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Acácio Catarino

Pedro Casaldáliga e os novos caminhos para o Brasil (e não só)

| 30/08/2020

Pedro Casaldáliga numa imagem dos últimos anos, já doente. Foto: Direitos reservados.

 

1. Sublinho a importância dos artigos publicados no 7MARGENS [N. R.: o obituário, a opinião de Eugénio Fonseca, e a memória de Manuel Abreu], a propósito do falecimento de D. Pedro Casaldáliga. E, a propósito, pareceu-me oportuno lembrar umas férias pessoais de 1968, transformadas em missão ao Nordeste brasileiro no âmbito da Ação Católica Rural (ACR).

Percorri várias localidades, rurais e urbanas, contactei um sem número de militantes da ACR e de outros movimentos e organizações, falei com D. Helder Câmara, D. António Fragoso, com outras figuras da hierarquia eclesial e com representantes de organismos públicos e outras entidades.

O ambiente sociopolítico era bastante contraditório: decorriam obras várias que exibiam um “desenvolvimentismo” quase impressionante proveniente, em parte, da governação anterior, contrastando com as desigualdades sociais gritantes, a  pobreza do campesinato e de outros estratos sociais; a opressão coexistia com algumas tentativas de participação e de promoção do associativismo; os grandes latifúndios tanto revestiam a forma de poder intrinsecamente desumano como denotavam um certo paternalismo “cristão”.

Tive oportunidade de assistir a uma celebração litúrgica, num destes últimos, cujos trabalhadores/as quase faziam parte da fazenda. Em determinada altura cantaram: “prova de amor maior não há do que dar a vida pelo irmão”; e este cântico, entoado muito sentidamente, evocava pessoas concretas que tinham doado as suas  vidas pelos irmãos…

 

2. A minha experiência no Brasil, em 1968, deixou bem claro o imperativo de três patamares de intervenção sociopolítica, aderindo ou não à Teologia da Libertação: o básico ou interpessoal, no qual se situam as famílias, outras relações de proximidade e as comunidades de base; o intermédio, ou dos “corpos intermédios”, próprio das diferentes associações, movimentos e instituições não públicas; e o estatal (cf. os nºs. 51-67 da encícica Mater et Magistra, 1961, de João XXIII).

No Nordeste brasileiro, em 1968, esboçavam-se as comunidades de base – inseridas no primeiro patamar; também se verificava um considerável dinamismo de participação em associações diversas, cooperativas, sindicatos e outros movimentos – segundo patamar. No que se refere ao Estado – terceiro patamar – verificavam-se duas realidades embaraçosas: a vertente apresentada como progressista, voltada para o desenvolvimento, para a participação e até para um certo diálogo na procura de soluções para os problemas socioeconómicos; a par da vertente repressiva, bastante ocultada, embora visível, e iludindo uma parte considerável da opinião pública. Não havia unanimidade no interior da Igreja, acontecendo até que um dos bispos, que visitei, era vítima de perseguição mediática liderada por um padre da sua diocese. Os movimentos campesinos de base, incluindo a luta pela posse da terra, realizavam um trabalho notável, marcado pelo diálogo na procura de entendimentos e de atuações tão eficazes quanto possível.

Casaldáliga com um indígena. Foto: Direitos reservados.

 

3. Os anos subsequentes mantiveram estas linhas de ação, trouxeram a democratização, mais tarde, e não melhoraram significativamente a relação entre os referidos três patamares de ação/intervenção sociopolítica: as comunidades de base não conseguiram a expansão e aprofundamento que se esperava; os “corpos intermédios” não obtiveram a autonomia nem a disponibilidade suficientes para cooperarem com as comunidades de base; e o Estado não encontrou maneira de cooperar com os “corpos intermédios” e com as comunidades de base, a favor de um desenvolvimento justo e integral.

Para além – e no agravamento – de tudo isso, o Estado não se libertou da influência do poder económico nem de outros constrangimentos tradicionais, receando-se agora que esteja a perigar, novamente, a sua base democrática. No âmbito eclesial, é discutível que o laicado tenha encontrado a sua identidade sociopolítica, assumindo o pluralismo de posições no seu interior, procurando as convergências possíveis e influenciando no mesmo sentido a sociedade, a economia e a vida política. De certo modo, o impasse político e eclesial, na vertente laical, vivido no Brasil, não difere muito do vivido em Portugal e noutros países.

 

4. O estudo e a reflexão operativa do legado de Pedro Casaldáliga, procurando a respetiva atualização, pode ser fundamental na procura de novos caminhos para o futuro, não só no Brasil; parece evidente que estes caminhos não poderão passar à margem dos dinamismos de base, intermédios e estatais. E também parece óbvio o imperativo da harmonização possível entre o diálogo, em todas as frentes, e as transformações estruturais que vêm sendo adiadas.

 

Acácio F. Catarino

 

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