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Morte do poeta

Pedro Tamen (1934-2021): “A situação do poeta é em tudo comparável à do místico”

| 30/07/2021

 

 

“A situação do poeta é em tudo comparável à situação do místico, porque, no fundo, tanto um como outro têm a noção, têm a visão – a visão é a palavra – desse outro mundo misterioso. E tanto um como outro têm a dificuldade de o exprimir; esbarram na impossibilidade de o exprimir, e sentem como seu limite, efetivamente, o silêncio”.

As palavras são do poeta Pedro Tamen, que morreu nesta quinta-feira, 29, em Setúbal, com 86 anos. Foram proferidas em 2010, no âmbito de um ciclo de conferências organizado pelas Monjas Dominicanas do Mosteiro do Lumiar, em Lisboa, dedicado ao tema “Na fronteira de Deus e do mundo”, que o olhar atento de Rui Martins nos recorda agora, no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC).

Pedro Tamen nasceu em Lisboa e deixou a sua marca não apenas na criação poética, em que se estreou em 1956, com o livro “Poema para todos os dias”, mas também na tradução de obras de autores de referência como Proust, S. Francisco de Assis, Sartre, Foucauld, Bataille ou Flaubert. Foi convidado por António Alçada Batista para sócio da Livraria Moraes, no âmbito da qual lançou projetos e coleções de grande impacto cultural e religioso como “Círculo de Poesia”, “Círculo do Humanismo Cristão” e “O tempo e o modo”, que viria a ser o título da revista de que foi editor, em 1963.

A Moraes, enquanto editora, nota o site do SNPC, «afirma-se como pioneira na reflexão dos grandes temas do concílio Vaticano II”, mas O Tempo e o Modo “não era, porém, uma revista de católicos”: «Haveria de seguir os passos de Emmanuel Mounier, que fizera em 1932 da revista Esprit um lugar de abertura e diálogo com não católicos».

Tamen trabalhou, além disso, como chefe de redação no jornal Encontro, da JUC (Juventude Universitária Católica), e foi diretor da revista Flama. Já depois do 25 de Abril de 1974 viria a ser administrador da Fundação Calouste Gulbenkian durante um quarto de século.

Como sublinhava Pedro Mexia, em declarações à TSF, a propósito da morte do poeta, Tamen foi sempre um “poeta singular”, com uma trajetória também ela singular, não enquadrável neste ou naquele movimento.

António Ramos Rosa observou, um dia, que “a poesia de Pedro Tamen é um incessante exercício de liberdade que corre o risco de se perder na insignificação total e, por outro lado, uma busca permanente de uma frescura inicial (que é a frescura da dimensão do instante recuperado na sua transparência)”. Além disso, “não obstante a opacidade negativa de muitos dos seus poemas, é também a reinvenção que, no próprio obscurecimento do sentido, instaura uma possibilidade aleatória, que é já uma esperança e uma vitória sobre o drama existencial” (in Incisões Oblíquas, p. 91).

 

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