Israel baniu entradas na cidade

Pelas ruas de Jerusalém, 3 mil cristãos celebraram o Domingo de Ramos, mas maioria dos palestinianos ficou de fora

| 26 Mar 2024

Cristãos na procissão de Domingo de Ramos em Jerusalém. Foto BM CTS

Participaram na procissão em Jerusalém inúmeros religiosos e religiosas e também centenas de fiéis das comunidades cristãs locais. Foto © BM/CTS

 

É considerado um dos eventos públicos cristãos mais extraordinários: a procissão de Domingo de Ramos em que milhares percorrem o mesmo trajeto que Jesus terá feito para entrar em Jerusalém e aí celebrar a Páscoa, antes de ser crucificado. E, apesar do conflito Israel-Palestina em curso, voltou a realizar-se este ano. Só que com a participação de muito menos fiéis que o habitual, dado que Israel proibiu a maioria dos cristãos palestinianos na Cisjordânia ocupada de entrar na cidade. Mesmo assim, cerca de três mil pessoas desceram o Monte das Oliveiras envergando palmas e ramos de oliveira, e fizeram questão de manifestar a “alegria de ser cristão”, sem esquecer os “queridos irmãos em Gaza”.

“Apesar da guerra, apesar de tudo, quisemos celebrar novamente este ano a entrada triunfal de Jesus na Cidade Santa”, afirmou o Patriarca Latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa, no final da procissão, que terminou no pátio da Igreja de Sant’Ana. “Talvez nestes meses – continuou Pizzaballa – nos tenhamos sentido perdidos, desnorteados, sozinhos e sem referência. Às vezes, esta guerra terrível que parece nunca ter fim faz com que o nosso medo do futuro cresça cada vez mais. Mas hoje estamos aqui novamente, embora poucos, sem peregrinos e sem tantos dos nossos irmãos e irmãs de tantas partes da nossa diocese, que não puderam juntar-se a nós. Poucos ou muitos, o importante é estarmos aqui e gritarmos com força e fé que temos uma referência, Jesus Cristo. Que não estamos sozinhos e não estamos abandonados e, acima de tudo, que não temos medo!”.

O Patriarca Latino de Jerusalém referiu-se depois aos habitantes de Gaza: “Os nossos pensamentos vão em particular para os nossos irmãos em Gaza. Meus queridos, vocês não estão sozinhos. Toda a Igreja de Jerusalém está unida a vocês, abraça-vos e agradece pelo vosso testemunho de força e coragem. Juntamente conosco, todas as Igrejas, todos os nossos irmãos e irmãs do mundo, oram por vocês e com vocês”, assegurou.

Em seguida, fez um apelo aos muitos peregrinos que, por causa do conflito, também não puderam chegar à Terra Santa: “Queridos amigos, estamos à vossa espera. Não tenham medo, voltem para Jerusalém e para a Terra Santa! A vossa presença é sempre uma presença de paz, e nós precisamos tanto de paz hoje, que você nos tragam a vossa paz”.

Cardeal Pizzaballa na procissão de Domingo de Ramos em Jerusalém. Foto BM CTS

“Os nossos pensamentos vão em particular para os nossos irmãos em Gaza. Meus queridos, vocês não estão sozinhos”, afirmou o cardeal Pizzaballa no final da procissão. Foto © BM/CTS

 

Tropas israelitas “posicionadas em peso”

Israel aumentou as restrições à entrada de cidadãos estrangeiros, em alguns casos como forma de retaliação à posição dos respetivos governos, que apoiam o cessar-fogo, e proibiu milhares de cristãos palestinianos na Cisjordânia ocupada de entrar em Jerusalém para participar das celebrações do Domingo de Ramos, denunciou o Middle East Monitor na sua edição desta segunda-feira, 25 de março. Tropas israelitas “foram posicionadas em peso nos vários checkpoints em redor capital israelita e nas ruas e vielas da Cidade Velha” para garantir que ninguém entrava sem autorização.

De acordo com a Catholic News Agency, os cristãos dos Territórios Palestinianos obtiveram duas mil licenças para este dia, mas com pouca antecedência, pelo que muitos não conseguiram chegar à Cidade Santa. No entanto, vários fiéis vieram de Tel Aviv e da Galileia. E marcaram presença inúmeros religiosos e religiosas e também centenas de fiéis das comunidades cristãs locais.

Apesar das restrições, a procissão ficou marcada pela alegria e, ao longo de todo o percurso, não faltaram cantos e danças. Das varandas, várias famílias dos bairros muçulmanos observavam, curiosas. No topo de uma das encostas, um pequeno grupo de crianças ofereceu água aos participantes e, ao entrar no Portão do Leão, o patriarca foi saudado com uma “chuva de arroz e pequenas guloseimas”, relata a correspondente da Catholic News Agency na Terra Santa, Marinella Bandini.

Cristãos na procissão de Domingo de Ramos em Jerusalém. Foto SG CTS

Apesar das restrições, a procissão ficou marcada pela alegria e, ao longo de todo o percurso, não faltaram cantos e danças. Foto © SG/CTS

 

Em Gaza, uma celebração com “rostos sombrios”

Cristãos na celebração de Domingo de Ramos em Jerusalém. Foto Ilquddas Ara

Na única paróquia católica de Gaza, a paróquia da Sagrada Família, cerca de uma centena de fiéis reuniram-se também para assinalar o início da Semana Santa. Foto © Ilquddas Ara

 

Entre os participantes na procissão, encontrava-se o padre Gabriel Romanelli, pároco de Gaza, que ficou visivelmente emocionado com as palavras do cardeal Pizzaballa. “Nunca vos abandonaremos”, reiterou o patriarca, “e faremos tudo o que pudermos para vos apoiar. Eu sei que esta noite parece interminável, mas não tenham medo, mesmo esta noite terminará, e o amanhecer do terceiro dia chegará para vocês e para todos”.

Enquanto isso, na única paróquia católica de Gaza, a paróquia da Sagrada Família, cerca de uma centena de fiéis reuniam-se também para assinalar o início da Semana Santa. Mas, apesar da alegria associada à celebração de Ramos, nestes fiéis eram visíveis “feições tensas, olhos escuros e rostos sombrios”, como dá conta a reportagem do L’Orient Today. “Desta vez, não estamos com vontade de comemorar”, confessou a irmã Nabila Saleh, em declarações à AFP.

“Estamos todos no mesmo barco. Todos sofremos as mesmas dificuldades e os mesmos horrores da guerra. Esperamos que o próximo ano seja de bondade e paz para a nossa amada terra, a Palestina”, acrescentou a freira da Congregação do Rosário de Jerusalém, que tem estado refugiada na paróquia, juntamente com várias famílias cristãs, num total de cerca de 600 pessoas, incluindo muitas crianças deficientes e doentes, a quem procura dar assistência.

“A situação continua a ser extremamente grave e piora a cada hora. Os nossos cristãos têm fé e esperança no essencial, em Jesus Cristo”, afirma o padre Gabriel Romanelli, que tem mantido o contacto diário com os paroquianos. “Eles estão a suportar um calvário sem trégua há meses”, acrescenta. “Apesar de tudo”, conclui, “eles rezam pela paz todos os dias e oferecem os seus sofrimentos e dificuldades para um cessar-fogo e a libertação dos reféns”.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Irritações e sol na cara

Irritações e sol na cara novidade

“Todos os dias têm muito para correr mal, sim. Mas pode-se passar pela vida irritado? Apitos e palavras desagradáveis, respirações impacientes, sempre com o “não posso mais” na boca.” – A crónica de Inês Patrício, a partir de Berlim

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This