AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Pedro Casaldáliga, o bispo dos esquecidos

| 14/08/2020

Pedro Casaldáliga: “Sou bispo para vós, sou cristão convosco.” Foto: Direitos reservados

 

Era assim que o bispo emérito de S. Félix do Araguaia (Mato Grosso, Brasil) gostava que se referissem a ele. A 8 de agosto passado, aos 92 anos, deixou este mundo alcançando a “libertação plena”.

Não poderia ser senão assim, para quem fez da “libertação” o seu desígnio episcopal. Foi um defensor da Teologia da Libertação. A sua ligação inequívoca aos criadores e fomentadores desta corrente foi muito contestada pelos que não a consideram uma verdadeira teologia, mas um conjunto de teorias marxistas. Esta desarmonia resulta de equívocos gerados por desconhecimento dos fundamentos em que assenta esta outra leitura contextualizada da Palavra Revelada ou por formas diferentes de ver o sentido da libertação cristã e da missão da Igreja na defesa da justiça e da solidariedade.

Há ainda muito caminho por andar no entendimento a ter do alcance dos conteúdos desta teologia, dos aproveitamentos oportunistas que dela alguns fizeram, desvirtuando-a, da clarificação de algumas teorias que têm suscitado interpretações exegéticas mais complexas e do perigo de se assumirem esses conteúdos como o ápice da teologia em geral. Mas o que importa, quanto a mim, no que ao bispo Casaldáliga diz respeito, é que o seu maior investimento eclesial foi impulsionado pelo Espírito Santo, no anúncio da Boa Nova aos pobres; no proclamar a liberdade aos presos; no recuperar a vista aos cegos e no libertar os oprimidos (cf. Lc 4, 18). Libertação foi o mote da sua ação pastoral e, melhor ainda, do seu testemunho como homem-cristão-bispo.

Isso se pode intuir de um dos seus poemas lembrados por António Marujo no 7MARGENS, que diz o seguinte:

“Não ter nada.
Não levar nada.
Não poder nada.
Não pedir nada.
E, de passagem,
não matar nada;
não calar nada.
Somente o Evangelho, como uma faca afiada.
E o pranto e o riso no olhar.
E a mão estendida e apertada.
E a vida, a cavalo, dada.

E este sol e estes rios e esta terra comprada,
como testemunhas da Revolução já estalada.

E mais nada!”

Impressionou-me, na medida em que o fui conhecendo, no seu modo de viver que aponta para a libertação de estilos faustosos e dispendiosos, apelando a uma vida simples e sóbrio. A libertação da posse de bens terrenos expressa num total desprendimento dos mesmos. A forma como exercia o seu ministério episcopal, aplicando a si mesmo a explicitação dada por Santo Agostinho quando num dos seus sermões afirmou: Sou bispo para vós, sou cristão convosco (Sermão 340, 1: PL 38, 1483-1484). Ou seja, a libertação de qualquer forma de autoritarismo e fundamentalismo, sentindo-se irmão dos demais; a libertação de interesses egoístas e corporativos, colocando o mandato que recebera da Igreja ao serviço dos mais desprotegidos.

Nada pedia para si, mas nunca se esquivou a pedir para os mais frágeis, sobretudo o respeito pelos seus direitos fundamentais, com particular atenção aos indígenas de quem foi um incondicional defensor. O cuidado para que as ações que praticava não levassem à anulação dos dons de alguém, fazia com que potenciasse o que de melhor as pessoas tinham, proporcionando a libertação dos humilhados pelo poder político ou patronal, dos esquecidos do valor da sua dignidade.

Com muita coragem, recusou-se a calar a sua voz na defesa dos oprimidos, gritou bem alto, por palavras e ações, a libertação de todos eles e de todos as formas de opressão. Como sempre tem acontecido com outros cristãos que fazem as mesmas opções, os incomodados com ele, preferiram atribuir-lhe motivações marxistas, apelidando-o de “bispo vermelho”, quando só a leitura radical do Evangelho o levava a ser coerente com o anúncio da Boa Nova.

Pelas perseguições e atentados à própria vida que sofreu foi mais um mártir, apesar de não ter derramado sangue do tipo RH, mas não pode deixar de verter muito daquele que só brota da alma. Com um coração prenhe de compaixão comungava a vida do povo, pobre e sofrido, nas horas de alegria, mas sobretudo nas de dor, ajudando-os a alcançarem uma libertação interior que fez de muita dessa humilde gente pessoas fortes na tristeza e gratas nos sucessos.

Pertenceu à Congregação dos Filhos do Imaculado Coração de Maria, uma das que, em Portugal, muito estimo pela influência cristã que tiveram na minha infância e juventude. Rejubilo com todos os cordimarianos por um dos seus ser fiel discípulo de Jesus e amar o coração simples e generoso de Maria de Nazaré. O bispo Pedro Casaldáliga viveu, pondo-se a caminho apressadamente (cf. Lc 1, 39) sempre que era necessário ir ajudar alguém em dificuldades.

Casaldáliga foi um intrépido defensor da Casa Comum, incorporando, desde há muito, o apelo deixado por Francisco na Laudato Si’ de que é urgente a prática de uma ecologia integral.

Não sei se este profeta do nosso tempo, um dia, será elevado aos altares. Sei que fica como uma referência para quem se decide a seguir Jesus, o maior e mais credível arauto da autêntica libertação.

 

Eugénio Fonseca é presidente da Cáritas Portuguesa

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Depressa passas de bestial a besta”

[Lugar (in)comum]

“Depressa passas de bestial a besta” novidade

“Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível.” [Texto de Júlia Costa]

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This