Pedro Casaldáliga (1928-2020): profeta, bispo, poeta, estrelas nascidas em muitas mãos

| 10 Ago 20

O bispo Casaldáliga beijando a mão a um indígena, num gesto de respeito para com os povos originários. Foto: Direitos reservados.

 

Um dos seus poemas fala da revolução já estalada, um outro das estrelas nascidas em muitas mãos. Pedro Casaldáliga, bispo católico brasileiro, expoente da teologia da libertação, ameaçado de morte sucessivas vezes, alvo de um atentado, morreu neste sábado aos 92 anos. Profeta, defensor dos povos indígenas e de uma Igreja mais despojada, foi coerente com o que defendia até ao fim…

 

Num dos seus poemas está a forma como olhava para a sua vida e missão:
“Não ter nada.
Não levar nada.
Não poder nada.
Não pedir nada.
E, de passagem,
não matar nada;
não calar nada.
Somente o Evangelho, como uma faca afiada.
E o pranto e o riso no olhar.
E a mão estendida e apertada.
E a vida, a cavalo, dada.

E este sol e estes rios e esta terra comprada,
como testemunhas da Revolução já estalada.

E mais nada!

Homem despojado, vivendo de modo pobre entre os mais pobres, Pedro Casaldáliga não calou nunca a sua voz em defesa do que considerava ser o sentido profundo do Evangelho e de uma revolução que não tem cariz político tradicional. Isso valeu-lhe ser o alvo, ao longo de décadas, de sucessivas ameaças de morte. Profeta, poeta e defensor dos indígenas e dos direitos humanos, o bispo católico emérito de São Félix de Araguaia, morreu sábado, 8 de Agosto, às 9h40 (14h40 de Lisboa), na sequência de uma pneumonia. Tinha 92 anos.

A notícia foi divulgada pela prelatura de São Félix, no estado do Mato Grosso (1700 quilómetros a norte de São Paulo), pelos Missionários Claretianos (à qual pertencia Casaldáliga) e pela Ordem de Santo Agostinho. O bispo sofria de Parkinson já há vários anos e o seu estado de saúde era débil. Na terça, 4 de Agosto, foi internado em Batatais (estado de São Paulo) com uma pneumonia que provocou um derrame pulmonar.

 

Denúncia de corruptos

Apesar de já doente com Parkinson, Pedro Casaldáliga foi escondido pelas autoridades em 2012, para evitar que se concretizassem as ameaças de morte. Foto: Direitos reservados.

 

A ele, como recorda a Vida Nueva, a Igreja Católica ficou a dever a criação da Comissão Pastoral da Terra e do Conselho Indígena Missionário (Cimi), dois organismos que se tornaram uma referência na defesa do ambiente e dos povos originários. Um dos exemplos recordados pela revista é o da defesa dos índios Xavante de Marãiwatsédé, em Dezembro de 2012, um dos episódios que lhe valeu ser ameaçado de morte: os Xavante tinham sido expulsos das suas terras em 1960, por causa dos projectos agropecuários que várias empresas estavam a desenvolver para a região.

Também a denúncia que Pedro Casaldáliga fazia da corrupção de empresários e políticos envolvidos no roubo ou ocupação ilegal das terras indígenas ou na extracção das matérias-primas dessas terras era razão para as muitas ameaças que recebia.

Uma das ameaças foi quase concretizada em 1976, depois de um encontro de líderes locais e religiosos comprometidos com a luta dos indígenas. O El País recorda que, no final, Dom Pedro sofreu um atentado, que provocou o assassinato do padre João Bosco Burnier – com o bispo ao lado.

Em 2012, apesar de já retirado do cargo há sete anos e de já estar fragilizado pela doença de Parkinson, as autoridades federais levaram-no para fora de casa durante alguns meses, de modo a apaziguar as ameaças que continuava a receber.

 

Uma carta contra a marginalização

Um painel evocativo de Casaldáliga Foto: Direitos reservados.

 

Depois das primeiras cerimónias exequiais celebradas ainda em Batatais, na tarde de sábado e no domingo, o corpo do bispo emérito de São Félix segue esta segunda-feira para o Santuário dos Mártires, em Ribeirão Cascalheira, estado do Mato Grosso. Não há, no entanto, previsão para a hora de chegada nem para as cerimónias fúnebres que ali decorrerão (essas informações estão a ser actualizadas numa página especial dedicada à morte de Dom Pedro).

Tão pouco está prevista a hora em que os restos mortais de Casaldáliga chegarão a São Félix do Araguaia, para a última despedida na diocese em que serviu durante 34 anos, onde será enterrado.

Nascido a 16 de Fevereiro de 1928 em Balsareny (Catalunha, Espanha), Pere Casaldáliga Pla era filho de camponeses. Entrou para a congregação dos Missionários Filhos do Coração Imaculado de Maria (Claretianos) em 1945, tendo sido ordenado padre, ainda em Barcelona, em 31 de Maio de 1952.

Em 1968, foi trabalhar como missionário para o Brasil. Em 1970, o Papa Paulo VI nomeou-o administrador apostólico da prelatura territorial de São Félix e, no ano seguinte, como titular da mesma jurisdição, sendo ordenado bispo em Outubro de 1971.

Desde o início, Dom Pedro, como era conhecido, não quis viver em nenhum paço episcopal, mas numa casa simples e austera, características que também marcavam a sua vida. Tão pouco usava as vestes tradicionais de padre ou bispo, mas roupa banal do dia-a-dia.

Logo no início do seu mandato de bispo, em 1971, Casaldáliga escreveu a carta pastoral Uma Igreja amazónica em conflito com o latifúndio e a marginalização social, que daria os vários motes da sua acção: dinamizar a participação de todos os crentes na vida da Igreja, criar comunidades de base familiar e inspiração bíblica, atender profundamente aos anseios das populações mais desfavorecidas e à sua promoção humana.

Essa sua orientação fez dele uma das vozes e um dos pensadores mais importantes da teologia da libertação, a corrente que se afirmou na América Latina nas décadas de 1960 e 1970. Na perspectiva desta corrente teológica, a Igreja não deve deixar de tomar posição social e política.

Durante o pontificado de João Paulo II (1978-2005), essa perspectiva foi olhada com muita suspeição pela Cúria Romana – e, apesar de declarações de simpatia, por vezes também pelo próprio Papa.

Em Setembro de 1988, Pedro Casaldáliga seria mesmo chamado a Roma (por opção, ele próprio não quis sair do Brasil no tempo da ditadura militar, pois temia que os militares não o deixassem entrar de novo no país). O objectivo do convite da chamada ao Vaticano era procurar recordar-lhe normas formais que o bispo não estaria a cumprir. Mas uma das coisas que se dizia é que havia a possibilidade de o bispo ser demitido, como conta Baltasar Bueno no Religión Digital.

 

Missa dos Quilombos e Missa da Terra Sem Males

As zangas do Vaticano com o bispo não ficaram por aí: por cinco vezes, esteve para ser expulso ou demitido, além de nunca ter sido nomeado cardeal, mesmo se era uma das vozes com mais prestígio no catolicismo latino-americano. Em 2003, ao completar 75 anos, pediu a resignação, como ditam as regras, que o Vaticano aceitou de imediato, pedindo-lhe ao mesmo tempo que saísse da diocese, para não criar obstáculos ao seu sucessor. Casaldáliga, no entanto, ficou até Janeiro de 2005, quando foi nomeado o sucessor, o franciscano Leonardo Ulrich Steiner.

Dom Pedro não se limitava à intervenção política estrita. Grande pensador, Casaldáliga publicou três dezenas de livros de poesia, sociologia, antropologia, ecologia e teologia, além de ter escrito também dois textos para duas óperas. ambas em conjunto com Pedro Tierra (1979): a Missa dos Quilombos (1981), de Milton Nascimento:

ou Missa da Terra Sem Males:

 

“A sua atividade como bispo teve as seguintes características: evangelização, vinculada à promoção humana e à defesa dos direitos humanos dos mais pobres; criação de comunidades eclesiais de base com líderes que sejam fermento entre os pobres; encarnação na vida, nas lutas e esperanças do povo; estrutura participativa e corresponsável na diocese”, diz uma nota publicada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

“Dom Pedro marcou a sua vida pela solidariedade em relação aos mais pobres e sofridos, fazendo do seu ministério, sua poesia e sua vida um canto à solidariedade. Preocupado em ‘nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar’, contempla agora o Deus da Vida, a quem buscou servir em cada pobre, em cada sofredor”, diz ainda a CNBB, citada na página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

 

“Um ícone do Brasil”

Casaldáliga “trabalhou sempre em favor dos peões, dos camponeses, dos sem-terra e dos povos indígenas”, diz o bispo Moacir Silva. Foto: Direitos reservados.

 

Na hora da morte, choveram reacções: o arcebispo de Ribeirão Preto (São Paulo), Moacir Silva, definiu Pedro Casaldáliga como “um ícone no Brasil pela sua dedicação plena e total ao povo de Deus, de modo especial, aos mais pobres e necessitados”. Citado na Ecclesia, o bispo Moacir acrescentava, no Vatican News: “Ele sofreu diversos reveses na vida por causa dessa sua opção, mas sempre foi fiel a Cristo, à Igreja e à missão”. A mesma fonte acrescenta que Casaldáliga “trabalhou sempre em favor dos peões, dos camponeses, dos sem-terra e dos povos indígenas”.

De Espanha e, sobretudo, da Catalunha, também chegaram ao Brasil muitos comentários de pesar, de que o Religión Digital dá conta: o Governo espanhol destacou a vida exemplar de Casaldáliga, enquanto a Generalitat (governo autonómico catalão) sublinhou o seu compromisso com os oprimidos e a sua luta em favor dos mais pobres e desfavorecidos.

No Brasil, os ex-Presidentes Lula da Silva e Dilma Roussef sublinharam o exemplo de “vida generosa” e o homem de “esperança” no meio de uma “injustiça que envergonha a todos os que lutam por dias melhores”.

Na exortação apostólica Querida Amazónia, o Papa Francisco cita um outro poema de Casaldáliga, intitulado Carta de navegar (pelo Tocatins amazónico, datado de 1986:

Flutuam sombras de mim, madeiras mortas.
Mas a estrela nasce sem censura
sobre as mãos deste menino, especialistas
que conquistam as águas e a noite.
Bastar-me-á saber
que Tu me conheces
inteiramente, ainda antes dos meus dias.

Pere Casaldáliga fez nascer muitas estrelas, sem censura, em muitas mãos.

 

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