim de semana, por muito pouco tempo, e com muito pouco dinheiro para usufruírem no fim de semana de algum consolo… Isto para não falarmos das pessoas que vivem no interior, embora essas se calhar possam ter mais rede de apoio.
Sim, isto preocupa-me mesmo, e a ausência de carinho por estas pessoas, e a ausência sobretudo de equidade, de justiça social, que me faz perceber porque é que elas correm para os braços dos populistas e dos demagogos, quando os populistas e os demagogos lhes querem destruir o pouco que elas têm de apoio do Estado Social… Por isso é que o Papa Francisco esteve muito bem neste discurso, em que chama os artistas de profetas. Foi uma coisa que eu não esqueci.
7M – O maestro e compositor catalão Jordi Savall disse numa entrevista que, se a música ficar pela estética, acabamos em Auschwitz, com os comandantes dos campos de extermínio a extasiar-se com a beleza da música que ouviam. A ética e a estética são duas dimensões que se completam na arte?
O Jordi Savall está na minha playlist todos os dias. E é claro que a arte é ética: ele sabe isso melhor do que eu… Estive em Auschwitz quando ainda não era um local para fazer fotografias de Instagram, e chorei sozinho, na madrugada de um novembro de 88, chorei dentro das câmaras de gás, onde pude entrar sozinho às sete e meia da manhã. Não tinha ninguém, não tinha guardas, não tinha nada, era ainda no bloco soviético, e vi o local para onde as orquestras subiam, uma espécie de cadafalso, para tocar enquanto os presos desfilavam. Não sei se Brahms, Wagner e Beethoven, tocados ali, têm o mesmo valor estético… Têm o valor do horror estético, se quiser. Esses compositores tocados ali, de repente são transformados, são não só instrumentalizados, como transformados no pior dos lixos, porque estão a acompanhar o fumo das chaminés, e isso é de uma agressão… Isso é transformar a estética numa agressão profundíssima a quem está a produzir, a quem está a ouvir, que não os nazis. E portanto percebo perfeitamente a frase do Jordi Savall: de que é que adianta eu ser um pintor eminente, um cineasta fenomenal, se depois subscrevo movimentos pela castração química?…
7M – A pianista Maria João Pires, no discurso de agradecimento pelo prémio europeu Helena Vaz da Silva 2025, também disse que “a verdadeira arte é a atividade da não-agressão”…
Exatamente! A ética está subjacente a toda a forma de arte, porque a arte tem de ser um instrumento do bem. A arte não tem de ser bela: são coisas diferentes. A arte não é o hino ao belo, a arte é um elogio do dentro de nós, e nós somos tudo: por vezes somos belos e outras somos feios, somos bons e somos maus. Por exemplo, Krzysztof Penderecki, que esteve preso em Auschwitz, fez uma peça que revive o Holocausto, Edvard Munch pintou O Grito… Não são coisas belas, mas são coisas profundamente éticas.
7M – Regressou este mês a Roma, precisamente com a Maria João Pires, e juntaram-se ao cardeal Tolentino Mendonça para uma conversa que decorreu na Biblioteca do Vaticano… O que pode revelar-nos sobre essa conversa? Vamos poder escutá-la?
Sim, essa conversa foi gravada e vai ser divulgada em breve… Chamei-lhe Elogio do Silêncio, e é uma conversa sobre muitas das coisas de que também falámos aqui. O D. Tolentino é também poeta e a poesia dele é de um brilhantismo irrevogável. É surpreendente, porque é uma poesia simultaneamente divina e erótica, mas que não está sozinha, porque o Cântico dos Cânticos é o que é! É uma poesia profundamente humana e ligada ao real, de um homem que está completamente conectado com os homens. E a Maria João… tem as mãos de Deus!
Eu quis ouvir aquelas duas pessoas, por quem tenho uma profundíssima admiração. Aliás, a Lídia Jorge também estava para ir, mas o marido dela teve um acidente e ela não pôde ir, porque queria muito ouvi-la também. É uma conversa muito bonita sobre a palavra, sobre o lugar do silêncio, sobre o lugar de Deus. E foi tudo muito simbólico, muito sereno… foi uma experiência maravilhosa.

Pedro Abrunhosa teve com Maria João Pires e o cardeal Tolentino Mendonça “uma conversa muito bonita sobre a palavra, sobre o lugar do silêncio, sobre o lugar de Deus”. Foto: Direitos reservados
7M – Mais uma, no Vaticano…
Sim, e mais uma vez graças ao Papa Francisco. Porque há claramente um antes e depois dele. Fico muito emocionado por perceber essa luta que o Papa Francisco teve mesmo dentro da Igreja, apesar de ter tido também muitos apoios… E esse trabalho que ele desenvolveu de facto é transformativo: ele transformou a perceção que nós, os não crentes, temos do papel da Igreja e da Igreja em si. Aproximou-nos muito.
7M – Tanto que o seu concerto deste sábado, em Lisboa, vai abrir com a interpretação de um poema de Daniel Faria, que foi monge, e outro do cardeal Tolentino… Porquê?
Porque são dois poemas superlativos de belos e não resisti à tentação de compor para eles. Atenção que são dois lied, ou seja: duas canções profundamente clássicas, interpretadas pela soprano Sofia Marafona. O espetáculo abre assim, e depois vai por aí fora até à catarse, até à emoção e à celebração também… até à festa!

A soprano Sofia Marafona abre o espetáculo de apresentação de Inverbo. Foto © Catarina Rocha
7M – Os temas chamam-se Dorme, Basta-me Essa Luz e Deus Ainda Não Terminou… Significa que a busca continua?
A busca continua.










